Cultura

O Deus de Tolstói

Todos os espíritos, mesmo os mais incrédulos, aspiram a alguma forma de eternidade. No caso de Tolstói, ela consistiu no fato dele ter erigido uma religião para seu uso pessoal. Tolstói certamente não ignorava que o seu Cristo não era o mesmo dos evangelhos. Como todos os revoltados, criou para si o seu próprio Deus, como fizeram Lorca e Dostoiévski e tantos outros rebeldes do espírito que, incapazes de enxergar o Cristianismo tal como ele é, preferiram antes agarrar-se a uma teologia bastante particular. A sua imagem do Salvador dos homens estava muito mais próxima do sentimentalismo algo bucólico de Rousseau do que propriamente daquele que foi o filho de Maria. Em um mundo tão escandalosamente injusto como a Rússia de sua época, parecia-lhe incompreensível que Deus se preocupasse mais com o fim último da alma humana do que com o pão diário. Talvez por isso o seu Cristianismo padeceu de todas as deficiências que uma religião artificial e limitada pode padecer. Mas ele jamais esteve sozinho em seu comovente delírio. Autores como Dostoiévski não foram menos belicosos em sua defesa de um Cristo despido de sua transcendência, humano como qualquer mortal, apartado de seu Pai e por isso mesmo mutilado.

 

Ainda que seu estilo elegante possa sugerir o contrário, Tolstói foi, dentre os escritores de seu tempo, um dos mais angustiados. Sua nobreza ocultava seu desespero. Nele, conviviam em constante tensão o devoto e o incrédulo, em uma batalha que lhe dilacerava o espírito. Ao contrário de Nietzsche, o rebelde por natureza, para quem a necessidade de Deus se transformou em uma revolta alucinante contra os céus, cujas marcas podem ser vistas em muitas de suas páginas mais combativas, Tolstói não padeceu desse desespero quase teatral. O seu bovarismo, se é que o tinha, guardou-o para si, talvez com a mesma resignação com que via os mujiques resignando-se à sua miséria. Sua busca foi mais silenciosa e, em certo sentido, algo cínica, e não deixa de ser vexatório vê-lo fazer voto de pobreza em meio à vida luxuosa que o cercava. 

 

Por isso, como uma espécie de expiação por sua covardia, seu Deus era, sobretudo, um Deus social, que deveria trazer não a salvação eterna, mas um pouco de pão às miseráveis isbás. Não deixa de ser comovente a tragédia desse homem ao mesmo tempo tão genial e tão fraco, tragédia essa que Stefan Zweig soube descrever muito bem. Havia de fato algo de teatral nessa defesa entusiasmada de seu credo, em sua busca sincera, porém viciada pela peste do sentimentalismo. Quem quer que crie para si seu próprio Deus não hesitará em lhe pôr na boca as palavras que melhor lhe convêm. Esse lamentável axioma não foi diferente no caso de Tolstói. Esse romântico envergonhado, que era impotente até mesmo para solucionar seus problemas matrimoniais, sonhou em forjar para si sua própria religião. Seu Deus vestia, assim como ele, roupas de mujique, arava o campo, costurava seus próprios calçados e, nas horas vagas, deliciava-se com o “Emílio” de Rousseau. 

 

Essa curiosa combinação não chegou a atingir seu grande talento literário, é verdade, e muitas de suas passagens mais belas estão eivadas dessa piedade sem medida pelos homens, piedade essa que lhe inspirou livros tão comoventes como “Senhor e servo”, “A morte de Ivan Ilitch” e “Sonata a Kreutzer”, bem como alguns de seus contos mais tocantes, como “Trabalho, morte e doença” e “Três mortes”. Não devemos confiar plenamente em um artista, porém suas reflexões em “Uma confissão” parecem ser bastante sinceras, embora visivelmente exageradas. Suas palavras, entanto, são contundentes e apaixonantes: “Lembrei que eu só vivia quando acreditava em Deus. Como era antes, assim é agora, e disse a mim mesmo: basta conhecer Deus para que eu viva; basta esquecer, não acreditar em Deus, que eu começo a morrer”. Sua fé era, antes, um remédio, e um remédio contra tudo que negava a dignidade da vida, negação essa que ele encontrou em todos os lugares para os quais lançou seu olhar. Seu Deus era uma fuga de si mesmo, Deus esse que jamais chegou a aliviá-lo dos seus males, os quais tiveram fim em 20 de novembro de 1910. Seu testemunho, entanto, é válido, e ele nos ensina que, tal como o verso de Eliot, o espírito humano não suporta tanta realidade.

 

Adonay Ramos Moreira

Adonay Ramos Moreira é formado em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão, Mestre em Cultura e Sociedade pela mesma universidade e autor de cinco livros, entre poesia e prosa: Sentimentos (poesia/2011), Poemas (poesia/2012), O Livro dos Poemas Invisíveis (poesia/2015), O Labirinto (prosa/2015) e Sobre Luzes e Sombras (poesia/2017). Foi ganhador, em 2013, do 35º Concurso Literário Cidade de São Luís, com a novela O Labirinto.

 

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