Cultura

Posta-visitante

Eu sou um centro, através de mim saem centros, em mim entram centros. Eu sei o que é não ter centro, ser um edifício fruto sem amálgamas, uma ocasião sem desfrute. 

Ontem quando uma boca se aproximou para enumerar as moradas disponíveis para a próxima semana, o rodopiar e o deslizar da língua a opinar as moradas levou-me a não pensar. A morada de que sou visita não faz parte da lista da próxima semana. A ausência do pensamento é magnífica, o halo tão quente, o sopro, a saliva, o rosnar lento da boca, assim a olho inteiro. Não há tempo. Não me quero isolar, não me quero reciclar, não quero ter que ouvir, que nenhum orgão meu perceba o que podem ser semanas e semanas de espera.

Não permito que me digam como devo imaginar-me, sou ostensiva na minha voracidade, quero ter sempre satisfação. E quando não tenho, choro, não, não choro, fico “frustrada”, não, fico desligada, não há ligação, toda eu funciono de per si, e nada funciona em si. Deduzo que o experimentalismo das sensações se possa redimensionar, e dizer ela ouve, não ouve, ou ela chove ou deixa de chover, o que é que isso quer dizer: que estou viva? Não acredito, céus, não acredito que se possa acreditar na fragmentação total, que alguém pense que por ter uma chaminé tem uma habitação, que por ter um colchão vai dormir, que por beber água uma vez ficará sem sede para sempre, que por ter um cão conhece o reino animal, que por saber escrever a palavra estar está ensinado a rezar pelo mundo, ou a mundar pela reza. O mundo não tem essência, repleto de partes, ignora-as. E as partes em si, não são o todo!

 Desafivela a presunção e a água benta, sacode o chapéu de chuva antes de entrares em casa dos teus amigos, não molhes a carpete, cuidado ao fazer chichi, vê se atinas, se não fica um lago à volta da retrete e o cheiro e os vírus não são coisas que se ignorem. Asneira atrás de asneira, torpor, e depois erecção vulcânica, Oh amigo, má sorte, dizes não poder esconder nada. E depois o que é que se ganha em esconder? A vida de avestruz pode ser singela mas é uma chatice. Depenicar só o que lhe deixam, não poder dizer, sem sombra de dúvida, quero!, é um calvário! 

Quero ir agora visitar a minha filha, quero neste preciso momento. Neste preciso momento não ter que ficar apinhada com as outras visitas, nesta posta-restante de visitas, à espera que nos despachem para os nossos destinos, como antes despachavam as cartas.

Têm que limitar a circulação, têm que checar os destinos, não se pode transitar, mesmo que o destino e a data já tenham sido previstos há meses. E não é fantástico poder aparecer e desaparecer, ter nome e não ter nome? Não é bom ter duas faces visíveis, uma com nome e outra sem nome, sem que te venham perguntar, sem que uma, ou duas, ou três bocas te perguntem o nome, o número, a orientação, a profissão, a dedução, a responsabilidade, a assistência, o percurso, a assunção da postura municipal e a que geração pertences?

Esqueço-me de ser medrosa, enfado e incomodo por não ser suficientemente adequada, não estar a contento da ordem previsível do fluxo das visitas permitidas. Dou aos outros o direito, a possibilidade de crerem que são eles que transformam, dou-lhes o enleio do Poder. A lisura do poder é impressionante, imaculada na sua força, uma caverna onde alguns podem, devem e querem entrar.

O som desta máquina posta-restante de visitas, que debita moradas e moradas, e faz chegar com esse débito um outro número de pessoas que vêem visitar outras que aqui habitam. Sairão daqui em primeiro lugar, aqueles que vieram visitar familiares, todos os outros tipos de relações são deixadas para segundo, terceiro, quarto lugar, neste hotel em que somos cartas vivas. Pede-se o desnorte, que a máquina se estrague arrebanhada numa leva de tornados e retornados, que se abisme na complexidade das premissas com que lida, e que possamos sair todos para visitar os visitados desejados, que já há meses sabem que os iremos visitar. 

Pergunto onde está o primeiro homem que amei? Tê-lo-ei conseguido visitar? Seria homem, cabra, bola de bilhar, pote de açúcar, azeitona verde sobre o pão, plasticina que na mão de algum azelha se transformou em algo de inclassificável?

