Cultura

O homem dos cartões | Cláudia Passarinho

Faulkner encontrou Elias dois anos antes agarrado a uma cama, foragido de um mundo desfocado. Entrou pela porta escancarada do chalé numa tarde de inverno e, defrontou duas ratazanas famintas pelo desalmamento de Elias. Foram os seus fortes latidos que o acordaram do torpor. Haja sobrevivência na voz da natureza, quando no coração dos homens a letargia permanece inabalável. 

 

Resgatou-o do afogamento da dor numa ocasião em que a mundo tinha perdido a visibilidade, em que o sol não nascia para ele e o vento cantarolava entre as copas das árvores para não se sentir sozinho. Nessa época, o preto do céu não dava novidade nenhuma a Elias. A noite já ele habitava, mesmo antes de esta surgir com gritos guturais de boca aberta para permitir a reentrada da alma. Quem entrou foi a alma de um cão, feito anjo, livrando Elias da solidão como outro Elias salvo no Reino de Jadé. Durante horas, o cão permaneceu a seu lado, num estado de vigília exímio. 

 

A boca seca, os lábios gretados, a fraqueza dos músculos, tornavam os movimentos de Elias lerdos. Quando os tinha, estes apenas faziam com que o animal saísse da posição inicial, se levantasse, abanando efusivamente a cauda. 

 

No momento em que já se habituara à procura da punição do corpo para dissimular o pesar, um ser tão magrela quanto ele reclamava-lhe cuidados. Não era justo! Como ousava chamar a si as atenções? 

 

No final rastejou o cepo até à cozinha. Enquanto procurava um recipiente para dar alimento ao intruso, fixou o olhar nas panelas penduradas por cima do fogão. O reluzir do metal, devolveu-lhe a imagem do abanicar das nádegas cheias de Aurora, areando-as até se transformarem autênticos espelhos côncavos.  

 

Abriu a única caixa de flocos de cereais existente e, como não tinha leite, misturou água. Foi o suficiente para esganar a fome ao bicho e alimentar a voz ao próprio Elias «Vá, come» — ordenou-lhe. 

 

Nesse dia voltou para a cama. E no dia seguinte também. Foi ao terceiro dia que o cão sem nome esbarrou contra a estante de livros, derrubando-a. O estardalhaço fez Elias pular para fora da cama num acesso de fúria. Ao ver o cão despojado sobre o livro “O som e a fúria” de William Faulkner percebeu a sua própria decadência. O que cai pode ser levantado, e o batismo do animal fez-se no meio da desordem, entre palavrões que se ouviram a milhas de distância. Agora viviam numa paz dissimulada, missionários, zelando cada um deles pela sobrevivência do outro.  

 

«Anda, vamos para casa». O cão agitou-se entusiasmado. Talvez ter casa fosse arrebatamento suficiente para um cão, mas para o dono o regresso a casa não era mais que a exigência de uma profunda inalação, enchendo-lhe a caixa torácica de vazio.  

 

Libertou o cajado das mãos lamacentas e colocou-as em concha, como se aguardasse a bênção do final do dia. Cada pedaço de pele ressequida falava-lhe da guerrilha entre o homem e a natureza, do peso da última sob a leveza do primeiro. 

 

Mirando o horizonte era-lhe possível ver as linhas de cultivo e guiou-se até casa por entre folhas de couve. 

 

Ombros descaídos, como se carregasse sacos de fragmentos, percorreu o trilho de terra dentro das galochas um número acima. Pisava as pedras arenosas procurando que o trespassassem, que o cheiro, o pó, o acastanhado, o atordoassem de comiseração. Calcavaas com respeito e o peso esfarelava-as em memórias que esvoaçavam em poeira galgando por ele. Vislumbrou-a, materializada por detrás das cortinas rendilhadas, de barriga encostada ao lava-loiças e carrapito, cor de mel. Possivelmente, descascava batatas veloz desbravando os tachos. Há muito que não ouvia o tilintar do colherão contra as paredes de alumínio, já não circulava no ar o cheiro a cabrito ou a coelho à caçador, confecionados pela mulher. Desde que encarou a morte nunca mais conseguiu matar um animal. Uniu três dedos no ar para lhe desmanchar o laço farfalhudo do avental, mas foi o invisível que lhe desfez o sorriso traquina de apaixonado tão rápido quanto um cometa rasga o céu. 

