Cultura

Mojubá

 

Fragmento do romance “Mojubá”, de Claudio Daniel, que será publicado em março, pela editora Kotter. A narrativa se passa em Salvador e aborda o universo mitológico dos orixás no atual contexto político brasileiro, marcado pela intolerância religiosa, o racismo, a misoginia, a homofobia e o autoritarismo político. O autor publicará também em 2021 o livro de contos “Romanceiro de Dona Virgo”.

 

Um dia, houve uma festa no Sítio Alaketu, vieram rapazes e moças de toda a zona da mata, para dançarem o maculelê, o maracatu, o forró, o samba de roda, o samba-reggae, e Lazinho ficou contrariado, porque não suportava os rebuliços do fuzuê. Para não ter de dançar com as moças, resolveu se disfarçar, e cobriu o rosto e o corpo com uma fantasia que ele mesmo criou, toda feita de palha. Ele virou o homem-das-palhas, aquele-que-não-é-humano, ele-o-esquisito, ele-o-indesejável, aquele-o-dançarino-que-não-dança-com-ninguém, aquele-o-horrendo-que-não-fala. Porém, a fantasia não teve muita serventia, só despertou o fogo-no-chibiu de uma menina morena, filha de Oyá-o-Vento, que não tirava os olhos daquele gigante palhudo, como ele seria, debaixo das palhas?  E ela foi dançando, e ela foi dança-vermelho-dançando, e ela foi gingando, e foi se atirando sobre o moreno-do-palheiro, até tirar a fantasia dele, rasgando-a toda, aos pedaços; e a moça viu as mãos do palharudo, com dedos longos e finos, unhas bem cortadas;  e viu os braços grossos e peludos do palhadalho; e viu o peito nu cheio de tufos escuros do homenzarrão-das-palhas; e viu então o rosto dele, os olhos doces, o nariz pequeno, a boca larga daquele-que-anda-vestido-de-palhas; e viu o pau duro dele, a pica, a piroca, a rola, o caralhão, o porongo, o minhocuçu, e a moça se ajoelhou e chupou o membro dele, até receber o jato de porra na boca, nos olhos, na face. Desde esse dia, Lazinho nunca mais se escondeu das moças, porém, gosta de ser discreto, ficar longe de fuxicos, de lero-leros, prefere ficar no lá-longe-quieto, com o seu colar de cauris e o seu cigarro.  

 

Foi no-depois-do-além-disso que o negro-negrão-das-palhas resolveu correr o mundo, para saber o-de-trás-e-o-de-frente, o-de-cima-e-o-debaixo do mundaréu-mundão. Com a bênção de Janaína e os dinheiros que juntou no comércio de pérolas e pedras preciosas, ele embarcou para a África, visitou Benim-Daomé, Nigéria, Togo, Serra Leoa, depois foi para as Américas, conheceu o Peru, Bolívia, Colômbia, subiu rumo ao Caribe e demorou-se na ilha-de-castro-fidel, onde estudou e trabalhou. No final de seu período de residência médica, caiu de amores por uma niña negrita cubana, sacerdotisa lukumi, hija-de-nuestra-señora-de-la-cadena. Maria Oyá Biniká estudava História da Arte na Universidad de La Habana e era devota da senhora-do-citrino-da-terracota-e-do-quartzo-rutilado. La negrita vestia-se sempre de vermelho, usava sandálias vermelhas, pulseiras de contas vermelhas, unhas vermelhas e así toda roja y escura ella passeaba con el chico brasileño por las calles de La Habana, sempre de mãos dadas, en amor de amor. Tudo começou na manhã em que ela levou o preto-das-palhas até a Sorveteria Coppelia, onde eles tomaram helados e observaram rindo um grupo de meninos em uniforme escolar fazendo algazarra nas poças de la calle. No caminho de volta para casa, ele beijou a negrita, como na letra de uma rumba ou bolero. Nos dias e noites que se seguiram, por sete meses e sete semanas, eles jantaram no restaurante La Guarida, onde é servida a melhor carne de Havana, beberam na Bodeguita del Medio, frequentada por Hemingway y otros manos borrachos menos famosos, passearam no Parque Lênin e foram cismando um na cisma do outro, em assim-de-assim, num encontro de mãos e olhos, de tetas e braços, de coxas e lábios. Passear na cidade de Havana, perder-se em suas ruas e vielas, conhecer sua arquitetura, arcos árabes, sacadas espanholas, mármores italianos, automóveis antigos, igrejas barrocas, era para Lazinho uma jornada erótica: percorrer a cidade, perder-se entre calles, pátios e cúpulas era como transitar no corpo miúdo de la niña, em sua pele, em seus cheiros-de-fêmea, em sua voz-cadela.