Um dos meus colegas de espera deixou de falar, emite sons pelo nariz, uma espécie de morse de cozinha, silvos de cafeteira, arranhar de panelas nas grades do fogão, dos lábios escapa-se-lhe espuma. O nariz empina-se-lhe como se procurasse o bulício da cozinha, o acordar de manhã e entrar na desihierarquia, pratos por lavar, bacia com umas peças de roupa que ficaram a ensaboar, cheiro a leite estragado e o odor da putrefacção em redor, e o nariz empina-se-lhe mais ainda, abre o armário para tirar um prato, está lascado, o melhor é ir tomar banho e sair rapidamente. Sair e invadir. Borda fora da cozinha, da casa de banho, do quarto cheio, borda fora, como criatura atirada para um fosso, por cavalo intempestivo. Atirada. Levantar e continuar, sentir o frio, andar. 

Não sei há quanto tempo estará aqui este senhor. Quem estará à espera de ir visitar? A aranha cai sobre a mosca, e depois ergue as mãos ao céu e agradece: obrigada senhor pela vossa fiel presença. As aranhas esperam a visita, nós esperamos poder visitar.

A cadeia dos agradecimentos será ininterrupta, agradece-se primeiro o pão sobre a mesa e depois a mesa, e depois a casa onde está a mesa, e depois a futura casa onde estará outra mesa. E o agradecimento será permanente, igual às benesses e chegará a benesse de podermos ir visitar quem queremos. Aqui neste berço de inércia, a dormir é que a gente se entende. Dormimos muito do verdadeiro sono profundo.

Virtualmente as nossas cabeças transformam-se, arejam-se no sono, ganham sensibilidade, acuidade. Invejável a nossa forma, mas a permanência destas qualidades assombrosas é diminuta, dez minutos depois de acordar começa novamente a cabeça a refazer-se, a tornar-se volátil e fugidia como o vapor de água, a dar mostras de padecer de poderosas agonias. 

A força infinita das nossas cabeças apodera-se deste hotel de cartas vivas, divide-nos em duas partes, racha-nos o corpo em diagonal, uma diagonal denteada. Os dentes desta diagonal entrechocam-se provocando a sensação nos olhos duma oposição: a divisão da luz, de um lado luz opaca do outro lado translúcida. Cada um dos nossos olhos vê coisas diferentes. Só esperamos que a diagonal denteada não nos fira.

Os nossos olhares quando a boca debita a lista dos que podem sair, são olhares de quem pede benção atrás de benção e acredita que a vontade é poderosa, e que não se confunde com o laxismo. Enfileirados como cartas, cantamos um hino à vontade mais forte, à fé mais duradoura, à humildade mais límpida que se possa impor sem quaisquer vestes de dissimulação e se ponha nas mãos de Deus, pronta a receber a maior das benesses: ouvir o enunciado do seu nome. Nem uma vaca em plena auto-estrada em hora de ponta, nem um elefante vestido de aviador com a tromba a sair do cockpit nos distrairia nem por uma fracção de segundo deste ditafone dos nomes daqueles que podem sair e ir fazer as suas visitas!

Havíamos de morrer doidos e tontinhos, com fieiras de nabos e cardos pendurados dos pescoços, vomitando líquidos ácidos e cagando a própria linfa, havíamos de morrer assim e a querer ouvir o nosso nome!

Alguns de nós, se não todos, desejavam que assim morressemos pelo simples motivo que não desejavam verdadeiramente que morressemos de outro modo, menos doloroso, menos humilhante. Assim! Desde que ouvíssemos os nossos nomes! 

Os nomes dos que estavam para chegar, para começar a espera, pareciam ameaças.

As ameaças têm por finalidade não se repetirem, fazem-se uma vez. Bastava uma vez o nosso nome.

Os nomes perdedores voltam um dia vencedores. Restos da bela canja de domingo que à segunda se transforma em sopa de carne, evoluir sistemático de uma coisa que passa a outra. Os animais ordenhados num dia, no outro já eram rezes estripadas no talho.

A nossa opção era piedosa: esperar, não se tratava de abaixar a crista, tinha que se cumprir uma formalidade, ainda para mais, já sobejamente conhecida de todos.