 

«As botas ficam à porta» ouviu por detrás do silêncio antes de entrar em casa. 

 

Ao atravessar a porta, o desalento deixou antever uma esperança parca, tão rala como a sopa que iria aquecer. 

 

Serviu água fresca ao companheiro e correu a enxaguar o corpo. Do chuveiro jorrava água fria sobre as suas costas, para se subjugar melhor, encostou a cabeça aos azulejos, convencendo-se de que a água estava mais quente que a própria alma. Um fio de líquido escorria da ponta do seu órgão mole, rodou o corpo fugindo do declínio e expôs o rosto para as lágrimas desaparecerem debaixo da torrente. Quando saiu da banheira, o espelho refletiu um interior solitário, felizmente o sangue gelado açoitou-lhe os pensamentos, impedindo-os de se formarem. 

 

Já de corpo lavado, sentou-se à beira da sólida mesa de carvalho, enganou o estômago com caldo, pão e queijo. Serviu-lhe a garrafa de vinho tinto de aperitivo.  

 

Enquanto comia, olhava para as lombadas dos livros que enchiam prateleiras de esperança do outro lado da sala. Brilhavam com o bruxuleante dos troncos que ardiam na lareira. Era primavera, não estava frio, mas a noite seria longa e o crepitar da lenha sempre o ajudara a pensar. Não se lembrava da origem de todos eles; sabia que havia os roubados, os adquiridos em troca de ovos ou alguidares de figos e alguns oferecidos pelos próprios alfarrabistas, que se rendiam ao olhar ingénuo de Aurora. «Minha Aurora. O que é feito de ti? O que eu não daria para saber para onde foste. Espero que estejas em paz. Claro que um ser como tu ofuscou qualquer luz que tenhas seguido! Como saberei se chegaste bem? No outro dia sonhei que me observavas, que levitavas no escuro do nosso quarto e disseste-me que o tempo e as ações agora passavam por ti sem te magoarem. Foi o melhor sonho que tive depois de partires». 

 

Afastou as mechas desgrenhadas do rosto procurando tocar-se para voltar mais depressa à realidade entorpecida.  

 

Num instante colocou a loiça na pia e guardou os alimentos que sobraram. Vigiou, de pé, o bule de café que lhe prometia cevar a solidão e quando se sentou na poltrona, pronto para a odisseia, esfumou o ar com o cachimbo, aromatizando-o de damasco. 

 

Passou a mão sobre o bolso, a lista das palavras que queria pesquisar na biblioteca continuavam lá, faltavam três dias para ir à cidade. Dessa vez, não só faria a visita mensal à biblioteca como também compraria um lápis de carvão; o dele diminuía-se todas as noites a olhos vistos. 

 

«Acredito que a forma mais hábil de enganar o caos é através da escrita» imaginou dizerlhe a mulher. «Vou continuar a entregar-me ao carvão» responder-lhe-ia ele, afagando a brancura do rosto dela.  

 

Assaltou-o a memória dos dois, sentados no sofá, a trocarem carícias no pescoço e encontrões de ombros. Em cima dos quatro joelhos, um álbum de fotografias pesado e a interrogação dela a cortar o riso: 

 

«Então e quando eu morrer? Achas que encontrarás outra pessoa para amar?» 

 

A pergunta pareceu não ser ouvida. Há perguntas que não têm resposta, ficam respondidas apenas no fundo da mente e são exclamadas somente pelos batimentos cardíacos. As linhas da testa dele carregaram-se de amargura contra o tempo, por detrás da resposta estava o abandono. O silêncio arrastou Aurora para o peso da sagacidade. E como o silêncio não fala, naquele dia, a resposta não se fez ouvir. 

 

Continuou a escrever na parte detrás da embalagem do dentífrico, a noite caminhou lado a lado com os seus pensamentos, a história compunha-se, determinada a fazer perdurar. Gestos de lealdade canina humanizavam o escrevente, aquecendo-lhe ora as canelas, ora o ânimo e, de quando em vez, lançava um mirone ao dono, inteirando-se da sua presença.  

 ٭

A manhã quis nascer nebulosa. Fechou a porta de casa e percorreu a pé os quilómetros que o separavam da civilização com o cheiro do feno molhado trazido pela brisa das vacarias vizinhas. 

