Cultura

O pensamento imaginante das árvores | Sebastian Wiedemann

O PENSAMENTO IMAGINANTE DAS ÀRVORES*1

 

Agradeço o convite a fazer parte deste evento, desta mesa em cujo título – Uma árvore já é um rizoma, há um chamado a ativar uma escuta delicada diante de uma das ideias mais célebres de Deleuze e Guattari, que só em aparência teriam uma aversão pelas árvores. Nesse sentido, e antes de entrar na potência do que arrisco a chamar de um pensamento imaginante das árvores, gostaria de me deter em algumas passagens do clássico capítulo de Mil Platôs.

 

A dupla de pensadores dirá: “Caberia então se perguntar se a botânica, em sua especificidade, não é inteiramente rizomorfa”. Linhas abaixo continuarão: “Sabedoria das plantas: ainda quando tem raízes, sempre há um fora no qual fazem rizoma com algo: com o vento, com o animal, com o humano”. E ainda dirão: “o galho de uma árvore ou a divisão de uma raiz podem se dispor a brotar em forma de rizoma” (Deleuze & Guattari, 1997).

 

Uma árvore é essencialmente uma fractalidade complexa. Dali que nunca seja só uma árvore. É sempre uma multidão, uma floresta redobrada e que não para de se desdobrar. Floresta que se desdobra e desdobrar que é a sua própria sabedoria, num devir-com entendido no sentido proposto por Despret e Haraway (2007). Um devir-com o vento, com o humano, mas sobretudo com a possibilidade de conectar a rizosfera vegetal que é a floresta com a noosfera que certamente não é privilégio do humano. Em poucas palavras a proposição que quero compartilhar aqui com vocês é que – Uma árvore já é um rizoma, por ser essencialmente potência conetiva de pensamento e esse pensamento é essencialmente cinematográfico. As árvores cuidam de modo multidimensional e multiescalar de mais de uma atmosfera fazendo com que umbrais orgânicos e inorgânicos possam respirar. Os corpos e o pensamento respiram graças a elas em meio a devires imaginantes. E aqui quero sublinhar a literalidade da relação destas atmosferas de corpo-pensamento com as árvores. Nas proposições que aqui defendemos há transdutivilidade, há corpo a corpo como pragmática da existência, mas jamais metáfora.2 

 

Apostamos então por uma disposição cosmológica e ontológica na qual um devir-cineasta de todo mundo é possível, e em especial dos não humanos como as árvores. O que pode uma árvore-cineasta?

 

O cinema nasceu com a vida, pois a vida é antes de tudo o cuidado de uma imagem sempre aberta e porvir do cosmos. A vida é potência de imagem e imagem em potência. E as árvores são grandes guardiãs desse pensamento imaginante. Elas fazem proliferar imagens, pois transformar luz em energia é transformar luz em imagens potenciais. Folhas-cinematógrafos pensantes. 

 

Não só as árvores, mas sobretudo e com elas é que o pensamento ganha consistência. Algo que é nítido para os Yanomami, como nos deixa perceber Davi Kopenawa em A queda do céu (Kopenawa & Albert, 2015). É ao tomar yãkoana que se tem acesso à mais radical experiência de pensamento.3 Não como uma ativação de uma potência interior e subjetiva, mas como a radical conexão com um fora pensante que se diz floresta. A floresta é uma noosfera ativa que entra em nós. Nesse sentido pensar não é uma ação privada e autocentrada ativada pela consciência, pelo contrário é devir-com as árvores que já são um rizoma, é devir superfície imaginante para que as árvores possam continuar por outros meios. Pensar é sermos passagem para as árvores. Pensar é se deixar devorar por elas. Isto é, deixar que elas como potência de pensamento pousem momentaneamente em nossos corpos que não devêm-cinema,4 mas cineastas, pois a vida pede só (dis)posições generativas e não passivas. Na floresta não há lugar para espectadores, pois sempre se está no meio. Isto é pensar, que por sua vez é ser pensando. 

 

No entanto, esse pensar que desde sempre é vegetal, cada vez mais é eclipsado pela estupidez e arrogância humana. Se pensar é devir-com as árvores e fazer rizoma com elas, qual é a experiência de viver num mundo onde elas são aniquiladas?  

