Cultura

O voo de Líbero

Líbero queria voar – e esse era seu sonho, desde a infância, quando morria de inveja de qualquer bando que passasse riscando o céu sobre a sua cabeça. O menino sonhador abria os braços, imitando os bichos, e corria se sacudindo, na esperança de ganhar o céu. Líbero, no entanto, só conseguia mais ralados pelo corpo – além de se tornar a chacota da vizinhança, para desespero da Mãe, que decidira cortar as asas do garoto.

“Menino que quer voar só pode ser piloto”, a Mãe dizia, na tentativa de se defender das línguas maldosas, que já o haviam apelidado de “menino galinha”, porquanto bicho de voos curtos, tão semelhantes aos trotes jocosos do garoto. Líbero, no entanto, parecia alheio aos chistes e aos presentes da Mãe, que lhe cobria de aviõezinhos em miniatura.

“Menino que gosta de desenhar não pode dar em boa coisa”, a Mãe pensava, quando via o filho no seu canto, rabiscando passarinhos no papel. E, de galinha, Líbero se tornava “passarinho”, aquele tão fragilzinho que sequer conseguia sair da gaiola. A Mãe tratou de tomar logo o papel e o lápis da mão do filho, forçando-o a cair do céu para terra, de onde ele não conseguiria seguir voando.

“Meu filho vai ser advogado ou médico”, a Mãe decidiu. E assim, Líbero foi crescendo, parecendo, na verdade, que era a Mãe quem crescia, com asas cada vez maiores. Líbero já não era mais o menino e nem tinha a meninice como justificativa. Seu sonho, no entanto, também crescia – e as asas da Mãe o sufocavam a ponto de sequer querer ter nascido.

“Meu filho ainda vai voar bem alto”, disse a Mãe para uma prima, daquelas que vêm de vez em quando, assim, sem cabimento nem convite. Uma mulher pequenininha, porém, de enorme veneno: “Eu me lembro que ele era o ‘galinha’, o ‘passarinho’”. A Mãe já era experiente em se esquivar da língua de toda gente, fazendo escudo de tudo o que se falava do filho.

A Mãe só não sabia que, no afã de poupar Líbero, ela também o feria, porque nunca tinha deixado o filho dar um pio. Foi quando, nesse mesmo dia, ele se deu conta de um bando – e se lembrou que um dia queria estar ali, com a cabeça nas nuvens. Deixou a Mãe, com seus sonhos sobre ele, tão maiores que seu corpo pequenino, e a prima, que, viperina, só de andar se arrastando sabia.

Líbero subiu o mais alto que pôde. E o bando, de braços abertos, parecia convidá-lo a um abraço. Abriu seus braços, o mais largo que pode. Não se deu conta, porém, que a Mãe, que já havia dado por sua falta, havia cortado suas asas, quando menino. Já não ouvia mais ninguém, nem a Mãe, a prima, e quem quer que fosse, gritando “Desce daí”. Só ouvia o seu desejo-decidido.

Sacudiu os braços, depois o corpo. E, imitando as aves, soltou seu primeiro pio, e mais outro, e mais outro, tão forte como jamais fizera um dia. E assim, enquanto deixava o peso cair no chão, Líbero partiu leve, no direito ao seu único voo, feliz, como as aves, rumo ao infinito.

 

 

Anaximandro Amorim (1978) é um advogado, professor e escritor brasileiro. Nasceu em Vila Velha, residindo, porém, desde a infância, na capital Vitória. Formado em Direito e em Letras Português-Francês pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), é membro da Academia Espírito-santense de Letras (cadeira 40, patrono Antônio Ferreira Coelho), da Academia de Letras de Vila Velha (cadeira 12, patrono José de Alencar), do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, da Associação de Professores de Francês do Espírito Santo e demais instituições culturais de seu Estado.   

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