Política

O Brasil está dormindo – Abbadôn está com pressa

Moro no extremo sul de Porto Alegre. Outono, a claridade dói nos olhos. Camus, quando conheceu a cidade, em 1949, a odiou, mas gostou da luz. Aqui perto de casa uma farmácia surgiu da noite para o dia. Onde havia apenas um terreno baldio foi edificado prédio padrão de uma rede paulista. Assim ocorreu em toda a cidade. De repente, não bastassem as inúmeras já existentes, a cidade ficou cravejada de outras tantas, recém abertas. Farmácia vem do grego phármaka , fármacos, poções mágicas, magia, feitiçaria.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a relação de uma farmácia para 8 mil habitantes. Em Porto Alegre, ano 2017, havia um estabelecimento para cada 2,1 mil habitantes. Atualmente é provável que este incremento tenha evoluído consideravelmente; quem sabe não somos os recordistas mundiais?

Há pouco tempo a cidade era o epicentro mundial da pandemia de Covid-19, com Utis lotadas, pacientes morrendo sem conseguir acessá-las e os que lá aportavam apenas 20% sobreviviam, alguns ainda com sequelas permanentes.

Um dos crematórios cuspiu fumaça negra durante horas no ápice da mortandade, logo se imaginou a cena de Auschwitz, mas era o gerador acionado pela sobrecarga da rede elétrica, que não dava conta das sucessivas cremações.

Na esteira desta cultura da automedicação Bolsonaro projetou a ampla distribuição de cloroquina, seu factoide diante dos efeitos frenéticos da pandemia, cuja média móvel de mortes teima em não declinar. Sua ampla distribuição é sentida pelos que, de fato, necessitam deste remédio, em especial as comunidades indígenas que sofrem com os ataques dos mineradores clandestinos – apoiados por Bolsonaro – cujo rastro destruidor também espalha a malária. 

Nesta semana publicou-se uma foto de uma indiazinha Yanomami esquálida, diagnosticada com malária, pneumonia, verminose e desnutrição. O líder da tribo – uma das mais resistentes frente ao avanço do garimpo ilegal – denunciou que falta cloroquina para tratá-la, assim como outras crianças vitimadas pela malária. 

Foto divulgada pelo missionário Carlo Zacquini

A foto correu o Brasil, mas o país não se comove mais com nenhuma tragédia. No ano passado o Pantanal ardeu em chamas, os animais se calcinaram em poses de desespero. Também a floresta amazônica é dizimada dia após dia, mas os brasileiros tampouco se comovem. Semana passada houve a maior chacina numa favela brasileira, onde as vítimas foram executadas, algumas a sangue frio. Uma delas estava sentada numa cadeira de plástico, posição improvável de revide. Os corpos desceram as ruelas da favela carioca em sacos plásticos brancos onde o rastro escarlate do sangue escoou como uma trilha mórbida para um crime encomendado e desviar a atenção da CPI no Congresso sobre a Covid-19.

O sociólogo português Boaventura de Souza Santos conheceu bem a favela do Jacarezinho, quando lá aportou, jovem, nos anos 70. “Foi esta a comunidade que me ensinou a ser pessoa digna que hoje procuro ser e que está sendo tratada com tanta indignidade.” Ele iniciou uma campanha para que o povo tome as ruas. Porém desabafou: “O PT está tentando manter tudo dentro do marco das instituições para que não haja grandes comoções para eleger Lula em 2022, o que considero muito importante e apoio integralmente. Mas não sei se lá chegaremos…. Não entendi por que o Brasil ainda está dormindo.”

A América Latina começa a acordar enquanto o Brasil adormece. As oposições brasileiras traíram seus propósitos mais originais, a esquerda se esconde na pregação do confinamento, ocultando um medo incontido. Novamente recordo Camus: “sempre há uma filosofia para a falta de coragem”. 

Bolsonaro é a expressão pura do crime organizado e entranhado no coração do aparelho estatal. Um polvo espalhando seus tentáculos na máquina governamental que só oferece morte e sangue, embora a comparação com esta espécie talvez seja injusta. O brasileiro médio aplaude – são pobres e índios, os que morrem. Que se danem. No Apocalipse brasileiro, Bolsonaro é o anjo (mensageiro) da morte. E como esclareceu o anjo da congregação da Filadélfia “Venho depressa” (Apocalipse de João, 3-11). Não há lágrima para ser limpa. Abbadôn, o anjo do abismo brasileiro está com pressa. O brasileiro aplaude freneticamente. Ou se cala.

Flávio Sant’Anna Xavier é Procurador Federal desde 1997. Autor de obras e artigos jurídicos na área do Direito Agrário e Administrativo. Autor do livro de contos “Guris” (2016).

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