 

Essa é a pergunta que move o filme que como continuação quero compartilhar com vocês, como gesto onde se insiste em devir-cineasta para quem sabe ainda conseguir fazer rizoma com o que resta delas em meio à ruína. O obscuro e sinistro segredo de tentar manter um mundo em pé, quando o pensamento cai junto com a queda e morte das árvores. E onde o céu cai, pois antes dele, a potência das arvores de ser um rizoma noosferico foi exterminada.

 

 

Hidden

(2021, 8min, Color, HD)

Composição audiovisual: Sebastian Wiedemann

https://youtu.be/DSTosxWhv0k?t=5382

 

 

 

 

 

Notas

 

1 Uma primeira versão desse texto foi apresentada na mesa redonda “Uma ÁRVORE já é um RIZOMA” no contexto do evento X Raias Poéticas: Afluentes Ibero-Afro-Americanos de Arte e Pensamento no dia 06 de agosto de 2021 < https://youtu.be/DSTosxWhv0k >. Agradeço a Susana Oliveira Dias e a Luís Serguilha pelo convite e a Juliana Fausto e Marco Antonio Valentim que em parte instigaram as ideias que movem esta escrita. O texto conserva seu tom performativo e de oralidade original.

 

2 Ver a este respeito o trabalho de Zourabichvili “Deleuze e a questão da literaridade” (2005)

 

3 Ainda sobre a literalidade da nossa coexistência com as arvores como espécies companheiras é interessante perceber como elas marcam os ciclos das noosferas como portais e intersecções que conectam o pensamento com a dimensão humana. Um exemplo desta relação é a prática do umbigar que levam adiante as parteiras tradicionais afrodescendentes da Colômbia (Portela Guarín, 2016), criando um vínculo entre o recém-nascido e determinadas árvores que darão um tom particular ao pensamento que povoe a criança. Ainda como gesto que sela o pacto entre a criança e a árvore, parte da placenta é enterrada no pé desta última. Uma garrafada composta por folhas e outros elementos da árvore e parte da placenta acompanhará a vida de  toda a criança como possibilidade de intensificação da relação com a árvore em momentos de adversidade ou adoecimento. Nasce-se ao pensamento ao ligarmos nossos corpos às árvores. E para que o pensamento possa continuar a sua jornada depois de nossos corpos perecerem organicamente, é importante que nos doemos como humus e compostagem a elas. Nesse sentido, é frequente em vários povos ao redor do mundo e ainda em práticas ecológicas ocidentais contemporâneas que os defuntos sejam enterrados em pés de árvores para que o pensamento se perpetue nelas. Comunidades do Senegal enterram seus mortos dentro do tronco de um baobá para que o pensamento da pessoa continue em pé enquanto a árvore também o fizer. Práticas similares são levadas adiante por alguns povos da América do Norte, e por aborígenes australianos, assim como pelos balineses e nagas. Já desde a perspectiva ocidental é interessante examinar o projeto italiano Capsula Mundi. Life never stops. < https://www.capsulamundi.it/en/ >. Todas estas, experiências e práticas que reafirmam nossa condição noo-simbiotica com as árvores e onde fazer rizoma com elas é fazer proliferar o pensamento.

 

4 Tomamos distância aqui da ideia de Cinema da Floresta (1995) de Peter Gow que ainda tem um apelo fenomenológico em sua abordagem.

 

Bibliografia:

  

Deleuze, G., & Guattari, F. (1997). Mil mesetas: Capitalismo y esquizofrenia (3o ed). Pre-Textos.

 

Gow, P. (1995). Cinema da Floresta Filme, Alucinação e Sonho na Amazônia Peruana. Revista de Antropologia, 38(2), 37–54.

 

Haraway, D. (2007). When Species Meet. Univ Of Minnesota Press.

 

Kopenawa, D., & Albert, B. (2015). A Queda do Céu. Companhia das Letras.

 

Portela Guarín, H. (2016). Partería: Saber ancestral y práctica viva. Banco de la República.

 

Zourabichvili, F. (2005). Deleuze e a questão da literaridade. Educação & Sociedade, 26, 1309–1321. https://doi.org/10.1590/S0101-73302005000400012

Fotografia de Sebastian Wiedemann.

 

Sebastian Wiedemann é cineasta-pesquisador e filósofo, seu trabalho cinematográfico tem recebido retrospectivas no Brasil, na Colômbia, Irlanda e Espanha. Leva adiante o projeto curadoria NoctilucaScreen; Cinema experimental no Antropoceno e mais recentemente editou o livro “Pensamientos migrantes: Intersecciones cinematográficas.” (2020).

 

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