Cultura

Neném

 

Débora era uma pioneira do feminismo no Rio de Janeiro dos anos 1970. Não chegava a ser uma Leila Diniz, mas merecia, talvez, um honroso segundo lugar. Falava palavrões cabeludos, bebia todas e se esforçava para dar mais que chuchu na cerca (embora não tanto quanto a Musa do Pasquim). É, um segundo lugar seria merecido. E tudo isso num corpinho mignon, adornado por um belíssimo par de seios.

 A aparência exterior da moça também proclamava sua independência. Nada de vestidos de noite para Débora, ou joias caras; ela dominava a arte de escolher a bijuteria e o lenço mais adequados, que se harmonizavam admiravelmente com seus cabelos negros lisos e olhos azuis. Para valorizá-los, um pouco de sombra escura. Um batom levíssimo completava a maquiagem, que não destoava dos jeans e blusas de linho ou seda que costumava usar. Montada desse modo, ela parecia uma estudante de uns 17-18 anos – bem menos que os 22 recém-completados em 1972. 

As comemorações desse aniversário estenderam-se por vários dias. Levaram-na a jantar com a família, a passar noites ardentes com dois ficantes (um de cada vez, que ela era liberada mas nem tanto) e a sair com a galera. E foi em uma dessas baladas que ocorreu o episódio relatado neste conto.

 

O conjunto era mais que over, mas um over deliberada e cuidadosamente construído.

 

Ela e Rafael, um amigo homossexual, haviam se dirigido a uma boate gay. Débora estava com um mínimo de pintura, o que a fazia parecer ainda mais jovem. Procurou adotar um ar blasé e sofisticado, mas seus olhos, que miravam em todas as direções, denunciava que era sua primeira incursão a um local desses. Parecia fascinada com a pegação ampla, geral e irrestrita, com os casais e trios – de todos os sexos, até mesmo rapazes e moças – que se acariciavam na pequena pista. Já havia dançado com Rafael e recusado, polidamente, alguns convites femininos. Estava tendo uma das melhores noites de sua vida, quando ELA entrou. 

ELA era uma magnífica figura de mulher, de mais de 1,80m, envelopada em um vestido azul de noite com fendas laterais que revelavam suas coxas perfeitas. Cabelos louros platinados desciam-lhe até os ombros expostos. Usava uma sombra azul pesada, da cor do vestido, e um batom de um vermelho berrante que provocaria qualquer touro que se respeitasse. Nos pés, sapatos de salto alto de 10 cm. O conjunto era mais que over, mas um over deliberada e cuidadosamente construído. Ela o portava com um sorriso altivo, sem um pingo de insegurança. Tinha consciência de que todos os olhares se dirigiam para ela, invejando-a e/ou desejando-a; não era mais que a homenagem devida pelos súditos a Andreia, um dos mais célebres travestis do Rio de Janeiro, a soberana inconteste daquele templo gay.

Levemente entediada, Andreia correu os olhos pelo recinto, para ver se alguma coisa ou alguém despertava o seu interesse. De repente seu olhar congelou, ao mergulhar fundo nos olhos azuis de Débora. A rainha tremeu dos pés à cabeça; respirou fundo para disfarçar e, tentando aparentar indiferença, aproximou-se da mesa de Rafael.

– Oi pessoas. É a primeira vez de vocês aqui? – perguntou.

Lisonjeado por falar com Andreia, o rapaz explicou que não, que já conhecia o pedaço, mas a rainha da noite nem ouviu suas palavras. Todos os seus sentidos concentravam-se na jovem, como se fosse um predador que imobiliza a presa antes de atacar. 

– Qual é o seu nome, querida? – perguntou com voz rouca.

– Dé-Débora – respondeu a presa, com voz sumida.

– Não, esse nome não combina com você – pontificou o predador. – É tão bonitinha e tão pequenininha… Vou chamá-la de Neném.