Eu vou-vos dizer o que o sol não disse à manteiga a derreter-se, o mesmo que o Maomé não ousou dizer acerca da carne de porco, sim, sim, porque má faca em manteiga manca sempre entra, e não é judeu o que não se lamenta. Vou-vos dizer que não sei qual o número de jaulas existente neste hotel posta-visitante. Não sei quantos cubículos foram feitos com material isolante para que o som dos cubículos ao lado não entre no nosso. A porta é de vidro com uma cortina que se pode correr, a privacidade é garantida. Quem quer esta privacidade ruinosa? Que impede tacitamente que se fale com o vizinho do lado. 

Separados por tabiques de alta qualidade, emparedados pela função que procurámos, abrigados do mundo. Estamos aqui para que nos seja feita um exame minucioso? Não é que sejamos sondados, que as perguntas feitas sejam penetrantes, não nos é perguntado mais do que os documentos de identificação podem dizer. As caras que não conseguimos sustentar é que acabam por falar descabidamente, até o examinador mais bruto se torna perspicaz perante a mistura de tédio e revolta que nos envolve.

Teremos de arranjar cadeiras para 20 convidados!

É assim que são tratados os próximos que vão chegar para esperar a ordem que lhes permite ir visitar as pessoas que pretendem visitar. Antes de subirem aos andares dos cubículos sentam-se no hall onde lhes é explicado o procedimento. Enquanto eles tomam providências para acelerar os processos, todas as semanas serão indicados os nomes daqueles que poderão prosseguir para cumprirem as suas visitas. Os outros terão que esperar, com a certeza de que estão a ser envidados todos os esforços para que a sua estadia no hotel da posta-visitante seja breve, pelo incómodo… por algum incómodo que possa advir de tal espera, pedem previamente desculpas. Pede-se a todos que controlem o egoísmo próprio da raça humana, insta-se ao cultivo do domínio de si próprio, pede-se um comportamento reservado que não perturbe os outros, abnegação e auto-domínio. A sociedade não precisa daqueles que se desvanecem em auto-elogios, mas sim, daqueles, cujo instinto de conservação eleva a um calmo e controlado estado de alma, que afasta a negligência dos comodismos e instaura a auto-fecundação da sociedade.

Feita a explicitação dos comportamentos a ter, os convidados são conduzidos aos cubículos. Um velho decrépito caiu quando ia a entrar no elevador, os funcionários depressa o soergueram, ele solícito levou a mão ao bolso do casaco e tirou uma nota para recompensa. O funcionário que a recebeu mostrou-a a todos e tornou a entregá-la com um largo sorriso à figura decrépita daquele velho onde todos podiam reconhecer comportamentos de senilidade avançada. A tremura do queixo, o bambolear inexpressivo dos braços em cadência de pêndulo, o pingo constante no nariz que ele se esquecia de limpar, a surdez avançada responsável por uma parte significativa do seu autismo.

Os que já cá estão fixam um ou outro dos convidados, aqueles que tem traços distintivos, tais como a decrepitude do velho que caiu ao entrar no elevador, os outros parecem colonos sem trono, chegam e passarão a aumentar o grupo de colonos. Não os cumprimentamos, não lhe damos as boas vindas, dispensamos ser cínicos, eles não fazem barulho e nós respeitamos o facto de serem nossos iguais. 

Aqui não vai cair nenhuma estrela cadente, nenhum meteoro, não há negócios, nem parques de estacionamento, nem balconistas para nos enganarem nos trocos, estamos à margem do quarto escuro. O cubículo que nos foi determinado é uma câmara de fuzilamento, um tempo branco para fazer uma guerra real ao passado, as memórias em torno daqueles que desejamos visitar mesmerizam-se, um vapor abundante envolve-os como se eles tivessem tomado um chuveiro de horas com água a altas temperaturas. Começo a sentir um enjôo ao pensar na minha filha, imagino-a com suíças brancas e grandes que lhe tapam praticamente toda a cara, sinto que tem as costelas flutuantes partidas, o nariz dela parece-me uma baioneta, o brilho sedoso dos seus cabelos cheira-me a silicone industrial de vedar janelas e betumar ralos. Um cheiro a lodo e limos impregna-lhe as mãos e a voz algo aguda que sempre lhe conheci, ouço-a como os esgares estilísticos de um bobo simplório. Areia finíssima embacia-lhe os olhos, sinto-a sinistra, funesta ameaçadora.

