Cultura

Os filmes da infância

 

Quem se lembra da primeira vez? A primeira vez a que me refiro é a primeira ida ao cinema e não àquela safadeza nas barrancas do rio, nos capins da sedução ou em alguma ruela perdida na poeira do tempo. O menino acabara de chegar do agreste pernambucano, o pó da estrada ainda se escondia atrás da orelha e ele conheceu o majestoso Cine Janaúba. 

O filme foi um desfilar de assombros porque nunca sequer imaginara coisa igual. Era “O mágico de Oz”, que o atraiu por dois motivos: havia um cachorrinho esperto e uma menina de tranças cantando com uma voz de encanto. 

Cachorro já tinha, era o Xerife, tão ou mais bonito que o do filme; só faltava a belezinha que fantasiava namorar. Mal sabia ele que a guria da tela era Judy Garland, já com 17 anos, “idosa” para o menino das bolas de gude. 

Como não se deixar envolver por aquela voz flutuando na melodia de “Over the rainbow”?

O menino foi “além do arco-íris”. Nos minutos iniciais, até que gostou do filme, mas quando o enredo o conduziu para o absurdo das impossibilidades, aí incluídos um homem de lata, um leão covarde – sem a brabeza das onças do sertão -, um espantalho e outras miudezas que nem na terra das quimeras seria possível, aí ele descartou qualquer interesse. 

O filme, de 1939, dirigido por Victor Fleming, é mais um anti conto de fadas do que um conto tradicional. O romance de Lyman Frank Baum, modificado pelos roteiristas, seria capaz de assombrar Walt Disney e seu mimetismo ilusório. 

E como foi feito sob os efeitos da Grande Depressão, anterior à participação dos USA na II Guerra Mundial, é possível identificar críticas aos ditadores fascistas que estavam por toda Europa, além de ridicularizar os veteranos de guerra retratados como pessoas que “resgatam suas forças da naftalina e desfilam pela rua principal da cidade”. 

A mensagem é que as pessoas tendem a seguir qualquer figura autoritária que cause impacto, por mais indigna que seja. Essa análise seria uma premonição sobre o surgimento dos histriônicos e insanos “líderes” Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello e Jair Bolsonaro?

Há quem acredite que se o filme tivesse aparecido nas “patrióticas” décadas de 1940 ou 1950 é quase certo que esse clássico da contracultura teria sido censurado nos USA e escondido do mundo.

Evidente que o menino de olhos arregalados nada disso sabia. O filme, para ele, exibia infantilidade demais para o seu preferir aventuresco. Mais emoção encontrava nas páginas de um gibi, principalmente nos faroestes.

O segundo filme? Foi o faroeste “Montana, terra proibida”, de 1950, direção de Ray Enright, com Errol Flynn e Alexis Smith. O ator de tantas brigas, bebedeiras e casos amorosos, interpreta um criador de ovelhas australiano, que vai para os USA e entra em conflito com os homens do gado. A disputa era pelo pasto, escasso para tantos ruminantes.

O mocinho deixa o pessoal acampado e vai à cidade, sondar o ambiente. Até que ele passa despercebido, mas é denunciado por um cão pastoreador de ovelhas, um border collie, que o seguiu e fez a maior festa quando o viu na rua principal. 

Os barões do gado e seus pistoleiros detectaram o inimigo e se o Errol não fosse o mocinho, teria pastado capim pela raiz. 

Há outra lembrança fílmica, esse um capa-e-espada com Stewart Granger, Mel Ferrer (que dizem só ter conseguido o papel por influência da esposa Audrey Hepburn) e as belas Janet Leigh e Eleanor Parker. 

O nome do filme? ”Scaramouche”, de 1952, dirigido por George Sidney, baseado em romance homônimo de Rafael Sabatini, é ambientado na França pré-revolucionária dos últimos dias do rei Luis XVI (1764-1793), marido traído pela esposa infiel, perdulária e antipatizada Maria Antonieta (1755-1793), ambos guilhotinados. 

 

Você é capaz de se lembrar do primeiro filme que assistiu? Qual foi? Conte pra nós.

 

Nas cenas finais há referência gestual a um personagem menor que cresceria na História: Napoleão Bonaparte enfia a mão direita entre os botões da casaca, enquanto se ouvem acordes de “La Marseillaise”, música composta por Rouget de Lisle em 1792 para encorajar os soldados nos combates de fronteira contra os austríacos e que se tornou hino da Revolução Francesa. 

Allons enfants de la Patrie/Le jour de gloire est arrivé!/Contre nous de la tyrannie,/L’étendand sanglant es levé …”

“Avante, filhos da Pátria/O dia da glória chegou/Contra nós, a tirania/O estandarte sangrento se levanta …” 

Claro que quando viu o filme pela primeira vez o guri não entendeu nada, só anos depois é que compreendeu a referência histórica. E que tantas consequências sangrentas coloriu a caminhada de tantos povos…

Antes dos filmes havia a chatíssima projeção de cine-jornais. O “Canal 100”, do flamenguista Carlos Niemeyer, priorizava as vitórias rubro-negras, exibidas na cidade com dois ou mais anos de atraso. 

Outro purgante eram as insuportáveis “Atualidades Francesas”, também usadas para encher linguiça na programação. Uma noite exibiram um quebra-pau violentíssimo e como estava ao lado de uma tia, que lia muito e sabia das coisas, o curioso perguntou a razão daquele fuzuê. Ela, certamente influenciada pela propaganda repetitiva da guerra fria, disse que eram os comunistas. Ele entendeu que os comunistas eram violentos, atacavam qualquer um que piscasse o olho direito. 

Anos depois descobriu que os filmetes eram descaradamente favoráveis aos franceses e que os comunistas não estavam atacando ninguém, apenas se defendiam com armas toscas do poderio colonialista que se recusava a ser expulso do Vietnam. 

A França saqueou a terra e escravizou os vietnamitas efetivamente a partir de 1907 e só foi escorraçada em 1954. 

E como a história é boa mestra, a reação vietnamita ao domínio francês foi um aprendizado para a próxima batalha do miúdo Davi (vietnamitas) contra o gigante Golias (USA), na troca de tiros que começou em 1961. 

Você é capaz de se lembrar do primeiro filme que assistiu? Qual foi? Conte pra nós.

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda – Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

 

 

 

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