 

Estancou de frente para os muros do hospital percebendo que continuavam claustrofóbicos. Da última vez, tinha-os trespassado sovado pelo desânimo, como humano que lhe fluem agulhas nas veias. Recordou o sorriso dela quando entrou no quarto insípido. Felizmente, ela não viu o médico abanar a cabeça antes de sair, negligenciando a ciência. A respiração fazia-se a um ritmo lento denunciando escassez de vida, mas por detrás da íris mostrava-se uma alegria pacificadora. Abraçou-a entre soluços, soltando palavras de alento. Sentiu no canto do cubículo, a ceifeira que esperava de foice em riste, pronta a separar a alma do corpo. Elias olhou para ela implorante no silêncio, não a conseguiu demover, se houvesse hesitação poderia ainda acreditar. Todavia, não lhe deu o gosto da entrega e subiu para cima da cama, aninhando o corpo frágil da mulher no seu corpo.  

 

Também ele pensou entregar-se nas mãos da ceifeira. Porém, desistiu, pior que o sofrimento que sentia na altura seria ser traído pela promessa de paz que a morte porventura lhe trouxesse. Vogando no interior da carcaça continuava o sonhador. Afinal aquele que acredita em qualquer coisa, não se despede com os dentes serrados sobre um cano.  

 

Subiu a rua, passou pela Ponte Velha e perseguiu a sua sombra com o sol a aquecer-lhe as costas, sentia-se compreendido pelas palavras que tinham desabrochado dele, na noite anterior.  

 

Era a deambular por entre livros, igual a rato de biblioteca, que compreendia melhor o peso da história. Havia algum tempo que tinha tomado uma decisão: criar a maior oferta de imortalidade de Aurora. 

 

«Seria estúpido ficar na sombra e não vincarmos a nossa história.» — convenceu-se olhando para o cão numa tarde solarenga enquanto cavava a terra. — «Não a passarmos para ninguém. Compreendes?» 

 

E se a enxada era o instrumento para cuidar da terra preparando-a para o primeiro feijão, também o lápis seria o culminar da sua existência. Aurora prolongar-se-ia entre aqueles que respiram, e o bafo dela continuaria a acalentar quem quisesse fazer parte da sua vida. 

 

Meses depois, reunidas as escrituras, envolveu-as orgulhoso em cordel de sisal. Fez um nó no topo do monte e transportou até a biblioteca a sua preciosidade gravada nas diversas embalagens de cartão, em caixas de cereais, de papas, do milho das galinhas, tudo servia para reter Aurora, engrandecendo-a entre palavras.  

 

Entregou a obra-prima debaixo de olhares discriminatórios, quem a recebeu escarneceu disfarçadamente como se o disfarce não fosse senão uma maldade bem vestida. Estava entregue, para o mal e para o bem, para a saúde e para a doença, até a eternidade. 

Naquele dia, subia a rua com as mãos protegidas nos bolsos. Os primeiros frios criavam aspereza nas bochechas, e a enchente de pessoas que o rodeavam fizeram-no acelerar o passo. 

 

Da janela vitoriana do primeiro andar da biblioteca Municipal, o mirone identificou-o sem esforço, descendo as escadas com uma agilidade de caçador. Foi no primeiro patamar do antigo edifício que se encontraram. Elias passaria por ele sem dar conta da sua presença caso este não o intercetasse tocando-lhe no ombro com timidez. 

 

«O que quer?» — cuspiu para o franzino miúdo, pequeno de mais para o fato. 

 

«Há algum tempo que queria falar consigo.» 

 

«Para quê?» 

 

«Li a história que escreveu nos cartões soltos. Confesso que achei que o senhor era maluco.» — assumiu ingenuamente. 

 

«Deveria saber que os malucos falam sempre de coisas sérias, mas de maneira diferente. 

 

Em que posso ajudar?» 

 

O jovem emagreceu ainda mais a sua presença em concordância e prosseguiu. «A sua Aurora é única e quero mostrá-la ao mundo. Podemos falar?»

 

 

 Cláudia Passarinho nasceu em Lisboa em 1981. É uma nova voz no mundo literário. Tem presença, como contista, na revista “Palavrar” e na coletânea “Não vão os lobos voltar”, que será lançada em 2021.

Licenciada em Desenvolvimento Comunitário e Saúde Mental, Pós-Graduada em Gestão de Recursos Humanos, adora a complexidade da mente e o poder das palavras escritas na humanidade. É uma leitora voraz, e nas páginas dos livros encontra o seu refúgio; será através das suas palavras que procurará deixar um legado. 

 

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