Cultura

Músicas nascem no bar | Hermínio Prates

Eles se conheceram no bar do Tonicão, ponto de encontro de músicos, cantores e compositores. Aconteceu em um início de tarde de um sábado calorento. Aliás, sábado era o dia do quase sagrado encontro daquela confraria alegre, de vez em quando nublado por nuvens de desencontros amorosos. E, quase sempre, mágoas de amores desfeitos ou iniciados eram a inspiração para músicas. Tonicão, de voz abaritonada, sempre que o balcão permitia, cantava versos esparsos de uma ou outra música de seu agrado e que estivesse nas cordas dos violões, cavaquinhos, pandeiros ou apenas ritmada por assovios e nas mesas.

 

Além de ser um botequineiro que apreciava cantar, não fazia segredo da tendência política. O bar de nome estranho – Encouraçado – era uma homenagem ao filme Encouraçado Potenkim, dirigido por Sergei Eisenstein, sobre o motim dos marujos russos que se recusaram a comer carne podre.

 

E revolta semelhante aconteceu no Brasil, durante a construção de Brasília. A comida azeda foi motivo para que os peões quebrassem mesas e cadeiras do refeitório e espancassem os guardas a serviço da prepotência. Durante a madrugada, com reforços e armamento pesado, os fardados invadiram o acampamento e mataram muitos dos que não conseguiram fugir a tempo.

 

Sobre o nome do bar, escolhido pelo Tonicão, nem o mais arguto agente da repressão sequer desconfiaria de nada. Sim, eram cruéis e temerosos os tempos de perseguição política, mas Encouraçado em nome de boteco? Poderia ser referência aos vaqueiros nordestinos que rompem a caatinga perseguindo bois desgarrados. Não, eles não são encouraçados e sim encourados para se protegerem de espinhos e galhos traiçoeiros nos galopes suicidas. Os espias a serviço da repressão talvez até imaginassem que a placa do bar se referisse às crocantes peles de porco – couro assado – vendidas na casa.

 

Impossível de confundir? Não nos turvos anos da estupidez. O padre Francisco Lage (1917-1989), no livro autobiográfico O padre do diabo, narra o acontecido durante uma batida policial-militar em sua casa.  “O sisudo capitão examinava com minúcia tudo o que era livro, caderno, carta ou papel que encontrava sob as mãos. Andava à cata de material subversivo. De repente, toma um livro simpático da José Olympio (editora) e extasiado mostra-o aos policiais:

 

 – Fazendeiro no ar – leu o título, corrigindo Drummond. – É isso o que eles querem! A reforma agrária. – completou triunfante.”

 

Tonicão, talvez mais anarquista do que comunista, era fundador e presidente do clube varzeano Estrela, que ele pretendera batizar de Estrela Vermelha, inegável citação ao clube soviético, mas, aconselhado por um militante do PCB, concordou evitar a cor. E por deboche e não por medo, ao clube se referia apenas como Red Star, sabedor de que o nome em inglês não despertaria nenhuma suspeita – e sim admiração – de possíveis dedos-duros infiltrados naquele espaço libertário. E sempre que havia um – normalmente dois, pois agiam sempre em duplas – as conversas eram cifradas e o atendimento às mesas deles com indisfarçável má vontade. Quando os espiões saíam, cansados de tentar identificar algum subversivo – quem sabe um perigoso terrorista entre a moçada descontraída – Tonicão superava o canto com a gargalhada sem controle. E revelava as cusparadas e outras porcarias que acrescentava às porções de tira-gosto que os sacanas pediam.

 

Pois foi lá que os dois se conheceram. Nelsinho, violonista hábil e compositor de rara inspiração sempre aparecia com finas harmonias, mas penava para escrever versos que se encaixassem na melodia. Apresentados por amigos comuns, a descontração do copo permitiu que Fabiano ousasse rabiscar no guardanapo um esboço de letra. Sim, podia ser aquilo, Nelsinho gostou e os demais aplaudiram. Com uma mexida aqui, um sinônimo ali, mais um samba surgira da criatividade de ambos. Cantaram, fizeram coro nos versos e até Tonicão elevou a voz no estribilho final.

