Cultura

O teatro de Ernesto Rodrigues: ou a consciência do inabitável

Ernesto Rodrigues é um conhecido ficcionista, ensaísta   e professor na Faculdade de Letras de Lisboa.

Nasceu em Torre de Dona Chama (Mirandela) e em 1973, com apenas 17 anos, apresenta o seu primeiro livro de poesia.

Desde 1979 que surge como crítico literário em vários jornais e revistas. 

Celebrou em 2013 os 40 anos de vida literária.

Em 2017, um momento alto da sua notável carreira:   é vencedor do Prémio PEN para narrativas publicadas em 2016 com o romance Uma Bondade Perfeita.

Nesta ficção já se delineia o caos do turvo e da perda de identidade.

Tem publicado ensaística e editado Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Padre António Vieira, etc.

Ligado à cultura e à língua húngaras publicou em 2002 a Antologia da Poesia Húngara.

Muito do seu trabalho tem sido uma uma viagem literária entre a Hungria e África.

O poeta, o ficcionista, o ensaísta sobretudo em temáticas oitocentistas é dramaturgo.

Uma escrita larga e espraiante.

A reunião do Teatro, 11 peça escritas entre 1973 e 2020, resultou num volume agora publicado de 570 páginas.

Desde A Pedra até Pandemia ou O Divino.

A crítica política subjacente, a crítica social, cruzam-se com o existencial e o paradigma de um indivíduo que urge se liberte de peias.

Há nesta vastíssima obra de dramaturgo, a emergência de um big brother totalizante que paralisa a humanidade.

Em Guerra Civil, por exemplo, todo um país toldado pelo medo.   Os discursos políticos estão por todo o lado, em televisões gigantescas nas fachadas de edifícios. Surgem figurações de  Pais da Pátria. O discurso unanimista e invasivo.

Aliás, é frequente no seu imaginário de escritor e de dramaturgo essa emergência do discurso autoritário e omnipresente que avassala pelo medo os cidadãos e as pessoas.

Na peça A Doença surge “a doença da verdade”.  A mentira é a nova verdade.  Há um protagonista que se diz salvador da humanidade.  Filantropo e político. 

O lastro de um político a vender verdades feitas.

A peça que mais apreciei tem muito a ver com a realidade que todos vivenciamos: A Pandemia.

Aí a crítica estende-se também às chamadas redes sociais que de tão virtuais também potenciam o caminho de inverdades e de ethos inexistentes.

“A eternidade é duração”. 

A crítica ao egocentrismo de tantos que pouco ou nada querem saber dos mais frágeis.

“E, algures, unidade de cuidados intensivos faz-se antecâmara do paraíso, aberto às centenas, num suspiro, na inconsciência de sermos” (p. 468).

Onde, por exemplo, os maiores de sessenta ou setenta anos são quase apontados a dedo para desaparecerem  face ao esplendor da juventude. Não que isso seja dito explicitamente, mas deduz-se.

Claro que a emergência de Deus ou da Igreja é um fator em todas estas peças. 

Já não se leem livros. Já não se consome cultura.  Já não se vai ao cinema.

Nas peças de Ernesto Rodrigues eclodem elementos de absurdo que perpassam na construção dramática ou narrativa.

Esses elementos podem ser desde uma reserva de índios ou a um qualquer fator atípico.

A determinada altura um personagem diz:

“Eu estava com a idade do meu filho. Vinte anos. Recupera-se na eternidade. Os sentidos embotavam, entre música aos urros, copos, cigarros” (p. 472)

Dramaturgia inquietante que delapida os tempos do agora.  As hipocrisias, os elementos das ditas verdades construídas, as estranhezas, as disforias. 

Já nos romances de Ernesto Rodrigues se tinha ampliado essa consciência do inabitável.

Não é um olhar cínico.  É, sim, um núcleo de imagens refratadas bem verídicas num real pleno de inconsistências.

A ler. Ou melhor: a encenar e mostrar nos palcos.

 

Cecília Barreira é actualmente professora de Cultura Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Pertence ao CHAM, onde é investigadora de periódicos. Pertence aos grupos de pesquisa AMONET e IRENNE, sobre questões de género. Licenciada em História, com Doutoramento e Agregação em Estudos Portugueses, interessa-se particularmente pela História das Mentalidades. Publicou diversos ensaios e livros de poesia e neste domínio, estreou-se em 1984 com Lua Lenta. Seguiram-se A Sul da Memória (1987), Memórias de uma Deusa do Mar (1995), 15 anos de Alguma Poesia (1999), 7&10 (2003) e Cartas BD (2005), As Opções Ideológicas e o Fenómeno Feminista em Portugal (2009), Do Diário de Lisboa à Revista Maria (2016), Quirino de Jesus e Outros Estudos (2017) e Voando sobre um Ninho Fêmeo (2019).

 

 

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