Tenho que sair da câmara de fuzilamento, apanhar ar, mas se sair, vou perder a minha vez. Quando nasci acho que foi a única vez que não tive que esperar pela minha vez. Caio na “última câmara do coração”. É esconsa, angulosa, todo a arquitectura é assimétrica. Quero ir para o quarto escuro, é aí que preparam os esqueletos dos fantasmas ou, antes, é aí que tiram os esqueletos aos fantasmas e lhes esboçam os desenhos dos drapeados. No quarto escuro posso descansar, não tenho luz nem castigo. A última câmara do coração, quem falava dela era o Rilke, um homem muito magro e melancólico, que ouviu o seu nome na semana passada, e saiu para ir ver a filha. Ele disse-me muitas vezes: “procuro a última câmara do coração”. Apetecia-me olhar para o Rilke, apetecia-me procurar a última câmara do coração, não fosse o coração um orgão gasto e devastado pela lepra do palavreado. 

A indolência é uma qualidade obscena, de chinelos e roupão todo o dia. Até a greve de uma tartaruga parece um acto de agitação. Cheiro com os pés e ando com o nariz, deve haver uma história de urgência na minha vida, é aqui neste cubículo que descubro que devia ter sido discípula de alguém, cantado uma sonatina ao fim do dia em hino orgiástico a alguma crença enraizada e sofismática. É a sofisticação que me mata num fuliginoso e enxuto arcaísmo que faz de mim o seu violino.

A minha filha é sadia, firme, com a moral de uma rocha, é o retrato em crescendo do que eu fui, doce, idónea, é a filha que eu desejei, embora eu não a tenha imaginado, embora eu tenha usado de parcimónia ao querê-la. Ela encheu um espaço vazio, durante algum tempo, depois foi-se, e o vazio voltou imediatamente. Deixei-o para trás a velocidade de lancha, não quis pressionar, quis ser um exemplar grátis de mãe. Dei e não pedi. Mas a minha vontade afinal era de refugo, escada em segunda mão emprestada pelo vizinho que depois diz que a estragámos, e temos que devolver uma nova.

Desisto de lavar bem esta criança que se suja todos os dias como um porquinho da India esponjoso, peço protecção para a madrinha da minha filha, porque é ela que me vai substituir, procuro um patrocinador para o vazio espontâneo que se instalou depois de ela partir. O meu suporte para protecção acabou, salto como uma mola desta carruagem de curta distância que vai perdendo velocidade à medida que vai perdendo as rodas.

Não há estímulos para a continuar a julgar como minha, a árvore genealógica é falsa, a minha filha se calhar é filha de um número, de um quadrado, de um cúmplice que foi estrangulado por ser delator e lhe ter dado o mesmo nome que a mim. Liquido 18 anos depressa, sem guinchos, não sou nenhum porco em dia de matança, a mãe do porco há muito que deu o último guincho. É esta morte nauseante que esperneia em cima da banca, já retalhada por facas e machados, é esta morte penetrante que agita a indolência de estrebaria que me aparelha. É com gás de combustão e incenso que percorro esta cena de acção, tantos anos para a visitar e agora que a verei proximamente não a quero ver. A sua fuga precipitada, o pânico com que disse tenho que partir, o sangue que lhe saltou das narinas e lhe manchou a t-shirt branca, ela julga que isso a iliba.

Comecei por ser uma estrela do mar fixada no quadro de cortiça, rodeada dos cromos e outras imagens preferidas, salientava-me, e o seu olhar não era vago quando olhava a estrela do mar. Devo ter sido uma estrela do mar, e eu odeio estrelas do mar, odeio tudo o que sejam despojos, tudo o que sejam mortos fossilizados para permanecerem vivos. Naquele instinto de me fossilizar eu pressentira um começo estatístico, uma tendência para me transformar numa, de muitas coisas e não era eu que estava ali, mas um símbolo imutável e imóvel. Que não podia sofrer mutações, que não podia desejar a meio do caminho outra filha, eu tinha que alimentar a fornalha daquela afectividade por fósseis. 

Eu tinha que ser um fóssil, um seixo, um pedregulho, uma estrela daquelas que se aproxima e nunca se afastam. Forjava no silêncio a lápide com que havia de cobrir-me, trabalhada com condescendência e de cronómetro em riste, nem mais um minuto de complexidade.

