Cultura

Meg | Ricardo Ramos Filho

Apesar do nome era macho. Demoraram muito para identificar o sexo  correto do filhotinho. Ao descobrirem o erro, já haviam acostumado com o tratamento.  Ficou Meg mesmo. Um gatinho cinzento e branco, comum, sem raça. Brincalhão, curioso,  principalmente curioso. Boa-praça, não se incomodava com a confusão de gênero, atendia  prontamente sem demonstrar mágoa. Dava-se bem com todo mundo, não possuía  inibições. Corajoso, o danadinho, nunca se submeteu ao medo. 

 

Nosso contato inicial foi difícil, prolongou-se por um bom período tal indisposição, custei a aceitar a amizade do bicho. Por ser eu mesmo um animal  complicado. Nunca fui atento às demonstrações de afeto emitidas por seres irracionais.  Arrogância vinda da convicção de que sendo humano seria superior. Não era, custei a  perceber. Embora nunca tenha maltratado o felino, fazia questão de deixar claro sermos  incompatíveis. Eu aqui, ele acolá, distantes. Embora o Meg nunca tenha desistido de mim. 

 

Para ele era incompreensível minha hostilidade. Inteligente, não via cabimento na  existência de um sentimento sem explicação. Nunca me fizera desfeita, tratava-me com  consideração, olhava-me até mesmo com carinho. Afinal, habitávamos sob o mesmo teto,  e para ele todos os viventes da casa eram especiais. Nosso gato. Meu também. 

 

E assim o tempo passou. Volta e meia nos encontrávamos e a sua  presença sem cerimônia muitas vezes me aborrecia. Olhava para mim e miava, os olhos  fixos. Talvez um cumprimento, vontade de obter resposta camarada, ou apenas me  informar sobre sua obsessão por dialogarmos. Atento à minha voz, procurava identificar  nela um tom mais amistoso nas raras respostas obtidas. Em vão. Infeliz com o resultado,  afastava-se cabisbaixo, triste, mas sem perder a dignidade. Jamais um gesto impaciente,  demonstração de raiva, fuga. Em câmera lenta, cônscio de estar sendo observado,  abandonava o ambiente pisando macio e largava-me falando sozinho. Paciente, investiria  novamente em outra ocasião. Quem sabe o ogro bípede estivesse mais bem-humorado. 

 

Já o conheci passado em anos, bastante maduro. Conforme foi se  aproximando dos treze anos fragilizou-se. Os rins deixaram de funcionar a contento,  perdeu peso. Encolheu-se nos cantos dos ambientes. Esquecido, os pelos arrepiados,  friorento. As patinhas sempre geladas.

 

Apiedei-me! 

 

Agora, se me acomodava no sofá para ver televisão ele vinha. Magro.  Pele e osso em forma de Meg. Um salto mais penoso, já não tão ágil, e postava-se ao meu  lado. Com os olhos nublados de velho congelados em meu rosto, saudava-me num gemido  rouco. Colocava uma pata dianteira sobre minha perna. Aguardava para ver se haveria  rejeição. Depois, mais confiante, erguia a outra, subia então por inteiro no meu colo.  Enrolava-se aquecido, conquistador, feliz. E dormia. Com a mão esquecida em sua  cabeça, sentindo os ossinhos salientes, oferecia-lhe agora, anos depois, o carinho buscado  por tanto tempo. Ele ressonava, às vezes deixava escapar um ronronar exultante,  consciente de sua vitória. Nós dois camaradas. Aprendeu a ficar comigo enquanto  escrevo. Em meus braços. 

 

Ontem o Meg morreu. O corpo sem vida no hospital veterinário chocou me profundamente. Ainda o escuto às vezes, tenho a sensação de vê-lo passando da sala  para a cozinha. Dizem ser a dor fantasma de um membro amputado. 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor brasileiro, com livros editados no Brasil e no exterior.  Professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

 

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