Capa do Livro

Ela, a menina cubanita, gostava das mãos de Lazinho, de misturar seus dedos aos dele, ou ainda de roçar com delicadeza las manos del amante brasileño en su rostro, enquanto olhava para ele con sus ojos escuros bien abiertos, em sinal de quase súplica. Como se ela esperasse uma palavra, um sinal, um gesto dele, que permanecia secreto em seu coração. Eles faziam amor na casa de la niña, em Habana Vieja, onde ela vivia sozinha, com seus cães e pássaros, após a morte do pai e da mãe, também iniciados en la Regla de Ocha, o culto aos santos afrocubanos. Maria Oyá Biniká, a jovem-velha, madona-sin-hijos, nunca se casou, gostava de ser livre como o raio, o vento e a lua. Quando passeava com Lazinho na Plaza Vieja, no Malecón, na Plaza de la Revolución, sob o olhar-tição-oxé de Guevara, ela pedia a Yansã, Nuestra Señora de las Cadenas, que não amasse tanto aquele homem. Que ele partisse, como todos os outros partiram; mas não, ela pedia, com suas contas de um marrom avermelhado, que ele nunca a deixasse; ela quase rugia, leoa com pulseira carmesim, que ele ficasse e a amasse, no sempre-do-para-sempre, no nunca-jamais-acabar, em amor-de-amor. 

 

Uma noite, la-negrita-de-la-regla levou o amante brasileño ao Callejón de Hamel, para assistir aos toques do Obini-Batá, às danças sagradas do Obini-Batá, tambores e chocalhos do Obini-Batá para a deusa de amarelo e branco, aquela-que-tem-o-cabelo-coberto-por-um-turbante-branco, aquela-que-dança-vestida-toda-de-amarelo-e-branco, todas las otras niñas también vestidas de amarelo-e-branco, brincos, leques, espelhos e tiaras nos cabelos para a sagração da deusa negra de amarelo e branco. Foi nessa noite de lua clara, noite de música na pele, que Lazinho pediu a mão de Maria Oyá Biniká. Ele queria estar no-sempre-junto-dela, como se eles fossem as contas vermelhas e marrons misturadas no mesmo cordão. Lazinho queria voltar com la niña negrita para a Bahia-De-Todos-Os-Santos, para a cidade de São Salvador, após anos de ausência, montar uma casa para eles no bairro da Cabula e abrir um consultório médico. Ela queria dizer sim ao vodum-dambirá, ao dono-da-turmalina-negra, seu corpo dizia sim, suas tetas, seus braços e sua boca diziam sim àquele-que-gosta-da-canela-de-velha, àquele-que-cultiva-picão-erva-de-bicho-e-mamona, mas la niña negrita del lukumi disse não ao xapanã, o-dono-do-xarará-e-do-pano-da-costa, o-dançarino-de-opanijé, que ele a deixasse, que ele fosse embora, que ele partisse e não voltasse, no vento-do-vento, na luz do relâmpago. Ela ficaria em sua cidade, em sua casa, com suas rezas e cantos, em sua dor silenciosa de nunca entregar-se. Ela-a-enigmática. Ela-O-Hieróglifo. Mistérios que o senhor não pergunte, nem mesmo ao ifá de Orunmilá. Há coisas que a gente não deve perguntar, nem saber, coisas de mistério, bestas pretas que voam no vento. O senhor esqueça e desentenda o que ouviu. E Lazinho? O mano-das-palhas voltou a Salvador, do mesmo modo que voltam todos os homens solitários, do mesmo modo que voltam todos os homens tristes, com um medo solitário, com um medo triste nos olhos. O senhor é homem viajado, conhecedor-do-mundo, já foi para Havana, Varadero, Cienfuegos, Camaguey, Santiago de Cuba? Então, o senhor precisa ir conhecer o encanto-axé dessas terras de beleza! É por causa da beleza que vale a pena viver nesse mundo, onde a desgraça não marca encontro

 

Claudio Daniel é poeta, escritor e crítico literário. Doutor em Literatura Portuguesa pela USP, foi curador de literatura no Centro Cultural São Paulo, diretor adjunto da Casa das Rosas e colunista da revista CULT. Publicou, entre outros livros, “Cadernos bestiais, breviário da tragédia brasileira” (Lumme Editor, 2018) e “Marabô Obatalá” (Kotter, 2019), ambos de poesia.  “Mojubá” é o seu primeiro romance.

 

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