Poesia & Conto

Gabigols

Gabriel tinha duas paixões na vida: o Flamengo e Juliana, sua mulher. Nessa ordem.

E apenas duas coisas lhe davam verdadeiramente prazer: assistir aos jogos do Mengão e transar com Juliana. Nessa ordem.

Ele sabia que as duas coisas estavam em patamares diferentes. Na primeira cabia-lhe um papel passivo, de espectador, enquanto na segunda era super ativo, suava a camisa, buscava sempre uma goleada. Também reconhecia que a mecânica das duas atividades era diversa. No gramado, o atacante quer enfiar a bola pra dentro do gol, enquanto na cama era seu atacante que mergulhava de cabeça no gol de Juliana (ô coisa pra ter nome), deixando a(s) bola(s) do lado de fora. Mas, a rigor, não via tanta diferença assim entre seus dois prazeres. 

Gabriel jamais esquecera uma anedota que ouviu com alguns amigos. Um locutor esportivo, narrando pelo rádio um gol, gritou enlouquecido: “O atacante embucetou!”. O pessoal do estúdio tremeu nas bases, receando que a emissora fosse censurada e fechada, e o narrador da partida resolveu consertar: “Senhoras e senhores, o atacante embucetou mas foi no bom sentido da palavra”. Gabriel riu com os outros, mas secretamente concordava com o locutor: no gramado ou na cama, embucetar era afirmar a vida, sem bloqueios, sem pudores descabidos.

 

Ele também recusava para si mesmo o papel passivo de espectador de sofá. Jamais proclamaria isso em voz alta, mas no íntimo acreditava que muitas vitórias do Mengão resultavam de sua estrita observância a certos rituais, tais como reproduzir, diante da TV, as dancinhas dos atletas para comemorar um gol. Daí sua idolatria por Gabriel Barbosa, o Gabigol. Além de ter o seu nome (ele chamava-se Gabriel Menezes), o ritual pós-gol do ídolo da Nação era bem fácil de imitar.

A vida sexual de Gabriel e Juliana acompanhava os altos e baixos do time rubro-negro. Eles casaram no início de 2009 e, depois de alguns meses mornos, viveram mais pro fim do ano uma apoteose erótica, uma goleada de prazer atrás da outra. Os anos seguintes foram relativamente satisfatórios, com algumas fases bem promissoras (a do “cheirinho”, por exemplo). 

Mas nada chegava aos pés da epifania sensual de 2019. O Flamengo vencia no campo e Gabriel e Juliana venciam na cama, ele buscando o gol sem parar, ela estimulando-o o tempo todo como um Jorge Jesus enlouquecido e desnudo que invadisse o gramado do Maraca e empurrasse o time para a frente com mãos e bocas. O Mengão passou 29 partidas sem perder; Juliana passou meses seguidos tendo orgasmos múltiplos. 

Logo no início desse período mágico, Juliana viu, sem entender nada, Gabriel levantar-se da cama depois de uma transa e, nu, mostrar o muque de ambos os braços e balançar a cabeça, assentindo. Tudo isso sem dizer uma palavra. Ela achou que ele havia enlouquecido, mas depois percebeu que o marido tentava simplesmente repetir o ritual de comemoração de um gol do Gabigol. Dando de ombros, ela achou melhor relaxar e gozar – o que, graças ao esquadrão rubro-negro e ao parceiro, conseguia na grande maioria das vezes.

Nas semanas seguintes, os rituais de Gabriel ficaram cada vez mais intrincados. Ele arranjou duas plaquinhas. Na primeira estava escrito “Hoje vai ter gol do Gabigol” e na segunda, “Mais um gol do Gabigol”. Ele levantava a primeira antes de, digamos, entrar em campo, e a segunda depois de cada tento, quer dizer, de cada transa. Em seguida, começava a cerimônia de mostrar os muques e de balançar a cabeça, sempre em silêncio, num ritual que se estendia cada vez mais. Juliana sentia-se abandonada, gostaria de namorar de conchinha após a transa, trocando carinhos com o parceiro, falando em voz baixa e dengosa doces sacanagens em seu ouvido, mas não se queixava. Ela sabia que, apesar da obsessão-compulsão do Gabigol-da-alcova pelo Gabigol-do-campo, sua vida sexual era incomparavelmente mais rica que a das amigas.

O Flamengo vencia no campo e Gabriel e Juliana venciam na cama, ele buscando o gol sem parar, ela estimulando-o o tempo todo como um Jorge Jesus enlouquecido e desnudo que invadisse o gramado do Maraca e empurrasse o time para a frente com mãos e bocas.

Só que, na última rodada do Brasileirão, o Flamengo perdeu de 4 x 0. Nem Gabigol nem os demais portadores do Manto Sagrado fizeram um mísero tento. Gabriel bem que tentou, mas a derrota pesou sobre seus ombros (ô bicho pra ter nome) e não conseguiu transar. “O jeito é esperar as partidas do Mundial de clubes”, pensou, resignado. “Por sorte falta pouco”.

Veio a primeira partida, o Mengão venceu por 3 x 1 – mas não teve gol de Gabigol. “Não faz mal, faço as comemorações dos que marcaram”, pensou. Só que a comemoração de Arrascaeta é insossa, de fazer chorar qualquer coreógrafo que se respeite: ele se limita a correr de um lado pra outro e a sorrir, o que era pouco para um virtuose obsessivo-compulsivo como Gabriel. “Vou de Bruno Henrique”, decidiu ele. E assim, depois da primeira transa da noite de amor, ele tentou saltar sobre uma cadeira, como tantas vezes vira o atleta fazer com objetos delimitadores do campo. Mas Gabriel estava a anos-luz da forma física do melhor jogador da Libertadores, bateu na cadeira, trincou o osso da perna e caiu no chão gemendo.

“Esse não valeu, tenho de arranjar um ritual comemorativo”, pensou ele, semicerrando os olhos de dor. E então lembrou-se de um clássico, o lindo salto complementado por um soco no ar que assinalava cada gol de Pelé. Mas a falta de forma e a dor prejudicaram sua coordenação: Gabriel perdeu o equilíbrio, aterrissou sobre Juliana e acertou-lhe o maxilar com o joelho.

Agora, o Gabigol-da-alcova e a ocasional Jorge Jesus desnuda esperam, desconsolados, o jogo final do Flamengo. Transas estão terminantemente proibidas; além do mais, Gabriel colocou gesso no tornozelo e Juliana usa um protetor de maxilar nada atraente, igual ao do Rafinha. E mais, ambos estão tomando antibióticos e anti-inflamatórios, de maneira que uma eventual comemoração do segundo título mundial rubro-negro será na base da água mineral sem gás. 

Como se não bastasse, correm boatos de que o Gabigol-do-campo vai trocar o Flamengo por algum clube milionário da Europa. Se isso acontecer, o Gabigol-da-alcova receia que acabe a fase áurea do Flamengo e, last but not least, a fase áurea de seu relacionamento com Juliana. Por esse motivo, em meio a 40 milhões de vozes que imploram “Fica, Gabigol”, ouve-se baixinho, bem ao fundo, uma voz com uma súplica muito estranha: “Fica, Gabigol. Minha vida sexual depende de você!”

Carlos Eduardo Matos

Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.

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