Cultura

Invasora do planeta Amor

Por um bom tempo, ele teve uma namorada alta, bonitona, vistosa como capa de revista. Tão atraente que atuava como promotora, em feiras e eventos. Promotoras são essas moças muito formosas, uniformizadas, que embelezam estandes de empresas, seduzindo o público com sorrisos magnéticos. 

Sua bella comentara casualmente que, nesse trabalho, “a gente ouve cem cantadas por dia, e fica difícil resistir a umas três”.

Ele entendeu que seu romance com ela já estava no bico do corvo. Maktub, como diz o Corão.

De modo que não tinha mais a namorada quando, numa sexta-feira, fim de tarde, o porteiro anunciou pelo interfone a visita improvável de uma grande amiga de sua ex

Lá estava ela, parada na porta. Maria Zara de Moura, a psicóloga junguiana e taróloga. Uma morena de pele clara, olhos verdes, cabelo cacheado, e tão corpulenta e sólida quanto uma lutadora de sumô. Ou um clone vintage da cantora Mama Cass. 

Maria Zara tinha se mudado, há tempos, para Ribeirão Preto, SP. Aparentemente, estava de volta a São Paulo para rever os amigos. Muita consideração da parte dela ter feito essa jornada naquela condição penosa: com a perna direita engessada, da canela até acima do joelho, e apoiada numa bengala metálica de altura regulável.   


    “Vim saber como você anda. Tudo bem?”, ela capengou sala adentro, largou o corpo na poltrona e esticou a perna gessada. “Telefonei pra casa da Giuliana, a mãe dela falou que ela foi passar o fim de semana em Maresias”, já chegou dando notícia de sua ex. 

Ele apresentou uma garrafa de vinho, uma taça, e pediu licença para finalizar um trabalho: 

    “Vai me contando as novidades, enquanto termino de revisar uma crônica pra uma revista. Tenho que mandar por e-mail até as sete da noite. É jogo rápido.”  

Ela começou narrando o acidente de moto, em Ribeirão Preto, por ocasião de um churrasco no sítio de um vereador. 

    “Peguei carona na garupa de um amigo, só pra curtir o passeio. A gente foi comprar um fumo numa vilinha. Na volta pro sítio, um burro atravessou na nossa frente, assim, do nada. Meu amigo desviou, saímos da estrada, levamos o maior tombo. Só eu me fodi”, a unha vermelha riscou o gesso da perna. 

Ele respondia com monossílabos, sem deixar de batucar no teclado do computador. De repente, braços robustos enlaçaram seu tronco, a mão penetrou pela gola da camiseta, alisou os pelos de seu peito, beliscou o mamilo esquerdo, e ele recebeu uma saraivada de beijos, na face, no pescoço, na nuca. Apoiou os braços na mesa, curvou a cabeça e esperou que o ataque amainasse. 

Ela estacou, respirou fundo, retrocedeu para a poltrona.  

   
    “Desculpe, eu me excedi. Acho que bebi depressa demais.”

     “Tudo bem. Olha, por que não vamos jantar? Ainda não almocei. Tem um restaurante bem passável, na rua de trás.”     

Estava tentando ganhar tempo ou querendo livrar-se da visitante? Não sabia. Só que, se tivesse que encarar aquele combate, precisava injetar alguma proteína no sistema.     

Percorreram lentamente os dois quarteirões até o restaurante Don Pedrito, na alameda paralela à avenida. 

Um garçom jovem, de topete e costeletas, puxou a cadeira para a cliente, pendurou sua bengala no espaldar da cadeira contígua. Ele escolheu um filé de pescada, ela contentou-se com uma salada mista. Para seu alívio, Maria Zara soube conduzir bem a conversa, teve a delicadeza de não exumar lembranças da ex. Melhor assim: ele preferia reservar a crônica de suas decepções, derrotas e desastres para uma eventual literatura.

Ouvindo o relato sobre “minha vidinha em Ribeirão”, ele ainda não decidira como agir naquela circunstância se inventaria um compromisso prévio, um frila urgente, e chamaria logo um táxi para despachar a invasora de sua caverna.

Então, o garçom veio ajudar a dama, garboso em seu coletinho preto, sua gravata-borboleta. Estendeu a bengala para ela com ambas as mãos, como se ofertasse um buquê de flores. 

Ela levantou-se com uma careta de desconforto, o rapaz fez uma cara condoída:

  “É difícil, né?”

  “Pode ter certeza”, ela admitiu.

  “Também, com esse corpo”, o palerma disparou à queima-roupa, arrebatando com mérito seu troféu de Idiota do Ano.

Um incêndio lavrou por segundos nos olhos verdes de Maria Zara. Seria muito justo se ela partisse o crânio do calhorda com um golpe certeiro da bengala, mas houve só um silêncio magoado. 

Lá fora, a luminosidade verde do letreiro de néon acentuou a máscara sombria da mulher. Ele quis levantar o astral: 

    “Zara, por acaso você trouxe o seu tarô?”   

    “Aqui na minha bolsa.”

    “Você bem que podia botar cartas pra mim.”

    “Só se for agora. Depois da meia-noite não convém fazer consulta.”     

    “Então não vamos perder tempo, minha pitonisa.”

Acenou para um táxi e orientou o motorista a dar a volta por alguns quarteirões, até deixá-los na porta de seu prédio. No elevador, Maria Zara sacou da bolsa o batom vermelho, retocou a boca frente ao espelho. Ele achava muito gratificante o fato de haver herdado as amigas da ex. Elas continuavam em contato, telefonando, aparecendo de repente em sua porta, movidas pelo mesmo propósito humanitário. Invasoras do planeta Amor. 

Sob o vestido decotado, o busto protuberante de Maria Zara anunciava peitos fantásticos.

 

Fotografia de Luiz Roberto Guedes. Crédito: Akira Nishimura

LRGuedes é poeta, escritor e tradutor. Escreve para gente grande e gente pequena. É autor, entre outros, da novela histórica “O mamaluco voador” (2006), de “Planeta Bicho”, poemas para crianças (2011), do poemário bilíngue, português/italiano “Erosfera” (2017), e dos contos de “Como ser ninguém na cidade grande” (2018).

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