Cultura

Poemas

I

 

Tenho uma idade que já não encomenda cotovias. 

Migraram dos lábios os poemas inflamáveis. 

Arder era uma música de hormonas descalças, 

mas dançou em nós uma civilização de vermes. 

Caminho. Os pés, duas candeias que acendem a locomoção. 

A paisagem sem limalhas na garganta repete: 

vê na antologia dos outros, 

o itinerário do pássaro que em ti se vai alagar. 

As cigarras imersas no termómetro das searas 

convidam a face a visitar nas rugas as estátuas de Agosto. 

Passam corvos, um luto que voa. 

A brisa mergulha numa árvore. 

Os ramos lançam a sua roupa no solo. 

A pastagem, enciclopédia verde lida pelo gado. 

O céu é uma fenda. 

Trovejei sempre nos subúrbios de Deus. 

Vi fugir dos templos animais horrendos 

e crianças vasculhadas como uma gruta. 

Gosto apenas da música sacra que brota dos loucos 

e aprendi a domesticar a insónia com Chopin. 

A auto-estima não é um bosque. 

O pensamento gosta de beber ciclones 

em egos que se maquilham com duzentas léguas de mitos. 

Os homens estalam sempre na cerâmica da mesma pergunta: 

 

Em que idade atraca o corpo na cave da Primavera? 

 

 

 

II

 

 

Aqui o planalto é um caçador. 

Cada minuto uma autópsia aos poços e alçapões. 

Sabemos agora: há muito que o corpo está desempregado da infância. 

Nesse tempo, o ritmo dos animais era um salmo. 

A neblina massajava as árvores. 

Às primeiras sístoles dos pássaros, 

os ramos iluminavam de orvalho a audição da pastagem. 

As cigarras liam a sina ao estio. 

E entrávamos sem fita métrica nos hospícios 

para trazer mil graus centígrados de Chagall no peito. 

As raposas não eram hóspedes dos lábios, 

nem a garganta uma submissão do capitalismo. 

Os dias financiaram a velocidade 

e fundou-se uma religião de nuvens. 

A nossa laboriosa raça humana 

não passa de uma fatídica procissão de fantasmas, 

que vão do nada ao nada

Não respirámos as bússolas prescritas por Unamuno 

e foram os discípulos de Hipócrates 

que nos navegaram em rotas 

onde o pensamento subiria pinturas de Dalí. 

O ego é um meteorologista convicto. 

 

Assim vai a Primavera interior dos homens na cidade: 

florimos serotonina.

 

 

 

III

 

 

Sou um violino que leva magnólias nos tendões. 

Atravesso a radiografia do silêncio. É sublime a inutilidade do dia. 

Ter tempo para verter deuses na lepra. E repetir várias vezes: 

na Primavera é preciso alugar um duplex para a sedução. 

O amor nem sempre foi este lago com animais fabulosos bebendo o rio 

e a água entoando nas veias o prado. 

Lembro-me da tua boca a recitar trovões. 

O céu vindimado e harpas despenhando-se até à extinção. 

Nesse tempo desconhecia: a loucura é um fogo profundamente lúcido. 

O amor, hospício para quem gosta de andar a galope no vidro. 

Assim entrei no escuro. 

Nunca aprendi o mercantil movimento das sílabas 

que bebem no dorso das máscaras. 

Fui célere a escrever a autobiografia do porão. 

Como Herberto Helder, passei a acreditar: cada dia é um abismo atómico

As estações caminham sumptuosas bebendo a largura da impermanência. 

Cada coisa arrumada na sua fenda dançando a espera. 

As garras da idade afirmam: o mel é côncavo. 

Há nas ancas destas montanhas, árvores com o umbigo virado para a água. 

E nas margens, algumas pedras que migraram de homens em erosão. 

Cheira o pensamento. 

A tecla vital do olfacto é a morte. 

 

Se tiveres dúvidas sobre o itinerário dos deuses, não esqueças: 

Notre-Dame beijou um hemisfério de chamas.

 

IV

 

 

Tenho uma idade já sem falanges. Lâmpadas tensas. 

O verde com as tochas enlouquecidas. 

Mesmo centrifugando inundações,

o pensamento só frequenta árvores sem pulso. 

É carnívora a cidade. A arquitectura daltónica. 

Os homens, laborioso ninho de vírgulas 

na seara do capitalismo. 

Talvez Beckett tenha lido este lugar: 

o hábito é o balastro que prende o cão ao seu vómito

A rotina, sono extremo 

onde se perdem as rédeas às máscaras. 

Acreditámos que a boca 

iria pedalar Whitman perpetuamente. 

O design da infância tinha cavalos nos músculos 

e os tendões voavam o corpo para a amplitude. 

Uma corça orava ao sigilo 

e, se o bosque tremia algum rumor, 

deslocava-se ao ritmo do divórcio no século XXI. 

Às vezes, choviam uivos sobre o vale. 

O som municiado pela alcateia, 

arma denunciando a crónica do animal humano. 

A minha mãe dizia: não temas o lobo 

porque quem te vai cercar é a sedução. 

 

A filosofia do estrépito 

esquece a pontualidade da faca. 

 

É no cume 

que o gelo forja 

as cicatrizes mais audíveis. 

 

O amor tem sempre o sotaque da neve. 

 

 

Alberto Pereira, escritor português. Nasceu em Lisboa. Licenciado em Enfermagem. Pós-graduado na área Forense. Diplomado em Hipnose Clínica. 

Membro do PEN Clube Português.

Publicou os livros: O áspero hálito do amanhã (2008); Amanhecem nas rugas precipícios (2011); Poemas com Alzheimer (2013); O Deus que matava poemas (2015); Biografia das primeiras coisas (2016); Viagem à demência dos pássaros (2017); Bairro de Lata (2017) e Como num naufrágio interior morremos (2019).

Participou em colectâneas de contos e poesia. 

Alguns dos seus poemas foram traduzidos para espanhol, francês e inglês.

O livro Poemas com Alzheimer deu origem a diversos quadros concebidos pelos pintores espanhóis Martina Bugallo e Sergio Gonzalez Ribeiro. A sua obra foi igualmente recriada por Artistas Plásticos portugueses.

Bairro de Lata foi editado no Brasil na icónica colecção “Dulcineia Catadora”, onde participaram grandes nomes da poesia brasileira como Manoel de Barros e Haroldo de Campos.

Foi distinguido com vários prémios dos quais se destacam: 1º Prémio do Concurso Literário Conto por Conto (2011); 1º Prémio no Concurso de Poesia Agostinho Gomes (2013); 1º Prémio no Concurso Literário Manuel António Pina – Museu Nacional da Imprensa (2013) e Menção Honrosa (2014, 2015, 2017, 2018, 2020); Menção Honrosa no Prémio Internacional de Poesia Glória de Sant´Anna (2018 e 2020), respectivamente como os livros, Viagem à demência dos pássaros e Como num naufrágio interior morremos. Finalista do 21º Concurso de Contos Paulo Leminski – Paraná, Brasil (2010) e do Prémio Internacional de Poesia António Salvado (2021) com a obra Mulheres legendadas de Alzheimer |Inédito|.

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