Cultura

Pessoas

O trajeto percorrido em direção ao metrô, quando dirijo-me à faculdade, às vezes acontece muito rápido. Sigo sem reparar nas árvores, intrigar-me com as sombras, deixo de observar a capacidade do sol em se esgueirar pelos espaços e formar figuras estranhas. O colorido habitual das flores não me fascina, o canto diferente do passarinho desconhecido, aquele quase uivo mais curto e delicado, silencia. Dentro de mim, mergulhado em pensamentos e antecipando a aula de dali a pouco, sigo feito autômato, sem perceber o tempo gasto no caminho.

 

Preciso fazer meus alunos desistirem de enxergar Fernando Pessoa de forma tão pouco científica. Acreditam piamente ser ele uma espécie de médium, capaz de receber os heterônimos como se fossem entidades vivas em outra encarnação. Teria sido o grande português uma espécie de Chico Xavier poeta. Na última aula Tatiana, boa aluna, interessada e cumpridora dos deveres solicitados, perguntou-me se a orientaria em um trabalho de iniciação acadêmica. Gostaria de provar serem Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares espécies de espíritos do candomblé.

 

Embora seja simpático ao sincretismo religioso, acredite ser uma das coisas mais bonitas da religiosidade brasileira, aprecie demais tal capacidade de mistura, diversidade para mim é sempre bem-vinda em qualquer área, precisei refrear o entusiasmo da menina. Não foi muito fácil convencê-la a experimentar teses mais literárias e menos espirituais.

 

Andando assim absorto, considerei mostrar de uma vez por todas Pessoa como um artista muito inteligente e provar ser o projeto heteronímico parte de um plano. Ao invés de ser um e criar sua própria obra, como qualquer escritor comum, ele pretendeu ser muitos. Sendo vários autores ao mesmo tempo, escrevendo livros com características diferentes conforme assumia uma ou outra personalidade, agradando diferentes tipos de leitores, foi capaz de deixar para todos nós uma literatura inteira. Mais do que uma obra, deixou um conjunto de obras literárias escritas por vários autores. Alguns gênios demoram a ser compreendidos. Como leitor, por exemplo, prefiro o texto desesperado e deprimido de Álvaro de Campos.

 

Torcendo muito para ser eficiente, e preparando dentro de mim retórica capaz de convencer minha classe, finalmente tive minha atenção desviada para um mendigo. Sentado encostado em um muro no chão da calçada, imóvel, ele estava coberto de pombas. As aves passeavam sobre ele tranquilas, íntimas, sem demonstrar nenhum tipo de apreensão. Uma delas, sobre sua cabeça, descansava como se estivesse chocando um ovo. Ele, feito estátua, um leve sorriso congelado no rosto, parecia feliz com aquele estado de coisas. Homem e pássaros totalmente integrados, imundos, em completa comunhão, sem se preocuparem com o resto do mundo. Em um determinado momento um dos animais, talvez o mais desgrenhado, as penas apontando para todos os lados em notável desalinho, bichinho magro e com aparência doentia, subiu no ombro do morador de rua e começou a dar leves bicadas em sua orelha. Pareceu-me naquele momento ver o sorriso do pedinte se alargar mais um pouco, talvez sentisse cócegas. Obviamente eu tinha parado e, protegido por uma árvore, meio escondido, observava aquela cena com especial curiosidade. Aquilo não podia ser real, fugia completamente a qualquer expectativa de ser observado em fosse qual fosse o canto, mas estava ocorrendo ali na minha frente, feito página de um romance surrealista. E como jamais havia visto um espetáculo como aquele, deixei-me ficar por ali, absorto, completamente tomado pelas imagens.

 

E eu que não creio, fui enxergando sem desejar certa santidade nos bichos indigentes ali presentes: homem e pombas. Um Santo Francisco bem diferente das belas obras artísticas, brilhantes e limpas, encontradas em igrejas. Espíritos Santos enegrecidos, desvalidos, moribundos. Ele arriado no solo de cimento, encostado em uma parede pichada. Quando acendeu um cigarro torto que havia acabado de enrolar, a fumaça envolveu todos e deu-lhes uma aparência nebulosa, como se houvesse ali auréolas. 

 

Arrepiado e medroso, resolvi retomar meu caminho, seguir para minha aula. Certo de que literatura talvez seja alguma coisa maior do que ensino.

Jul/2021

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor brasileiro, com livros editados no Brasil e no exterior.  Professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

 

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