Cultura

Os bichos pensam?

Quem já viu um boi entrar no corredor de abate sabe como ele percebe a morte. Tenta escapar, urra, resiste, chifra as tábuas, exala a dor, chora, desespera. Há uma identidade mamífera entre nós e eles, que nos permite captar seu sofrimento, porém não nos importamos com o destino bovino. Há quem diga que tudo é imaginação. Na verdade, todos os animais possuiriam apenas instinto. Pensamento, só os humanos, para quem o mundo teria sido criado, com licença divina para explorar e matar qualquer bicho. Levamos ao pé da letra a recomendação. Em muitos momentos, mesmo agora no século 21 e nas mais tradicionais democracias, bicho é o outro, o estrangeiro, o habitante do país contra o qual se iniciou uma guerra, o pobre, o doente. Merece toda a crueldade. Que o digam as potências ocidentais que matam sem pudor civis inocentes na Síria, Afeganistão, Paquistão e mais de uma dezena de lugares neste exato momento.

 

Dizem que os golfinhos pensam. Já se identificaram alguns de seus sons. Supõe-se até que cantem para os parceiros durante o acasalamento. Idem para as baleias. Quem tenha ouvido as gravações fica com a pulga atrás da orelha: baleias parecem autoras de partituras musicais, com grande variação de melodias e ritmos, mais uma grande vocação para a nostalgia. Choram a morte de seus companheiros. De novo, muita gente descarta a possibilidade de inteligência. Haveria apenas instinto. Pássaros cantam, baleias idem. E daí?

 

Chimpanzés se organizam para a caça de outros animais, com estratégias de generais em campo de batalha. Dividem o butim de acordo com a hierarquia. Sua linguagem transmite uma enorme variedade de avisos e sentimentos. Riem, consolam-se, usam ferramentas, passam o conhecimento para os filhos. Alguns deles, criados em cativeiro, teriam o QI de uma criança de 2 anos. Uma vez mais, acredita-se que, embora tenhamos uma semelhança genética de 98%, nada mais nos aproxima. Continuamos os únicos a pensar. Para eles, sobra apenas o instinto.

 

Bonobos, um chimpanzé pequeno, descoberto no Congo oito décadas atrás, são ainda mais impressionantes. Além de 99% iguais a nós nos cromossomos, demonstram empatia e altruísmo. Têm vida social intensa, matriarcal. Reconhecem-se no espelho. Desenvolveram gosto pelo sexo só encontrado entre os humanos. Aliás, vão além. Usam o sexo para resolver conflitos. Aos olhos mais conservadores, seriam promíscuos. No entanto, se dão muito bem. Compreendem nossa linguagem, inferem o sentido de nossas palavras, utilizam os computadores para se comunicar com os cientistas. 

 

Jolie, uma das gatinhas de minhas netas, aprendeu, com um salto na maçaneta e um empurrão concomitante, a abrir as portas da casa. Macacos, no Piauí, usam ferramentas para quebrar sementes. Cães se valem gravetos para abrir os trincos de suas jaulas.  

 

Há uma revolução em curso. Estamos começando a entender outras espécies, a olhá-las com respeito, com os mesmos direitos à vida. Uma vez mais, uma revolução nos afasta do centro do mundo, essa mania de grandeza que nos outorgamos como reis da criação, primeiros e únicos. Isso dói aos velhos mitos. O reino animal é mais complexo do que até agora admitimos. Em vários sentidos, mais humano do que o nosso atual. Parece, às vezes, conservar a inocência dos Jardins do Éden. Uma inocência que, pelo bem e pelo mal, há muito perdemos. Se é que um dia a possuímos.

 

Luís Giffoni , escritor brasileiro, nasceu em Baependi, Graduou-se em  engenharia civil pela UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais. Também cursou astronomia na UFMG e literatura norte-americana no ICBEU-BH – Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos. Tem 21 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, ensaios e novelas juvenis. Essas obras receberam diversas premiações, além de estudos, traduções e adaptações no Brasil e no exterior. Sua peça In Memoriam foi encenada pelo Oficinão do Grupo Galpão, em 2004. É palestrante em todo o Brasil, bem como nos Estados Unidos e Europa. Mora em Belo Horizonte.

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