Cultura

Pezinhos | Carlos Eduardo Matos

O nome dela era  Ifigênia. Tinha pés lindos.

 

O nome dele era Lucas. Adorava pezinhos femininos.

 

Os dois ficaram amigos no Facebook. Começaram a conversar, a brincar, a flertar, a chamar-se de Gê e Lu, e resolveram conferir qual era, num encontro real. Moravam no mesmo estado, em cidades diferentes, o que facilitou. Antes, porém, Lucas a advertiu:

 

 — Olha, você precisa saber. Sou fissurado em pés de mulher. O nome técnico desse fetiche é podolatria. É uma tara, admito, mas bem comportada. Tem coisas muito piores nessa vida…  — E deu um risinho malicioso.

 

 —  Tudo bem, Lu. Também gosto de coisinhas diferentes — respondeu Gê, com um sorriso ainda mais sacana.

 

 — Então Gê, por favor, dê um trato caprichado nos seus pezinhos. Eles precisam estar deslumbrantes na noite do nosso encontro, daqui a uma semana.

 

A moça obedeceu. Uma semana depois, teve os pés cuidadosamente lavados, massageados, cobertos por um óleo de aroma inebriante, as unhas primorosamente pintadas. Pouco antes das oito, o horário combinado, deixou a porta entreaberta, despiu-se e deitou no chão. Cruzou as pernas lindas e prendeu uma taça de vinho entre dois dedos do pé direito erguido. O pé esquerdo, estrategicamente colocado à frente, ocultava a visão do cálice profano. Mas a oferenda de amor e desejo era explícita, uma taça e um cálice oferecidos ao homem que a possuiria.  

 

 — Ah – arquejou Lucas ao entrar e se deparar com a cena criada para ele. No entanto, para desapontamento de Gê, não a beijou, não tomou o vinho e tampouco sorveu os líquidos que já se acumulavam no cálice de carne. Retirou a taça, segurou-lhe os pés, deitou no chão e aproximou-os do rosto. E, ainda vestido, deu início à festa dos pezinhos.

 

Primeiro contemplou-os em veneração silenciosa por longos minutos. Depois aproximou o rosto, sem tocá-los, e sorveu cada molécula do óleo aromático, enquanto respirava forte. Finalmente, acariciou-os com extremo cuidado, como se receasse cair fulminado por um raio. Massageou a parte de cima, depois a planta dos pés, muitas e muitas vezes. E finalmente, decorrida mais de meia hora do início do ritual, beijou cada dedinho, colocou-o na boca, chupou-o, brincou com a língua na ponta de cada um e ao redor dele, como a pobre Gê esperava que ele brincasse com o seu grelinho.

 

Uma hora depois, a moça não aguentava mais — de tédio, não de prazer. Exasperada, mas procurando adotar o tom mais gentil possível, perguntou:

 

— Lu, vai ficar só nisso? Tem muito mais de mim esperando por você rsss…

 

Ele olhou-a com um misto de surpresa, indignação e decepção.

 

— Você acha que, depois de beijar esses dedinhos sublimes, eu iria beijar… você?

 

Balançou a cabeça, triste, e dirigiu-se para a porta. Ela correu até ele, nua, e o abraçou.

 

— Não briga comigo, Lu. Foi minha primeira vez, achei que ia rolar mais coisas — tomou fôlego e sugeriu.  — Olha, para a próxima, já sei o que esperar. 

 

Ainda relutante, ele marcou novo encontro para 10 dias depois.

 

Depois que ele saiu, Gê ficou pensando. “Se meus pés não estivessem tão lindos, talvez ele me tratasse como um homem trata uma mulher. Se ficar só nisso da próxima vez, acabou!”

 

Dez dias depois, a moça lavou rapidamente os pés, esqueceu a massagem. passou apenas um pouquinho de óleo aromático e fez um pedido estranho à pedicura:

 

— Pinta minhas unhas. Mas não capricha. Quero um vermelho vulgar e falhas no acabamento. 

 

No dia marcado, Lucas entrou pela porta encostada, encontrou Ifigênia nua, na mesma posição, com a taça de vinho entre os dedos de um pé.   

 

— Oh — murmurou com uma pitada de desapontamento, depois de olhar-lhe os pés. Mas logo se recompôs, foi até ela, pegou a taça, bebeu o vinho, tirou a roupa e começou a beijá-la. Em seguida desceu pelos seios, pela barriga linda, chegou à xaninha e começou a brincar com o clitóris de Gê, que delirava de prazer. Ela envolveu-o com os lábios e gozaram juntos — ele, uma vez; ela, nem sabe quantas. E seguiram em frente, que a noite era uma criança e havia outros buraquinhos a preencher.

 

Depois da monumental trepada, Gê falou a Lu:

 

— Foi uma delícia, mas não o que você esperava, certo?

 

Ele fez que sim com a cabeça, em silêncio. Mas depois falou:

 

— Gê, não pense que sou um babaca sem noção. Hoje a gente trepou muito gostoso, mas na outra vez eu estava a mil na adoração de seus pezinhos, não me importei com o seu prazer. Aliás, também não gozei, só queria olhá-los, cheirá-los, acariciá-los, lamber e chupar cada dedinho… A verdade é que, por vezes, a onda da podolatria vem forte demais, esqueço das demais zonas erógenas… Tudo o que desejo nessas ocasiões é me prostrar diante de pezinhos perfeitos que nem os seus!

 

Ifigênia ficou em silêncio, pensando, sabendo que tinha de tomar uma decisão naquele momento. Finalmente falou:  

 

 — Lu, proponho que a gente alterne. Uma vez a festa é minha e sua, que nem hoje, você estava uma delícia. Mas da próxima eu fico de fora, e você vai sozinho à festa dos pezinhos.

 

— Obrigado, amor — disse Lucas, com um sorriso de reconhecimento e felicidade.

 

Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.

 

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