Pelo resto da noite, Andreia envolveu Débora/Neném em uma nuvem de sedução. Passou a contar episódios hilariantes envolvendo coleguinhas suas e a comentar algumas das exóticas preferências sexuais de amigos que estavam na boate, fazendo Neném rir até as lágrimas. “A gatinha está dominada”, pensou exultante – e então percebeu, horrorizada, que sua magnífica voz meio-soprano, laboriosamente construída ao longo de sua trajetória como travesti, cedia pouco a pouco lugar a um barítono bem masculino, o qual, para piorar tudo, vinha entrelaçado a um indisfarçável sotaque mineiro. A rainha gay perdeu a naturalidade, modulou a voz, reproduziu mecanicamente uma gestualidade super feminina, mas sentia que, a cada momento, ficava mais hétero.

Perturbada, Andreia silenciou por algum tempo, para pensar no que estava ocorrendo. E concluiu que, de algum modo, a feminilidade da Neném estava trazendo à tona hormônios há muito soterrados, mas que, aparentemente, continuavam bem vivos. “Tenho de levar um papo muito sério com essa feiticeirinha”, decidiu. Virou-se para Rafael e ordenou: 

– Preciso conversar a sós com a Neném. Vaza!

Intimidado, o rapaz levantou-se, deu um beijo na amiga e, já recuperado, foi azarar na pista de dança. 

– Que magia você está usando comigo, Neném? – perguntou Andreia para começar a conversa. – Está destruindo, em minutos, anos como travesti – prosseguiu com seu tom de barítono cada vez mais acentuado. – Não sei por quê, mas estou te desejando como um homem deseja uma mulher.

Formada em psicologia e rodada, com 22 anos de praia, Débora contra-atacou:

– Andreia, busque respostas na sua infância.

Surpresa, Andreia obedeceu. Ficou em silêncio por algum tempo, recordando episódios passados, e depois retomou a conversa, já com um sotaque mineiro plenamente assumido.

– Sabe que ocê tem razão? Quando iniciei minha vida sexual lá em Cataguazes, eu não era uma bichinha passiva. No troca-troca, ia fundo no meu parceiro. E encarava sem problemas uma sessão de sacanagem com uma menina. 

Deu um sorriso e viajou no tempo e no espaço, do passado ao presente, do interior de Minas ao Rio de Janeiro.

 – Quando faço um programa com um casal, aviso que eles foram seduzidos pela Andreia, mas também terão de encarar o Asdrúbal. – E explicou desnecessariamente: – Asdrúbal é meu nome de batismo, Neném, imagina uma maldade dessas com um futuro travesti?

Débora/Neném sorriu compreensiva. A crise hétero de Andreia/Asdrúbal a/o tornava muito mais interessante a seus olhos.

A musa da boate resolveu abrir o jogo.

– Olha, a gente precisa sair daqui e ficar junto. Não sei o que vai rolar, mas tenho de saber quem vai acordar a seu lado. Se for apenas o Asdrúbal, talvez seja o fim definitivo de uma das figuras mais fascinantes do universo gay e da noite carioca – completou com um sorriso.

Neném respondeu forçando um sotaque mineiro.

-Isso seria uma perda cultural irreparável, né queridim? Como se destruíssem uma escultura do Aleijadim. – E pegando a mãozona de rainha em crise, assumiu de vez o controle da situação. –Simbora, que a gente tem muito que trepar.

As duas saíram da boate, mas antes Andreia parou junto à pista de dança e assegurou a Rafael, com seu melhor tom de barítono e como um perfeito cavalheiro, que tomaria conta da Neném.

Ninguém sabe o que aconteceu no resto da noite entre as duas. Sabe-se, porém, que Andreia continuou a reinar sobre o universo gay por muitos e muitos anos. Débora, por sua vez, parece ter descartado em definitivo a personagem Neném – mas sempre dá um risinho e abre um sorriso enigmático quando ouve alguém afirmar, categoricamente, que fulano ou fulana é hétero ou gay. 

-Sei lá. Isso varia tanto… – costuma dizer nessas ocasiões.

 

 

 

Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.

 

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