Poesia & Conto

O Sistema Solar

Foi no desdobrar do sexo da estrela
outra luz que veio, repartiu-se em ondas
elípticas e claras nove pontarias
pariu-se a cor do mundo em nove candeeiros.
O brilho veio como se soubesse
ser deste sol, o filho, coração primeiro
e já engatinhando pelas labaredas
na rotação estranha de um Mercúrio.

Murmúrios de entranhas, canaletas
a mãe estrela pariu seu filho fogo
perdeu-se em sangue e plasma atômico
contrações constantes explosivas.
Girava no espaço de um vazio
sentia o ventre ainda oito chamas
até que o nono cão seu filho frio,
Plutão na derradeira treva acendia.

Vênus matutino vespertino ou belo
pareces com teu pai o deus do mundo
assim do forno ventre é oriundo
ainda te envolve a mágica placenta.
Enquanto velozmente adorado
corres no telhado e acontece
a lágrima do céu quando anoitece
ou amanhece no rosto de um tigre.

Coxas entreabertas…
arco-íris que escorre sêmen água
cheiro de peito entre montanhas gordas
canais e larvas menstruadas rosas.
Mãe solar e círculo sagrado
a dor centrífuga força parideira
pares no cosmo de qualquer maneira,
então, a filha-água fêmea Terra.

E uma outra lua aquela ninfa
como se pousasse sobre a noite limpa
de meus surdos quadros pendurados
na parede alta de um crepúsculo.
Matéria atrai matéria e espírito
na razão direta de uma ave
e a inversa forma da distância
do quadrado ausente do mistério.

Tudo o que é vermelho sino e cavalo
pétala e serra e beira de vulcão
e sexo de meninos nadando contra bocas
e lebres de sangue submetidas.
Rege Marte, o povo do absurdo
alguma coisa o torna um certo búfalo
redondo e negro, rubro estrondo
pomba que estoura na calçada.

Implode a nebulosa em confidências
enquanto revigora a energia
ainda mais paria: quatro potros ventos
Io, Europa, Calixto, Ganimedes.
Se apenas fosse o astro um ser planeta
um cão que orbitasse vagaroso
e não quisesse estrela ser de novo,
Júpiter, gigante luz perdida.

Mistério azul que se propaga
além do fim que nos parece
enquanto olhamos nossas noites
eternos romanceiros…
Parece-me um solo em fragmentos
discando a curva do sonoro
anéis sirenes prolongadas
então, Saturno, o horizonte.

Urano e Netuno, um olho cego
saberia vê-los ou traçá-los?
alguém tão morto solitário
nos fins da planetária ressurgindo.

Assim como os fantasmas se escondem
atrás das portas e relâmpagos
e continuam barcos brancos
a atirar no céu suas garrafas.

Denise Emmer

Denise Emmer é poeta e musicista, e nasceu  no Rio de Janeiro, Brasil. Publicou vinte e um livros, dos quais dezessete de poesia, três romances e um de contos. Ganhou importantes prêmios literários, tais como Prêmio ABL de poesia (Academia Brasileira de Letras); Prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA); Prêmio José Martí (UNESCO conjunto de obra); Prêmio PEN Club do Brasil de Poesia; Prêmio Pen Club do Brasil de Romance; Prêmio Olavo Bilac (ABL); entre outros. Participou de relevantes antologias da poesia brasileira, tais como 41 poetas do Rio, org. Moacyr Félix, Ministério da Cultura, Antologia da Nova Poesia Brasileira, org. Olga Savary, Ed Hipocampo, Poesia Sempre, Fundação Biblioteca Nacional, O signo e a sibila – ensaios, Ivan Junqueira Ed.Topbooks, Ponte poética Rio-São Paulo Ed. 7letras, bem como das Revistas Califórnia College of the at Eleven Eleven (EUA), Newspaper Surreal Poets, (EUA) e Revista da Poesia, Metin Cengiz (Turquia). Revista Crear in Salamanca (Espanha), traduzida pelo poeta Alfredo Pérez Alencart.  É bacharela em Física e Música (violoncelo). Compositora, com vários CDs gravados, também integra, como violoncelista, orquestras e grupos de câmera. Apesar da versátil personalidade, a essência de sua criação, é, fundamentalmente, a poesia.

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