Cultura

“Quem teve a mão decepada, levante o dedo”

Nicolas Behr, brasileiro, estudante (em 1978), poeta, residente em Brasília, foi indiciado na época pela polícia federal, sob a alegação de porte de material de cunho pornográfico, “arsenal” constituído por livrinhos de poesia seus. Recordando o fato, imaginei o seguinte diálogo (fictício) entre o policial e o poeta

 

Inquisidor:  – Qual é a sua profissão?


Nicolas: – Poeta.


Inquisidor: – E desde quando poeta é profissão?


Nicolas: – Está bem, escritor, eu sou um artista.


Inquisidor: – Ah… artista! artista tem regulamentação. Um momento.

Inquisidor abriria um livro grosso, folhearia a regulamentação e, depois, diria:

Inquisidor – Aqui está… Deixe-me ver… Como eu previa! Pela Lei 6.533 de 24.05.78, regulamentada pelo Decreto 82.385, de 05.10.78, que dispõe sobre as profissões de Artista e de Técnico em Espetáculo de Diversões não consta nem escritor nem dramaturgo. E olha que a lista é bem grandinha… A descrição que mais se aproxima é a de Redator Final de Fotonovela e Roteirista Cinematográfico. Então, se não está aqui, o senhor não é um artista. O senhor é um… desempregado, e, pior, um desempregado que faz livros subversivos.


Nicolas:  São livros de poesia…


Inquisidor: – São livros que não tem nem 48 páginas, como exige o Instituo Nacional do Livro, e que achincalham com a política… “Se é para bem de todos/ e felicidade geral da nação/ diga ao povo que direitos, direitos,/ humanos à parte”. Isso lá é poesia? Isso é deboche. Um acinte. Um escárnio à nossa História do Brasil!

 

Nicolas: – Se é tudo isso, então não é pornografia nem atentado à moral…

 

Inquisidor: – É, sim senhor, atentado à moral… Cívica! Ao pudor ufanista!!! Aos bons costumes brasileiros. O senhor não sabia que é crime de segurança nacional ter um mimeógrafo?

 

Nicolas: – Mesmo quebrado?

 

Naturalmente o policial não perceberia a ironia da pergunta e prosseguiria compenetrado:

Policial: – É sempre muito suspeito ter um mimeógrafo em casa. E, no seu caso, como o senhor mesmo já confessou, ele era usado para rodar estes livrinhos, que nada mais são do que panfletos, incitando esses comunistas à badernagem. Igual àquele outro estudante, o tal do Alex Polari, que distribuía suas poesias mimeografadas em plenos comícios…

 

Nicolas: – O senhor está enganado, eu não distribuo meus poemas, eu vendo meus livrinhos de mão em mão…

 

Inquisidor: – Livros? Que livros? Iogurte com goiaba, Chá com porradas, Vinde a mim as palavrinhas, Fala do Trono… Esses “títulos” parecem códigos camuflados. E a tal da editora então, a POBRÁS, com toda certeza uma cooperativa clandestina… Está em dia com os impostos? Cadê a documentação? Mostre-me o contrato de constituição da firma.


Nicolas: – É só um nome de fantasia… 


Inquisidor (sorrindo triunfante): – Eu não disse? Uma firma completamente ilegal, funcionando sabe-se lá com que propósitos, o que representa um verdadeiro perigo à Nação. Nem mais uma palavra, já entendi tudo: “teje” indiciado!

 

Passemos à realidade: Nicolas foi a julgamento (Processo nº 187278) e, em uma belíssima sentença, foi inocentado pelo Juiz da 8ª Vara Criminal de Brasília, Dr. Petrúcio Ferreira da Silva, que viu, nos livros dele, “apenas a poesia em seu papel de comunicação”, desejando que nunca lhe faltasse aquela mesma coragem e vontade de busca, na seu agir poético.

 

Muitos intelectuais se manifestaram a favor de Nicolas Behr, inclusive Carlos Drummond, que o defendeu em uma de suas crônicas, dizendo: “Veja como pode ser perigoso para o cidadão ter em seu poder livretos de cunho pornográfico cuja classificação fica dependendo do senso crítico das autoridades policiais”. Ao saber da absolvição, Drummond voltou a se pronunciar, com muita lucidez, afirmando: “Não nos deixemos enganar pela ilusão da vitória contida nesta absolvição. O absurdo está na ação. Mas temos um tempo tão difícil que até as medidas mais simples de redemocratização assumem proporções gigantescas e são tidas como significativas conquistas”. Na época, eu também fiz uma matéria sobre o episódio e entrevistei Nicolas para o jornal “Em Cartaz”, de Curitiba.

 

Nicolas Behr foi um dos poetas mais representativos do período da poesia marginal que eu chamo de “heroico”, não só pelos conteúdos poéticos explosivos (o título desta crônica é um “poema-relâmpago” dele), mas também pela forma com que analisava as ânsias artísticas que moviam a Geração 70: “Queremos público, não queremos imortalidade. Queremos ser inesquecíveis. Queremos o coração dos leitores, não queremos estantes. Pelo sonho, pela utopia, pela audácia de sobreviver daquilo que a gente gosta de fazer: poesia. Sonhamos sair do círculo familiar dos amigos. Poesia para as multidões. Esse atrevimento irrita muita gente, incomoda. Principalmente, os que detêm o poder literário. Para eles não somos poetas, somos ameaças. Eles mantêm o status quo literário. Somos todos geração mimeógrafo: não é o meio que se imprime, é a atitude de tentar levar o ato de fazer poesia às últimas consequências”

 

Essas recordações vieram à tona por três motivos: os dois primeiros dizem respeito a dois eventos que participei há pouco: estive na primeira mesa de debates da REVISTARIA, no canal SESC Ipiranga do YouTube, e no simpósio on line da Universidade da Flórida (Miami/Estados Unidos), que adquiriu meu acervo particular de jornais imprensa alternativa, em 2006, cerca de 3.000 exemplares –, batizando-o com meu nome: “The Leila Miccolis Brazilian Alternative Press Collection (a curadoria é do Prof. Dr. Steven Butterman). O terceiro se refere a uma data: em março completei três anos de participação em InComunidade, esta revista que dialoga com a pluralidade de falas, atitude comportamental que sempre adotei, especialmente para a poesia – tão sem espaço em nosso país –, pois creio que só assim podemos mudar para melhor alguma coisa no mundo através da nossa literatura. E a historiografia, por intermédio da poesia divulgada pelos “nanicos” da imprensa independente brasileira, tem muito a registrar: episódios cômicos, trágicos, pesados, humorados, divertidos, surpreendentes, emocionantes – dentre os quais esta crônica narra apenas um deles, sem dúvida triste, apesar do final feliz –, vinculados a um tempo (tantinho distante) de muita solidariedade e intercâmbio entre os escritores. Relembrá-los é preservar nossa memória cultural, é reviver os bastidores de uma literatura que atuou bravamente protestando pela via da desobediência civil, apenas armada de muita ironia e coragem.

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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