Cultura

O empoderamento das mulheres, por meio da obra de Thaís Reis

Na orelha ao livro “Vozes-mulheres: crônicas do corpo feminino na cidade de Nova Iguaçu”, da professora e escritora Thaís Reis, Nova Iguaçu, RJ, 2021, Gabriela Machado cita o silenciamento das mulheres e a resistência à fala. Assim, “Voz é poder, e Vozes-Mulheres é revelação”.

Já na apresentação, Thaís Reis cita que a obra em voga trata sobre “o real subvertido na palpável leveza da ficção.” O mote da obra foi um conjunto de entrevistas realizadas com 12 moradoras de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Não se trata de um trabalho de transcrição de material, mas sim de criação literária. Thaís escreveu crônicas sobre estas mulheres, investigando-as à essência delas, com total liberdade.

 

Ao trazer para a apresentação a voz de Lygia Fagundes Teles que citou: “sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos”, Thaís Reis mostra a força da mulher na segunda metade do século XXI. Mais adiante, outra voz ratifica a importância da escrita da mulher como símbolo de liberdade. O nome de Conceição Evaristo foi evocado, uma vez que representa parte desta luta, em oposição a uma literatura pretérita feita somente por homens brancos.

 

Tal qual Lygia, Thaís é uma intelectual que vive de escrever histórias. E acrescenta: “não sou uma criadora, mas uma reinventora de histórias” porque “transvê”, isso para utilizar o neologismo de Manoel de Barros, poeta predileção da autora.

 

 Merece destaque também outro trecho de fala autoral: “Se a literatura é, entre outros aspectos, o lugar da memória, é, sobretudo, um espaço da manifestação das memórias marginalizadas”. E com esta assertiva há o respaldo à obra em tela.

 

Ao final da apresentação, uma dúvida sobre o tipo de livro escrito. Seria um trabalho jornalístico? Memórias? Um gênero intermediário? Diante da necessidade de nomeação, Thaís apresenta o título de crônicas sobre mulheres iguaçuanas.

 

Aqui, uma digressão para mostrar que o título foi acertado. A crônica é, por excelência, o texto do cotidiano, que valoriza a vida diária. E não é à toa que a vida dessas mulheres dá um livro. Ou mais. Tanto que aí estão os corpos, os dramas, as alegrias e as dores de 12 personagens de carne e osso.

 

Quanto às crônicas propriamente ditas, eis algumas notas que endossam a grandeza feminina.

 

“Júlia, a deusa-terra”, p.21, é um texto que relata o encontro da professora Thaís Reis com uma ex-aluna, no momento, já mãe. Por isso, a simbologia deste texto de abertura é uma valorização às mulheres, que criam filhos, muitas vezes, sem o auxílio masculino, embora ela o tenha. Júlia representa milhares de Júlias no Brasil.

 

O livro é rico de alusões culturais, desde poemas de Manoel de Barros, trechos de canções como de Beth Carvalho, trechos do escritor Bartolomeu Campos de Queirós, entre tantas outras referências. Tudo está em “Itamara, a mulher que gosta de gente”, p.27, a pessoa que relatou todos os dramas para viver uma vocação religiosa: ser mãe de santo.

 

Esta é uma característica das crônicas de Thaís Reis: o alto poder de concentração cultural, visto que a escritora, uma grande leitora que é, apresenta referências de sua predileção pelo livro. Por isso, nomes exponenciais como Manoel de Barros, Mia Couto, Simone de Beauvoir e muitos outros passeiam por estas páginas. 

 

 “Celeste, azul da cor do céu”, p.33, retrata a vida de uma mulher que, após passar por dúvida existencial entre seguir a religião plena, como fez Itamara, ou buscar outro caminho, tomou a decisão certa. A mulher com nome angelical, Celeste é uma artista. A dona dos andaimes, tapumes, a pintora, aquela que viveria entre cores, o exemplo de superação a inspirar tantos outros na Baixada Fluminense. Eis aquela que recebeu o honroso Prêmio Baixada. “A única mulher que sobe andaime para fazer pintura sacra é, definitivamente, artista”, p.35.

