Cultura

O cordel atávico de Jayme Reis | Jayme Reis, e outros

“Quão pouca seria uma coisa se fosse só o que é em seu isolamento!”  

José de Ortega y Gasset.

 

A gênese do Cordel Atávico se deu juntamente à necessidade do isolamento social, da quarentena necessária com o advento da pandemia do Covid 19 a partir de 2020. Me conta o autor que essas imagens vieram junto com a necessidade de elaborar seus próprios devaneios e pensamentos enquanto executava tarefas triviais e por vezes muito penosas do dia a dia de um confinado. (quais?) Não bastasse a catástrofe sanitária mundial existe a catástrofe social e política que acomete o Brasil.

Segundo o autor, uma vaga lembrança do jogo de tijolinhos de madeira dos tempos de criança também tem um papel primordial na invenção deste cordel atávico, que pode ser visto como um quebra cabeças anárquico, mas certeiro, de toda uma cosmogonia pessoal deste artista multidisciplinar. Trata-se de cravar essa cosmogonia em forma de carimbos para em seguida obter uma cosmogênese infinita. Uma espécie de moto perpétuo. Confessa-me o artista que este “moto perpetuo” nasce como um insight à necessidade de render homenagem à preciosa escrita automática. Paixão dos surrealistas. Isso me reporta também à famosa frase do Conde de Lautréamont: “o encontro fortuito sobre uma mesa de dissecção de uma máquina de costura e um guarda-chuva”, outra referência também muito cara aos surrealistas.

 

 

Tudo é válido, e tudo faz sentido neste cordel, não importando a ordem ou a sequência dessas carimbadas. É a expressão máxima de um certo “livre pensar”.  Jayme Reis vai criando uma infindável lista de símbolos/imagens que dialogam independentes de sua vontade. Os encontros fortuitos fazem sempre sentido nessas cenas.

Mantendo uma nítida referência à estética das revistas de literatura de cordel do nordeste brasileiro, o artista esculpe o linóleo ou rouba de si mesmo as imagens de seus desenhos ou de suas xilogravuras antigas para depois de fotografadas e com a ajuda do Photoshop voltarem em forma de carimbos de borracha ao mundo físico. E assim o artista vai aos poucos formando o mágico caleidoscópio de seus devaneios. 

Navegantes portugueses, bruxos, reis destronados, naus antigas, galináceos, abutres, um frango d’água, freiras libidinosas, mulher que recita poemas, violas, martelos, poemas caros ao artista, citação de Calderón de la Barca, as meninas de Velásquez, partituras musicais, a figura de Beethoveen, coisas manuscritas, carimbos burocráticos, flechas de índios, cabeças de Fênix, os princípios da revolução francesa, Igrejas barrocas mineiras, voos de pássaros e etc.. e etc… 

Comove-me essa invenção de Jayme Reis e de como ela demonstra o funcionamento do mecanismo de nossa memória. 

Ele me conta com muito humor que; 

“Estou por acaso a pensar nas meninas de Velásquez enquanto no mercadinho da esquina e com a máscara antivírus na cara escolho as batatas para o almoço. Já no apartamento (oitavo andar) enquanto preparo as panelas e ouço a terceira sinfonia de Beethoveen pelo spotify, me vêm à mente (sem quê nem por quê) os preceitos da revolução francesa. Em seguida me lembro imediatamente que Beethoveen era um apaixonado pela revolução francesa.”

 

“A vida é aquilo que acontece enquanto sonhamos ou fazemos planos”. E uma emergência sanitária, uma pandemia, é a mais dura prova dessa máxima.  A necessidade de isolamento, junto ao medo da morte pode potencializar a nossa memória e fazê-la, por vezes, funcionar em câmera lenta ou acelerada,” declara o artista.

 

Jayme Reis em um ímpeto acaba por criar um sui generis jogo de memória que nos contacta com a relatividade não só de tempo/espaço, mas principalmente de desvãos da alma. Acontecimentos históricos, flashs do inconsciente coletivo e histórias pessoais, que acabam se relacionando com as mais triviais tarefas do dia a dia. E com uma naturalidade desconcertante.

 

O que dizer dessas carimbadas nada burocráticas, mesmo que nos arremetam ao mecanicismo da atividade burocrática? Por que uma mulher que recita Calderón de la Barca o faz para um reles frango d’água pousado em um pedestal que homenageia Diogo Cão, o valente navegante português conhecido por espalhar padrões em terras longínquas em tempos remotos? Pois para mim está tudo explicado. Não é gravura pois não existe a menor possibilidade de Jayme Reis repetir as imagens quando está a trabalhar com suas duas centenas de carimbos espalhadas pela mesa. É reprografia anárquica, mas tudo faz sentido nessa anarquia. 