Estás e vais, passageira clandestina nesta operação em que não convém desiludir as pessoas. Devo ter sido muito austera quando não devia, pouco calorosa quando devia. Ter-me desfeito em calor humano. Há alguma coutada do afecto que eu não tenha invadido com a minha presença prosmíscua? Fiquei na soleira da porta quando devia ter entrado? Água navegável, irrepreensível, inorgânica, um líquido sem resistência onde a minha relação pudesse correr suave, onde eu e a minha filha pudéssemos ser almas insondáveis sem obrigação de se prescrutarem.

“Away! Leave me alone to meditate”, posso gritar no meu cubículo.

Desafinar virada para as paredes, experimentar o tentei tudo, dramático, distorcer o que aconteceu, descer a baínha do vestido para dizer que estou na mesma, ensaiar a experiência inexplorada de errar sem sentir que estou a molestar alguém. !Away! Leave me alone to meditate”. Quero vingar a falta de decisões, o não lavado aspecto da memória que cobre o rosto da minha filha quando pensa em mim, que espécie de urinol é a mágoa que adquiri, uma mágoa ritual que se manuseia indefinidamente, um costume usurário que alimenta a auto-compaixão? Gastei todo o dinheiro nesta viagem. Quem mo pediu? Queria que alguém mo tivesse pedido, queria sentir a pressão da chantagem afectiva? 

Sou vegetariana porque enjoei costeletas de vitela, porque a carne me tornava ansiosa, abóbada sem firmamento, dava saltos acrobáticos no vazio, verbalizava tudo, até a prisão de ventre, o artritismo que me ataca as mãos, a irritação das virilhas que por causa do excesso de peso roçam uma na outra, os fungos nas unhas dos pés que apanhei há uns anos nas piscinas que mais pareciam tanques de verdete, o mau hálito provocado por uma irritação constante do fígado. Estaria exultante no éter a procurar um refrigério, um ovo fundo de queixume, a verdejar a secura que se arroja em mim, exultante no éter a empolar as qualidades e condições da minha imutável vida. 

Não quero visitar a minha filha, o vício de dizer, falar, a minha. É isso que define o tráfico dos tóxicos que é a minha relação com ela. Não há nada que nos una a não ser um obnóxio cordão umbilical do qual estamos ambas penduradas como um semáforo de sinalização numa via que já não é utilizada, e foi ali deixado, e haverá alguns automobilistas que ainda irão parar e tentar perceber qual o sinal que está aberto.

É uma grosseria a falta de delicadeza com que nos temos plebeizado uma à outra, vomitamos fel quando respiramos.

Wac, Wac, Wac, o vento está a formar uma tempestade, quando chegar o momento alto da narrativa, começa a chover, a trovejar, a ventar, ou se estivermos no Verão, a temperatura sobe de modo a que os corações não aguentem e haja duas ou três a desmaiar, mesmo só uma pessoa chega!, se for basilar para a narrativa haver pessoas que desmaiam! A natureza está de acordo com os dramas interiores, a natureza exponencia e clarifica as naturezas interiores que mais dificilmente se expressam. Wac, Wac, Wac o vento meneia-se contra as janelas de vidro da posta-visitante, o efeito é desajeitado e bruto, as pancadas são fortes Wac Wac Wac Wac. Estará alguma coisa para acontecer aqui? Sou eu que vou morrer? Não é por isso que quero visitar a minha filha? Porque estou crente que vou morrer? Assim é! 

Vou morrer. Esta espera desanca-me, porque sei que não tenho muito tempo para esperar. Ou talvez não seja eu, com certeza é mais lógico, que esteja para morrer o velho decrépito que caiu quando eu ia a entrar para o elevador, não se aguenta nas pernas e tem a cabeça feita em vinha de alhos, não tem uma percepção correcta do mundo, não quis dar?!, vejam a estupidez galopante!, não quis dar uma gorjeta aos empregados que o ajudaram a levantar-se?! Um canguru num aquário de tubarões estaria mais integrado! Se ele morrer, quem quer que ele tenha vindo visitar já estará à espera de pagar o funeral. O que se espera dum ser em tão alto grau de decomposição? Que morra presto, que não se deixe viver até ao ponto de ficar a vegetar num chafurdeiro de merda e senilidade. A morte dele é uma ânsia para aqueles a quem ele vem visitar, assim não terão que o ouvir gaguejar incongruências, peidar-se no meio das refeições, apnear no silêncio da noite. O Wac, Wac, Wac é para ele um cadáver adiado. Neste velho sem auto-vigilância sente-se já um cheiro a armazém de alimentos desafectados onde cães vadios urinam e ratazanas do tamanho de gatos fornicam e mijam em ardente acção. Puseram-no num cubículo mais próximo da saída, e deram-lhe lençóis descartáveis, e entregaram-lhe vários sacos de bicarbonato de sódio para lavar a dentadura.

