Cultura

O pântano de Luís Dolhnikoff

O pântano de Luís Dolhnikoff (Impressões do pântano, São Paulo, Quatro Cantos, 2020) pode começar pelo seu nome, difícil de memorizar, porque oriundo de línguas com escrita para nós confusa (em parte porque já nos libertámos há muito das consoantes duplas), pode começar pela capa do livro, que, da ordem normal de leitura, só conserva as linhas horizontais e não sobreposição de palavras, mas eu prefiro começar pela confusão, mescla, de prosa e poesia, poesia e ensaio, política e amor, amor e semântica, rock e ópera, enfim, podíamos continuar longamente a lista, ou a estrada, dos termos que o livro invoca para os defender e atacar.

 

 

Pesquisando algo sobre o Autor, antigo colaborador do Triplov, descubro que ele vive algures perto de Florianópolis, numa aldeia de pescadores chamada Pântano do Sul. Dando mais atenção ao livro, a introdução vem datada de “Pântano do Sul, fevereiro de 2020”. Não conheço, só alcancei, nas minhas perambulações brasílicas, a Lagoa da Conceição, menos sulista. Posso no entanto confirmar que o sul do Brasil é mentalmente mais pantanoso do que o perímetro de São Paulo, por exemplo. A zona sul, para se defender dos pântanos do reacionarismo congénito, vive até em casas palafitas, erguidas sobre postes de madeira acima do nível dos lodaçais.

 

As impressões de Luís Dolhnikoff decerto partem, assim, do lugar restrito do mais realista dos quotidianos, para o mais lato e idealista de todos eles, as nossas grandes utopias, para uns abandonadas, para outros, ainda não. O que chafurda na lama não é o ideal, sim a organização política que o exibe, para o conspurcar, nos estandartes. 

 

Em aparência, Dolhnikoff é um descrente de tudo, nada resiste à sua crítica, quase sempre aguda, e libertina em linguagem. Em todo o caso, mesmo depreciando, ele enumera os grandes temas da modernidade, com os seus problemas, desde os temas da literatura até aos sexuais e da política. Exemplo gritante é o prefácio do livro, fornecido como lista de assuntos a desenvolver, sob o título “Sobre a situação atual da poesia e seu possível futuro (em lugar de um prefácio)”. Vejamos dois ou três números da lista:

 

  1. A poesia do presente é irrelevante.

 

  1. A irrelevância da poesia do presente não é irrelevante.

 

  1. O rap é a única poesia de mercado. E os rappers, os únicos poetas profissionais (que vivem do seu trabalho poético). Os demais são amadores.

 

Cinquenta itens que podem desenvolver-se como ensaios, aliás alguns, com uma página ou mais, já trazem um desenvolvimento bem maior do que a uma ou duas frases da maioria.

 

A minha primeira empatia, simples pormenor, mas que desejo deixar expressa, é a gramática corretamente portuguesa, contra vícios, uns comuns e outros não, dos falantes de português de nacionalidades várias. Exemplo de bela escrita, e nem refiro aquilo que, nela, usualmente recebe pontapés dos utentes, mesmo poetas: um poeta /antes de o mundo saber/ de sua recente existência/ é um poeta apenas/ por dizer a si mesmo ser/um poeta.

 

Poeta muito culto, muito próximo das várias teorias e dos vários autores que têm marcado a modernidade, em diversos campos do pensamento, Dolhnikoff dispõe de múltiplas ferramentas que, aliadas ao seu conhecimento da poesia, desde a camoniana até à mais presente e brasileira, tornam este livro de prosa e verso extremamente complexo. Essa complexidade é parte do pântano, outras partes são menos literárias e redutíveis, só para sintetizar e escapar eu à pressão de muito explicar, à questão do estado do mundo. Do Estado e da Nação seguindo, a alta velocidade, pelo trilho do Estado do Mundo, com acidentes frequentes, pois a cada curva e metro andados há obstáculos ao livre trânsito. Todas as teorias faliram, todas as rosas ideais murcharam, grassa a pólvora, aquilo a que o autor chama “merda”, e concordemos que é merda, sem precisão de aspas por defesa. Desiludido de tudo, até talvez do amor, cansado de mulheres, ateu, sem esquerda a que se encostar, que lhe resta? Que nos resta?

 

Lemos, para exemplo, página 141:

 

hino mínimo do ateu

 

não se vive 

para adorar um deus

 

(animais não têm

deus nenhum)

 

vive-se porque

se sobrevive

 

sobre viver

nada mais a dizer

 

Dolhnikoff é muito bom poeta. O seu ceticismo é acessório, a sua negatividade não é negacionismo. É talvez aquele realismo próprio de Almada Negreiros, quando escrevia: “Eu não sou optimista nem pessimista; não há equívocos entre mim e a realidade”. Otimismo e pessimismo são modos de deformar a realidade. O Autor é realista. E não podemos ignorar o quanto da negatividade dos autores em geral reflete a situação do seu país de origem, no caso, o Brasil. O Brasil a que se reporta o pântano do Poeta não é o Pântano do Sul, é o pântano brasileiro de uma quebra brutal do sentido das conveniências, das maneiras civilizadas de estar com os outros, dos valores, dos afetos, e até da linguagem, que fluem de um teto político podre, integralmente corrupto, desde a alma até ao saco das esmolas. Se o livro denuncia o lamaçal, combate-o. Não compete a ninguém ensinar os caminhos da poesia. Ela é que guia o poeta. Desde sempre houve poesia de combate. Quando necessária, e ela é ultranecessária nos nossos dias, combata-se. Ainda que só pelo que julgamos restante: a sobrevivência. 

 

 

LUÍS DOLHNIKOFF

Impressões do pântano

São Paulo, Quatro Cantos, 2020

 

 

Maria Estela Guedes (1947) é uma dramaturga, poeta e ensaísta portuguesa. Licenciada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem vários títulos de poesia publicados, dos quais se mencionam os mais recentes: Clitóris Clítoris, Pontevedra e São Paulo, Urutau, 2019; Esta noite dormimos em Tânger, Pontevedra e São Paulo, Urutau, 2020; e Clítoris Clítoris, trilingue, com tradução para espanhol de Berta Lucía Estrada, São Paulo e Fortaleza, Cintra e Arc editoras, 2020. As suas obras de referência são Herberto Helder, Poeta Obscuro  (Lisboa, Moraes Editores, 1979) e A obra ao rubro de Herberto Helder (São Paulo, Escrituras, 2010). Dirige o site Triplov.

 

 

 

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