 

 “Luciene, a mãe que dá voz aos mortos”, p.39, é uma crônica impactante porque, através da ficção de Thaís, a autora e eu (na condição de leitor) expressamos nossa solidariedade a Luciene e tantas mães, que perderam filhos vítimas da violência, não só na Baixada, mas por todo o País. Luciene é uma voz forte, possante, que não pode calar.

 

Dona Engrácia é um exemplo de força, de vida e de dedicação ao trabalho. A crônica “Graça, mais macho que muito homem”, p.45, é um exemplo da mulher que ousou dirigir uma Kombi, fazendo a “lotada” Nova Iguaçu x Caioaba, driblando o machismo. Thaís quase finaliza o texto com o fantástico pensamento: “Ninguém nos dá permissão de sermos exatamente quem somos a não ser nós mesmas.”, p. 48.

 

Em “Lourdes, o fio invisível da memória’, p.53, há uma mulher que diz ter 84 anos, ou já viveu um século? É uma personagem que inventa informações, ou simplesmente se cala. Depois, a real idade aparece: 96 anos. E Thaís produz aqui prosa poética: “Para onde foram os anos de que não se recorda? No fio invisível da memória, dona Lourdes perde a conta, a hora, a lucidez”, p.55.

 

A romancista Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”, é citada. Eis o drama da mulher escritora que insistia em nascer, apesar do quadro de dificuldades. Thaís se lembrou de tal livro, ao tratar de “Nilza, a mulher que não sonha”, p.57. Elisa Lucinda, Conceição Evaristo, Mario Quintana são citados no texto e Nilza é a própria simplicidade.

 

“Valéria, o canto nada mulher preta”, p.63, personifica o ideal de quem luta por seus propósitos. A mulher que cresceu cuidando de sete irmãos e que aprendeu a cultura do povo preto, bem como a ancestralidade, viveu a maternidade e alcançou realização profissional. Eis mais uma professora amante do ofício. Docente da rede municipal de Nova Iguaçu e do Rio de Janeiro, é Poeta, com letra maiúscula. E aqui uma digressão com versos de uma gigante da Poesia: “E de tanto batalhar, virei…poeta / – um grande passo em minha meta / porque em poetisa todo mundo pisa”, no célebre poema “Geração inde(x)pendente”, de Leila Míccolis.

 

Participou de  saraus como “Coletivo Pó de Poesia” e do “Centro Cultural Donana’, mas não se conteve e idealizou o “Sarau Afro- Indígena: um dedinho de prosa e um  gole de poesia”, no sétimo ano consecutivo, hoje de forma remota em uma escola em Cabuçu, na qual leciona.

 

Em “Raquel, os olhos cor de água”, p.71, “no ofício de gari”, a mulher que conheceu a fome, presenciou a violência familiar, a bebida, o casamento como fuga, até descobrir a própria paz.

 

O que encanta do relato de “Zélia, a mulher que planta o amanhã”, p.77, é justamente o amor da personagem pela terra, com a certeza de que a vida há de ser melhor como pregava o clássico musical “O que é, o que é?”, de  Gonzaguinha. 

 

 “Rosa, a filha da saudade”, p.84, é aquela cuja infância foi roubada, é aquela que grita, mas representa uma voz que cala, quando lhe exigem força. Mais um exemplo de humanidade.

 

O último texto do livro poderia ser o primeiro. Thaís expõe “Sophie, a voz de todas as mulheres”, p. 89. É uma esperança para o amanhã.

 

LUIZ OTÁVIO OLIANI cursou Letras e Direto. É professor e escritor. Em 2017, a convite de Mariza Sorriso, representou o Brasil no IV EPLP em Lisboa. Participa de mais de 200 livros coletivos. Consta em mais de 600 jornais, revistas e alternativos.  Recebeu mais de 100 prêmios. Teve textos traduzidos para inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, holandês e chinês.  Publicou 15 livros: 10 de poemas, 3 peças de teatro e os livros de contos “A vida sem disfarces”, Prêmio Nelson Rodrigues, UBE/RJ, 2019, e “Ingênuos, Pueris e Tolinhos”, 2021. Recebeu o título de “Melhor Autor Apperjiano 2019” pelo conjunto da obra. Em 2020, teve poema publicado nos Estados Unidos da América, na Carolina do Norte, em Chapel Hill, na coletânea internacional “VII Heron Clan”, a convite de Todd Irwin Marshall.

 

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