Aquele vai sair deitado. Certo é que não cairá quando sair do elevador!, o Wac, o Wac, o Wac parece agora uma fralda molhada a bater numa tábua de lavar a roupa, os olhos lacrimejam-me, sinto água na boca, uma maré alta de saliva em bailado aquático despeja-se sobre o peito da camisa de dormir. Há quantos séculos não vestia camisas de dormir?!, gosto de dormir nua, comprei umas camisas de dormir quando vim aqui para a posta-visitante. Alguém pode ter que me encontrar, não vim aqui para visitar a minha filha, vim para aqui para ter a certeza que o meu corpo não vai ser encontrado um mês depois de ter exalado o último suspiro. Todas as manhãs os cubículos são aspirados, e temos que estar a pé. O Rilke aspirava ele próprio o cubículo para ser mais depressa.

O estado atmosférico está a tornar-se enfadonho, o Wac Wac wac parece uma traqueia descolada a tentar abrir espaço para sair pelo peito mas sem o conseguir. Esfalfa-me ouvir este Wac Wac Wac monótono. Esta noite pensei no meu ânus que está seco e gretado, e dói-me de uma forma sobrenatural, como se tivesse ganho vida própria, os intestinos devem ter-se enlaçado e desenhado um papillon. Santo Plínio, terás mesmo razão quando dizes que Deus é menos livre do que nós? Porque mesmo que o quisesse não poderia pôr termo à vida? Não tragas um santo à colação se é para não o ouvires, não faças perguntas retóricas sobre assuntos sérios, não prendas um fio de lã ao dedo mindinho se não queres praticar a acção que era suposto esse fio de lã lembrar-te para a praticares, não chames água ao ar. 

Acaso sabes o que é o poente? Não, mas quando invoquei santo Plínio não foi com desdém. Deus é menos livre que eu, porque não pode ressuscitar os mortos e não tem nenhum poder sobre o passado. É por isso que ele não deve ser invocado, não me faz esquecer a minha filha, não me pode dar outra versão de vida e não pode impedir que eu saia daqui deitada, confortável, ensopada em perfumes odorosos e banhada em flores brancas, isto, se ela pagar o funeral. Se ela ainda viver no mesmo sítio, isto é, se ela ainda se lembrar de mim, isto é, se o Wac , wac, wac não estiver a bater por ela.

Pela lógica, este filme não é um Western.

 

 

Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer.

GLOSSÁRIO

Apnear (de apneia)

“Away! Leave me alone to meditate” da peça de Marlowe “The Massacre of Paris”. Christopher Marlowe (1564-1593). Autor dramático inglês. Contemporâneo de Shakespeare. Patética e poderosa a sua obra desenvolve uma apologia da revolta individual e atinge uma alta qualidade trágica.

“exultante no éter” expressão de Hölderlin, “Hinos Tardios”. Friedrich Hölderlin (1770-1843). Poeta alemão condiscípulo de Hegel no seminário prostestante de Tübingen. Partilhou com ele o entusiasmo pela revolução francesa. Exaltou os ideais da liberdade e beleza humana. A sua poesia fala entre outras coisas da comunhão com a Natureza, o Éter, o Sol e a Terra.

Mundar (de mundo)

Presto –  a breve trecho, prontamente (italiano)

Rilke – Rainer Maria Rilke, escritor austríaco 1875-1926. A sua obra é um repositório eloquente e profundo do que é a sensibilidade exarcebada. Sensibilidade dividida entra “uma aspiração ardente à luz” e uma angústia furiosa e ardilosa perante a miséria, o sofrimento e a morte.

“última câmara do coração”- verso de Rainer Maria Rilke

Santo Plínio- de Plínio (ver O Ar aqui na terra), Plínio considerava Deus menos livre que os homens porque não poderia matar-se nem que o pretendesse. E também não tinha nenhum poder sobre o passado, nem sobre a irreversabilidade do tempo

Wac- abreviação de Women´s Army Corps

Wunderbar- maravilhoso (alemão)

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