Cultura

Eu também

Conheci Marilia Kubota no primeiro encontro do Mulherio das Letras, em João Pessoa. Conheci é modo de dizer, creio que sequer chegamos a conversar. Mas me lembro, sim, que a vi no segundo dia, no quintal da casa onde aconteciam os eventos. Sentada em um banco sob as árvores, parecendo meio desgarrada, ou apenas aguardando, como eu, a filmagem que estava sendo feita sobre esse primeiro encontro de mulheres, inesperadamente muito maior do que, cada uma de nós, havia imaginado.  

E o que sei, agora, é que Marilia Kubota cresceu com ele, como muitas outras mulheres escritoras que, a partir dele, começaram a escrever com mais confiança de que haveria espaço para sua voz. Quase como uma casa. Uma casa toda nossa, parafraseando um pouco Virginia Woolf. Com todas as suas janelas e portas abertas.

Mas voltando à primeira vez que a vi, eu, de maneira inconsciente, natural e espontânea, naquele momento certamente a vi como brasileira de origem japonesa.

E agora, com seu livro na mão, leio essa coletânea de crônicas e conheço um pouco mais de sua vida de brasileira criada também na cultura japonesa. E repito o também, como ela afirma no título do seu livro, por que é esse também que importa, o que fica claríssimo ao ler suas crônicas.

Não tivesse eu a certeza de que somos, todos, resultados do que vivemos, tanto individual quanto coletivamente, essas crônicas delicadas e com dicção própria viriam me provar isso. Marilia conta um pouco sobre sua família (a avó – “que praticava a arte do tanka, uma das formas poéticas japonesas”; o avô – que tocava shakuhachi, a flauta de bambu): uma família que também fazia arte. Conta de sua infância, sua comemoração de um 7 de setembro, fala de sua timidez, dos problemas que enfrentou e como os superou. Conta como quis abandonar o jornalismo para se tornar escritora. Conta um pouco de suas viagens, ligadas à literatura.

É bonito ver como Marilia vai colocando, lado a lado, sua criação japonesa e sua vida brasileira. Suas leituras japonesas e suas leituras brasileiras. Seus grupos japoneses de amigos e seus grupos de amigos brasileiros. E essa afirmação: “Acredito que muitos brasileiros de etnias asiáticas desejam pertencer ao país em quem nasceram.” (Apresentação da autora, página 11).

Seu livro é uma ode a essa diversidade tão sofrida que nos une, nos forma como país, e nos dá a cara que temos. E neste preciso momento em que tudo de bom que temos é negado e desprezado por nosso infame desgoverno, as crônicas de Marilia Kubota chegam para afirmar como nossa diversidade nos enriquece como brasileiros.

EU TAMBÉM SOU BRASILEIRA

Excertos de algumas crônicas extraídas do livro

Marilia Kubota

Depois de mais de 110 anos de imigração, filhos e netos de japoneses ainda são identificados como japoneses ou estrangeiros. Tentam nos definir através de estereótipos: somos quitandeiros ou pasteleiros, inteligentes, bons em matemática, disciplinados, obedientes, falamos a língua japonesa. Os homens são guerreiros (samurai) e praticam artes marciais e as mulheres, gueixas (artista que entretém homens). Um estereótipo ressalta a agressividade masculina e outro, a submissão e hiperssexualização feminina. (Página 16)

Miya continuou frequentando a igreja presbiteriana no Brasil. Praticava a arte do tanka — uma das formas poéticas japonesas. Kunio tocava shakuhachi — a flauta de bambu japonesa. Não tinha muitas habilidades profissionais. Mudou de Birigui para a vizinha Tapiraí e começou a fabricar carvão vegetal. A cidade veio a se tornar importante centro de produção da matéria-prima. A mulher e os filhos o ajudavam. (página 19)

Nesta época, eu já conhecia a versão apócrifa do Hino da Independência: “Japonês tem quatro filhos / Cada um tem outro pai”. Mas não suspeitava que quando um menino puxava meu cabelo na sala de aula e lascava “Japonês tem cara chata / come queijo com barata” extravasava um preconceito que ele pensava dirigido a mim, e era contra nossa etnia. O preconceito veio da ideia de que os asiáticos representavam o “Perigo amarelo” – expressão que teve origem na Alemanha, no século 19, contra a ameaça do despertar econômico do povo chinês. (Página 22)

Eu também sou brasileira

Marília Kubota

106 páginas. Editora Lavra.

Lançamento: novembro de 2020, Brasil

Maria José Silveira

Maria José Silveira, brasileira, escritora e tradutora, tem oito romances publicados e vários prêmios, inclusive o Prêmio Revelação da APCA 2002, por seu primeiro romance, “A Mãe da Mãe de sua Mãe e suas Filhas”. É também autora de 18 livros para jovens e seis para crianças, muitos dos quais premiados e adotados. Participa de várias coletâneas de contos e é autora de peças de teatro já encenadas. Tem livros publicados nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha e Chile, breve na China. Foi sócia fundadora e diretora da Editora Marco Zero. É formada em Comunicação e em Antropologia, mestre em Ciências Políticas. É goiana, e mora há vários anos em São Paulo.”

Marilia Kubota

Marilia Kubota, brasileira, é autora de Velas ao vento (Medusa, 2020), Eu também sou brasileira (Lavra, 2020), Diário da vertigem (Patuá, 2015), micropolis (Lumme, 2014), Esperando as Bárbaras (Blanche, 2012) e organizadora das antologias Um girassol nos teus cabelos – poemas para Marielle Franco (Quintal, 2018),  Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (Casa Verde, 2016) e   Retratos Japoneses no Brasil (Annablume, 2010).  É jornalista e Mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná.

 

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