 

O convite foi feito e Fabiano aceitou. Na quinta-feira à noite Nelsinho recebeu com um abraço o novo amigo e o apresentou à esposa Simone, nome de rima difícil, mas de sorriso fácil. Célere como nenhum garçom, ela abastecia copos, servia tira-gostos e até ronronava ao som do violão. Uma hora depois, a dupla cantava os versos de um samba nascido da amizade. Falava da luz de um novo amor em um coração magoado, revivido no sorriso de uma mulher que ora parecia se oferecer, ora se negava aos olhares do quase apaixonado.

 

Uma pausa para reminiscências. Nelsinho, como se sabia, já lançara um disco de relativo sucesso e, como era criterioso no repertório, tentava reunir um mínimo de composições coerentes com o seu modo de compor e cantar. Fabiano, criativo e imaginoso, era um letrista à espera de um parceiro ideal para ser reconhecido no meio artístico. Citava repetidas rasteiras dadas por figurões da música que pediam letras para enredos musicais e depois se surpreendia com sucessos em discos e fitas, sem que lhe reconhecessem a paternidade de autoria. Nelsinho, homem honesto como poucos no meio artístico, garantiu parceria e se dispôs a registrar documento cartorial se o outro exigisse.

 

 O olhar de Fabiano circunvagou pela sala, resvalou nos joelhos e se perdeu na expectativa de um quase sorriso de Simone. Nada de documento, confiava no outro e ajudaria no que fosse possível na conclusão de um repertório que possibilitasse a gravação do próximo disco. Sim, o caso aconteceu na era dos long-plays que a meninada de hoje desconhece e remete à era dos tiranossauros.

 

Mas e o amor? Ah, esse é eterno e se não houvesse o encanto feminino inventado pelos deuses, por certo o súcubo das trevas o faria para atrair os incautos.

 

A cada noite do meio da semana a dupla se reunia na casa de Nelsinho e se tornava um trio porque, sem Simone, era como se apagassem a luz da criatividade. Sambas, chorinhos e até valsas – imaginem só, valsas! – surgiam do pinicado do violão e das letras nascidas dos eflúvios etílicos e – adivinhem! – de um sorriso de não se esquecer e de um olhar feiticeiro.

 

Simone não ganhou rima, mas batizou letra e música de um chorinho inspirado no seu apelido de infância: Catita. No último tinir de cordas do cavaquinho – Nelsinho também era ágil no dedilhar de cordas menores – Simone, a Catita, saltou da poltrona e envolveu os parceiros em um abraço que gratificou o marido e elevou as chamas do desejo que o amigo em vão tentava debelar. O beijo no rosto e a maciez dos seios da musa o fizeram se afastar temendo não resistir à tentação.

 

 Aos sábados, compositor e letrista exibiam os feitos para a exigente platéia de amigos. Tonicão, anarquista político e amante dos belos cantos, servia uma rodada especial de bons goles e apetitosos tira-gostos – sem as sujeiras acrescidas às porções dos dedos-duros – e ressoava versos de onde estivesse no sacro recinto do Encouraçado.

 

O alvorecer, renascimento, a luz do amor entre promessas e proibições, a deliciosa aventura de um novo par, sequioso pelo que nunca teve e quem sabe pelo que virá, assim foi durante semanas, até que, na última quinta-feira de maus presságios, Fabiano, sem que ouvisse qualquer harmonia, deixou embaixo da porta de Nelsinho uma letra em busca de musicalidade, que falava de abandono, fuga e recomeço com um novo amor. Seria a última para concluir o repertório do novo disco.

 

Nelsinho entrou na casa vazia e não se premiou com o cantarolar e nem viu o sorriso de Simone. Espetado por um alfinete no travesseiro o resumido bilhete dizia: fui! Compreendeu que perdera a mulher e o parceiro.

 

Assim é, na tragédia dos humanos.

 

Fotografia de Hermínio Prates.

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda – Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

 

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