Somos assim!

 

Maria Agripina P. Saudades.

Arqueóloga e vizinha de porta do artista.

O artista Jayme Reis apresenta sua nova (e quarentênica) série, Cordel Atavico.

“A xilogravura/linoleogravura nada mais é que um processo de reprografia a partir do imagens cravadas. Carimbos”, conta ele

Por PATRÍCIA CASSESE

16/08/21 – 04h35

 

 

Para o artista plástico mineiro Jayme Reis, a arte é, indiscutivelmente, o mais belo e enlevante pilar do conhecimento humano. “É o antidoto para a loucura obscurantista que está tentando se instalar em todos os níveis em nosso país”, pontua. Não por outro motivo, nesta pandemia, o artista mineiro – que, vale dizer, aniversaria nesta segunda-feira – não parou de produzir, mesmo com os espaços expositivos tendo sido obrigados a fechar suas portas (ano passado, uma mostra sua estava prevista para acontecer em Lisboa, mas, claro, teve que ser adiada) e estando ele abatido com o cenário devastador detectado mundo afora, com milhares de perdas humanas. “A morte se fez presente, sentou-se na cadeira ao lado”, diz ele, para, em seguida, observar: “Não sei o que faria sem a arte neste momento específico tão absurdo, tão surreal”.

 

Tendo, pois, a arte como companheira, Jayme Reis arregaçou as mangas e, com muitas ideias na cabeça, deu vida a uma nova e inspiradora série, sugestivamente batizada de “Cordel Atávico”. Ao ser procurado pela reportagem do Magazine, ele lembrou que uma vaga lembrança daqueles jogos de tijolinhos de madeira da infância teve papel primordial no start do processo criativo, que, aponta, pode ser visto como “um quebra-cabeças anárquico, mas certeiro, de toda uma cosmogonia pessoal”. Trata-se de cravar essa cosmogonia em forma de carimbos para em seguida obter uma cosmogênese infinita. Uma espécie de moto perpétuo”, diz.

 

Um texto de apresentação dá mais pistas: “Este ‘moto perpétuo’ nasce como um insight a uma necessidade de render uma homenagem à preciosa escrita automática. Paixão dos surrealistas. Isso reporta também à famosa frase do Conde de Lautréamont: ‘O encontro fortuito sobre uma mesa de dissecção de uma máquina de costura e um guarda-chuva’, outra referência também muito cara aos surrealistas. Tudo é válido, e tudo faz sentido neste cordel, não importando a ordem ou a sequência dessas carimbadas. É a expressão máxima de um certo ‘livre pensar'”. Assim, Jayme Reis vai criando uma infindável lista de símbolos/imagens que dialogam independentes de sua vontade.                      “Os encontros fortuitos fazem sempre sentido nessas cenas”.

 

Mantendo o que salienta ser uma nítida referência à estética das revistas de literatura de cordel do nordeste brasileiro, o artista esculpe o linóleo – “ou rouba de si mesmo” – as imagens de seus desenhos ou de suas xilogravuras antigas para, depois de fotografadas, e com a ajuda do photoshop, voltarem em forma de carimbos de borracha ao mundo físico. ‘E assim vai aos poucos formando o mágico caleidoscópio de devaneios. Navegantes portugueses, bruxos, reis destronados, naus antigas, galináceos, abutres, um frango d’água, freiras libidinosas, mulher que recita poemas, violas, martelos, poemas caros ao artista, citação de Calderón de la Barca, as meninas de Velásquez, partituras musicais, a figura de Beethoveen, coisas manuscritas, carimbos burocráticos, flechas de índios, cabeças de Fênix, os princípios da revolução francesa, igrejas barrocas mineiras, voos de pássaros e etc”.

 

Se a nova série está devidamente apresentada, resta, a Jayme Reis, falar sobre os temas que o atravessam (atravessaram) em tempos que tanto exigem dos que empunham a bandeira da arte no país – e que, claro, também reverberam neste Cordel Atávico. Confira, a seguir, trechos da entrevista.

 

Os espaços expositivos já estão retomando suas atividades. Pensa em uma mostra presencial?

