Cultura

Lencinhos de papel | Ricardo Ramos Filho

Caminho diariamente em um parque perto de casa. Local modesto, área não muito grande, árvores bonitas. Bom misturar-me com a natureza, verdejar a alma. Poderia fazer uso de algumas pequenas trilhas de terra disponíveis no ambiente. Prefiro, no entanto, utilizar a área cimentada retangular mais exposta ao sol. Gosto de calor. Fico dando voltas, esqueço da vida, penso. Muito. E reparo no entorno. Pessoas, gente também de hábitos presente no mesmo horário. Cumprimento todos quando por mim passam. Não à toa disseram outro dia ser eu do tipo simpático. Importo-me em fazer boa figura desde sempre. Pena não terem comigo o mesmo cuidado. Posso parecer ser resistente a certos dissabores, mas no fundo guardo mágoas com facilidade, apenas as embuto, aquieto-as dentro de mim. Sofro calado. E continuo sorrindo, tentando a todo custo tocar corações transeuntes. Poderia simplificar todo este preâmbulo dizendo apenas: sou tolo. Mas não vim aqui choramingar, perdoem-me a tristeza. Hoje estou meio para baixo, sensível, vai passar.

 

O rádio do celular no ouvido ajuda o tempo a correr. Utilizo as bordas do caminho prolongando-o, perco o número de voltas dadas, o cronômetro preguiçoso buscando registrar sessenta minutos, alvo habitual, eternidade às vezes. Em um dos cantos, quina meio escondida, reparo invariavelmente em um invólucro retangular com lencinhos de papel Kleanex. Está lá esquecido há muitos dias, não houve ainda limpeza que desse conta dele. Inteiro, fechadinho, deve ter caído de um bolso mais curto. E como sou implicante com certas coisas fora de lugar, acho um horror não terem ainda notado aquele objeto solto, acumulando sujeira, impingindo ao espaço ar de desleixo. Olho-o com raiva pelo sentimento despertado. Gostaria de passar por ele sem abalar-me, conseguir deixar o pacotinho derrubado quieto em seu posto, afinal ele não pediu para ser posto ali. Mas cada um com seus defeitos, e os meus são muitos. Ao seu favor o fato de me fazer conjecturar.

 

Por que Kleanex? E logo acrescenta-se ao meu mau humor, rabugices tão comuns, cada vez maiores, o horror ao enxergar palavras em inglês inseridas em nosso vocabulário sem necessidade. Ficariam tão mais simpáticos Limpex, Higienex, e até mesmo Assoarex, já que o objetivo mais popular dos papeizinhos é mesmo assoar narizes. Mas não, o espírito empreendedor, capaz de fabricar aquela pocaria derrubada ali há séculos, preferiu batismo rendido ao capital estrangeiro. Sonho talvez de arrecadar dólares, ou transformar a simpática mercadoria em commodity. A bem da verdade, arriou na palavra um K. O equívoco poderia ser um jeito de fazer ironia, o fabricante escrever errado clean exibiria o empresário rebelde. Se para haver chance de vender mais é necessário usar termos importados, cometo então escorregadela proposital. Duvido! Raciocínio elaborado demais para mentes tão ligadas aos lucros. O K ali colocado revela capacidade de haver faxina diferente. Seria mais que um simples clean, um klean! Ou, simplificando, o elegante propósito de se escrever diferente. Nada mais sofisticado! Um K substituindo um C pegaria bem. Da mesma forma que Jennyffer é bem mais bonito e rebuscado que Jenifer. Não acham?

 

Chega o sujeito estranho. Todo dia, carregando sua tralha, surge caminhando lentamente e posiciona-se em uma das esquinas do quadrilátero de cimento áspero. Estende seu pano encardido, alisa-o com capricho. Ajoelha-se, curva o corpo estendendo os braços para frente naquela posição típica dos muçulmanos. Será que ele é? Fica ali parado um pouco como em oração. Cabelos compridos cor de cenoura, barba cerrada preta. Retira de um saco de papel alguns utensílios. Dois pãezinhos franceses, garrafa plástica de refrigerante com água, um radinho de pilha. Come, bebe, deita-se, cobre-se com uma manta de linho. As mãos enluvadas coçando preguiçosamente a testa calva,  música tocando baixinho.

 

Obviamente sua figura desafia meu senso de ordem. Se um pequeno pacotinho Kleanex atira-me longe do conforto, imaginem aquela figura capaz de chegar, tomar posse do espaço, ficar assim tão à vontade. Talvez por invejar tal capacidade. Embora preferisse ver o espaço preservado, sem sujeira. Manias! E fico horrorizado ao perceber-me incluindo aquele sujeito e seus pertences no escaninho dos detritos. Combato em mim aquele preconceito constatando, com muita tristeza, a vileza do meu primeiro olhar. Há que se estar atento, intolerância é assim mesmo, nos come pelas beiradas. Ele é sim um dejeto para a sociedade. Mas parece ter encontrado forma pacífica de lidar com o destino. Eu deveria ser simpático a ele, olhar aquele tipo de rebeldia com lhaneza. Afinal, defendo justiça social não só para inglês ver. Envergonho-me deste olhar mais imediato, automático, sem reflexão por trás. Reservo um sorriso para lhe oferecer na próxima volta. Pura culpa!

 

O cronômetro avisa que a caminhada terminou. Interrompo as distrações. Amanhã voltarei a implicar com as pessoas e lencinhos de papel. Afinal, eles limpam também cada minuto difícil de gastar. Só não tiram a nódoa de mim mesmo.

 

Setembro/2021

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor brasileiro, com livros editados no Brasil e no exterior.  Professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

 

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