Cultura

Interacção e vitalismo na obra de João Camacho | Eugénio Morais

“Mas a arte enquanto essencialmente espiritual pode ser puramente intuitiva. Deve também ser pensada: ela própria pensa.” Adorno, Teoria Estética.

 

Introdução

 

Enquanto a arte tem estas preocupações epistemológicas, as outras artes, as do artesanato, figuração, populares, populistas, procuram hospedeiros onde deixar os seus vírus. A diferença entre uma e as outras está na capacidade de percutir /1/ ou outro provocando em si uma resposta. Não são passíveis, mas vitais. Vivem ao pedir uma resposta do seu parceiro de viagem.

 

 

Continuadamente, gravura numerada e assinada Benjacante. 1984.

 

Na gravura Continuadamente de 84 procurava—se mostrar que a viagem em si é um fio condutor. Passa por diversos pontos e mantém à sua volta uma paisagem que se deforma consoante as virtudes temporais. Não se foge da realidade, ela é fugidia. Difícil de atrapar, guardar como se fosse um clichê tirado no instante. A obra de arte tem esse condão de marcar um percurso. Ao olhar pela janela vemos a nossa imagem refletida /2/.

 

Auto—retrato, acrílico sobre tela. 2020.

 

Um autorretrato não é mais que a marca desse percurso temporal. As diferentes marcas obtidas podem ser comparadas à posteriori para aferir das transformações, entretanto conseguidas. 

 

A obra segue o seu destino

 

Nada é mais contagiante que a arte. Não tem vacina pois ela se reproduz no nosso interior à procura de um hospedeiro capaz de excitar. Dessa interacção entre a realidade e o sonho (pode ser um pesadelo), dessa realidade/irreal nasce uma obra dentro de nós. A irrealidade objetiva será a nossa imaginação, a perceção que estamos perante um fenómeno que nos ajuda a crescer. Somos essa amálgama que procura o indizível pelas palavras, pelos pensamentos, pela expressão. Quando conseguimos o efeito resultante dá vida ao objeto. O objeto artístico muda para se tornar um poema (poesis), numa escultura ou numa dança. O objeto artístico usa de técnicas aperfeiçoadas para se destacar do meio onde pretende sobreviver. Essa técnica (tekné— conhecimento por intuição da experiência. A techné termina-realiza — o que a natureza não pode levar a cabo. Como o criar, dar vida, parir, dar a conhecer, extrair do fundo e colocar à superfície.) aperfeiçoada pelos.estudos e investigação irá ter como resultado uma obra que pretende ter uma resposta. /3/

 

Minimal IV, acrilico sobre tela, 90 x 90 cm, 2008.

 

Entre a aparente tekné e o tekton, o produtor, está o arquitecto arché de um tekein (Heidegger, Heráclito).

 

Designare

/4/

 

 

BLA, Madeira e leds, 25 x 35 x 6 cm., 2021.

 

A peça de design, pensada, desenhada, produzida, desenvolvida e fabricada. A peça de design, pensada, desenhada, produzida, desenvolvida e fabricada. A peça BLA (Bio Lab Arka) começou por ser um logótipo e logo se assumiu por si própria em objeto. Do logos ao designare (latino), do signum, marca, sinal (A origem do termo design, 2003, Brasil, internet). A luz que vem do seu interior não pode ser apagada sob pena que o seu interior deixe de aparecer e seja apenas um conjunto de linhas e formas. A folha de uma planta que ao mesmo tempo é uma face delineada simplesmente, côncava, convexa, horizontal e vertical.

 

A energia que a atravessa é ao mesmo tempo a energia que nos permite ver. /5/

Banko, madeira, 220 x 100 x 60 cm, 2021.

 

Banko é um trabalho em madeira que pretendeu aproveitar o aspecto original da madeira acabada de serrar a partir do toro em bruto. O respeito pela natureza, aquela que é a nossa mãe, a nossa vida, toma um contexto de sobrevivência. A natureza útil que se despe para estar na casa, pura e simples. /6/ 

 

 

Fire Hause, rede de arame, isoprene e lâmpada, 30 x 40 x 30 cm. 2010.

 

No posto Fire Hause, a casa que arde mais parece uma greta fervente de paixão. Procura uma resposta ou é um silogismo de signos, um entimema (lógica aristotélica)? A casa, o material recortado, a luz artificial que tudo ilumina e aquece. Fruto da paixão. /7/ 

Biblioteka, 250 x 150 cm. 2020.

A Biblioteka estava toda iluminada para ir ao fundo da questão. As obras de fundo sobre o olhar de duas torres sobre uma mesa fotovoltaica. Duas torres quaisquer? Não, duas torres lobadas em forma de limão cortado. Uma fotografia do meu quarto quando vivia em Lisboa. Passou a uma pintura de grandes dimensões (2,5 x 1,5 m). Acrílico e spray numa linguagem minimalista cheia de método expressivo e, no fundo, o conhecimento aparente próximo da fruição, suporta a tecnologia prometida que irá salvar a humanidade do caos futuro das alterações climáticas. Onde duas torres em maqueta são um monumento ao consumo cada vez maior da novidade modernista ou pós-—modernista, como se queira.

 

Concluindo

Finalmente, /8

 

 

Photo—series Artelântida, 21 x 29,7 cm. 2021.

 

Photo Series baseia—se em fotografias tiradas do projecto efémero Artelântida. Um armazém cheio de obras de arte, uma oficina, bar e sala.de espectáculos. É uma imagem altamente contrastada, toda ela calibrada e perfilada, uma palete reduzida onde predominam os azuis em contraste com os vermelhos e ocres. Objectos aparentemente sem conexão, profusão de elementos, linhas de percetiva, ritmos, claro-escuro, quadrados e círculos, retângulos. A fotografia surge, uma máscara de contraste torna a leitura mais demorada. A imagem foi altamente processada para ter esse aspecto. Entre o real e o irreal prefere—se algo que nos deixe fruir longamente o nosso olhar. Ele tem de percorrer os imensos detalhes e texturas, deliciar—se nos azuis viridianos e alargar—se nos brilhos dos primeiros planos. A realidade pode ser coadjuvada pelo tratamento obsessivo o qual não nos dá a ver tudo, apenas uma parte, como.se o poema se fosse desenrolando simultaneamente.

 

Casal de Além, 21.09.21

 

 

Eugénio Morais nasceu em Lisboa, cursou escultura Ar.Co, gravura na Quadrum, Serigrafia António Inverno, Fotografia Carmos Marques, doutorando em arquitectura FAUL, pós—graduação UNL/FCG em Das manifestações artísticas à Critica. Jornalista, professor, formador, arquitecto e designer. Artista plástico, músico e performer multimédia. Dedica—se, actualmente, à arquitectura bioclimática na construção de casas em palha na zona da Serra de Aire e Candeeiros.

 

 

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