Estou louco para expor esta série, mas não sei quando poderá ocorrer. No momento, estou em conversação com o meu galerista e curador de Lisboa para uma exposição que deveria ter acontecido em 2020. Muitos trabalhos que que foram produzidos em Portugal entre 2017 e dezembro de 2019 já estão lá, na Galeria Perve, mas aí veio a pandemia, e este pária que vos fala não mais atravessou o Atlântico. Vamos fazer a exposição ainda neste ano, talvez eu não esteja presente fisicamente. Muito provavelmente envie uma coletânea do Cordel Atávico para figurar nela.

 

A arte tem sido um alento nestes tempos de pandemia? Aliás, como ficou sua vida com o advento da quarentena, galerias fechadas, angústia, desalento com o país, perplexidade diante de tantas mortes etc.

A morte se fez presente, sentou-se na cadeira ao lado e o país foi tomado por um bando de loucos terraplanistas, fabricantes de fake news, malfeitores empoderados. Instala-se concomitantemente a isso uma necropolitica. É muita loucura, muito obscurantismo. Não sei o que faria sem a arte neste momento específico tão absurdo, tão surreal. Essa série é fruto dessa panela de pressão, pois anteriormente eu estava envolvido com uma série de linoleogravuras (uma variante da xilogravura) em um ateliê em São João del-Rei, mas, com a necessidade da quarentena, o que fiz foi transformar este ateliê de gravuras em algo portátil, e aqui, na mesa de jantar do apartamento em Belo Horizonte, onde moro. São carimbos, e a xilogravura/linoleogravura nada mais é que um processo de reprografia a partir do imagens cravadas. Carimbos. Sou multimídia e multidisciplinar, e nunca deixei de trabalhar com arte desde os 18 anos de idade. Arte é o meu farol.

 

Que lições espera levar desta experiência que gostaríamos de não ter vivido?

Fica até difícil responder essa pergunta, pois acho que nunca mais serei o mesmo. O mais terrível foi enxergar a miséria humana, a baixeza de caráter e a falta de humanidade de pessoas próximas. Mas ainda bem que enxerguei isso agora. Antes tarde que nunca. Sonho com uma espécie de renascimento artístico, cultural e de humanidades. Sonho muito com isso. 

 

Qual o papel da arte em tempos tão áridos (e não só em função da pandemia)?

Neste momento a arte serve também para nos colocar dentro da realidade mas, digamos, de uma maneira mais carinhosa e acalentosa. A arte é o antidoto para a loucura obscurantista que está tentando se instalar em todos os níveis em nosso país. Arte é conhecimento puro, é ciência pura. Terraplanistas e negacionistas jamais conseguirão produzir arte boa ou relevante. A arte acalenta neste sentido pois é beleza informada. Arte é, em minha opinião, o mais lindo e enlevante pilar do conhecimento humano.

 

Jayme Reis é artista plástico autodidata, multidisciplinar. Nascido em Itabira, Minas Gerais em 1958. Explora a diversidade de linguagens – cerâmica, objetos, desenho, gravura, fotografia e arte digital, buscando expressões limítrofes de linguagem e de gêneros. Expõe coletiva e individualmente desde 1982 em espaços públicos e galerias particulares

Foi artista visitante no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC (1990) e do Coltec/UFMG (1994-95). Obteve o Prêmio de Incentivo à Cultura do Estado de Santa Catarina, Secretaria Estadual de Cultura, Florianópolis (1990) e o 1º Prêmio no I Salão de Artes Plásticas da Cidade de Uberaba, MG (1995). Participou do Salão Nacional de Curitiba (1991-97); Bienal Nacional de Santos, SP (1995); I Concurso de Arte Erótica e I Salão de Arte Erótica, Barcelona, Espanha (1996). Publica o livreto/catalogo EPIPHANIA contendo texto e 37 imagens que narram a sua experiência com o Photoshop e a fotografia digital (2007). Em 2017 algumas de suas obras passam a integrar a Coleção Lusofonias da Perve Galeria – Lisboa.  Em 2018 participa e do 40o aniversário da Bienal, a XX Bienal internacional de Cerveira com a obra “A Origem do Universo”, recebendo um prêmio aquisição. Com o titulo “A Reconstrução do Templo”, participou como artista convidado da terceira edição da Bienal Internacional de Gaia, 2019.

 

Patrícia Cassese é jornalista especializada em cultura. Mineira, trabalha atualmente no caderno Magazine do jornal “O Tempo”, no qual exerce a função de redatora. Já passou pelas redações do “Diário do Comércio”, “Estado de Minas”, “IstoÉ Minas” e “Hoje em Dia”, além de ter colaborado, como freelancer, para publicações como o Jornal da Funarte e outros.

 

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