Cultura

Dona senhora cenoura

 

 

Deixe-me que lhe diga Dona Senhora Cenoura que está uma bela tarde. Tarde meridional! Ora essa! Na piscina ouço as crianças gritar. Gritinhos deliciosos de gente jovem, corações abertos ao ar e à água. E as perninhas tenras percorrem com velocidade o tamanho da piscina. São tão belas e sensíveis que quase parecem remotas, remotas do não vivido. 

Na sexta percorri todas as lojas das ruas velhas da cidade à procura de camisolas vistosas para lhes vestir. Pensei, é assim que elas ficarão bem, melhor, melhor ainda. As cores vivas farão sobressair-lhes os brilhos dos olhos e a tepidez dos lábios quentes, e o contorno carnudo das pequenas orelhas. Consegui arranjar-lhes uma bela colecção delas, laranja tumefacto, azul estonteante, mistura de mar com tempestade de luz, vermelho ardente e uma rosa com fogo, cheia de luminiscência e fragor. Ainda não lhas mostrei, mas sei que vão gostar. 

Dona Senhora Cenoura a tarde está estonteante e a alegria deles dá-me pureza e leveza. É o ascenso da primavera e verão eternos, a ousadia de perder as horas, o orgulho do atavio, o gozo da fúria que não se reprime. Elas merecem o mundo. Devoraram a comida ao almoço, não se esgrimiram, não falaram, não gritaram, comeram. Oh grande elogio às minhas capacidades culinárias! É nestes rebentos que eu sinto a minha ousadia, a minha perícia, a requintada virtude da minha entrega.

 

O amor é uma matéria difícil de explicar a uma cenoura, mas é assim uma espécie de cola, betume, com propriedades coagulantes e coleantes que junta num só ser as boas qualidades universais.

 

Li um dia destes um artigo sobre salas de jantar, que deviam ser leves, com cores largas, em espaços mais largos ainda, espaço para as pessoas se mexerem à vontade. E a mesa não deve estar completamente cheia, para que os olhos possam repousar no branco, no verde, ou no vermelho da toalha, e deleitarem-se naquele vazio, aquele espaço de criação para um pensamento, um sonho, ou, quem sabe, uma garfada distraída. Pareceram-me conselhos de uma clareza sem preconceitos, e desde aí que esta definição de sala de jantar me segue, projecto os pormenores, tenho mesmo que me conter, para não parar de fazer toda e qualquer outra coisa e entregar-me só a isto. Mas não pode ser Dona Senhora Cenoura, a vida de uma zeladora de crianças (mais tarde militante doméstica) é assim. Elas não podem esperar. Os seus olhos são tão suaves ao pedir que o rasto de qualquer outra intenção que não seja servi-las desaparece instantaneamente. Aperta-se-lhes o seu peito contra o nosso, roça-se a nossa cabeça nas suas e vai-se ao encontro dos seus desejos e necessidades. Em abono da verdade, elas são uns animaizinhos muito exigentes. Ainda não cresceram, ainda não têm capacidade própria, penso que com os vegetais não é assim. Para vocês a questão do tamanho é apenas uma questão de forma e não uma questão de capacidade. Mas connosco, Dona Senhora Cenoura, as coisas são bem diferentes, as nossas crias para atingirem um alto desenvolvimento quando adultas, para atingirem as capacidades que ultrapassam as de quaisquer outros seres, são quando pequenas, sensíveis, frágeis e precisam de uma contínua vigilância, atenção e amor, muito amor.

O amor é uma matéria difícil de explicar a uma cenoura, mas é assim uma espécie de cola, betume, com propriedades coagulantes e coleantes que junta num só ser as boas qualidades universais. Mas se o amor não for suficiente as boas qualidades continuam a pairar no universo sem se compactarem num só ser. E a criança cai no abismo, passa a ser um ser deserdado do universo. Por isso o amor é essencial. Como hei-de explicar-lhe?, imagine, Senhora Dona Cenoura, que não tinha suficiente cor de laranja, ou antes cor de cenoura para ser cenoura, pois não seria cenoura, ora aí está. A sua vida seria uma ilusão, porque eventualmente até se sentiria cenoura, mas não o seria. E toda a sua existência caminharia para um fim, para o constatar da sua realidade de cenoura não cenoura. E mesmo que se conseguisse iludir, a sua realidade estaria sempre eivada de desconfiança, de falhas, como as falhas sísmicas, está a perceber?, que, a qualquer momento, se podem abrir, e engolir a terra, embora elas também sejam terra.

Também uma criança sem amor pode ser engolida pela infâmia e desventura, principalmente se perceber que não tem amor, e elas sabem, são de uma inteligência acutilante para essa avaliação. São mesmo mais inteligentes para esta questão, quando são crianças, do que depois de crescerem. Percebem logo, mas mesmo logo, se não lhes estão a dar a dose de amor de que necessitam, e nesse caso procuram-no. Mas há quem não tenha capacidade para lho dar, e aí a vida dessas crianças avoluma-se numa grande bola de neve de dúvidas e transforma-se, ou antes, dá ocasião mais tarde ou mais cedo, a uma avalanche, avalanche que porá fim à sua vida, e quantas vezes à de outros. Porque raramente uma avalanche mata só uma ou duas vítimas. 

Dona Senhora Cenoura, já assistiu a alguma avalanche? Não é que eu tenha assistido, mas é uma coisa terrível de se ver!  A neve, gelada como a água quando está no congelador, começa a desprender-se uma da outra, o frio corta os lábios, cega os olhos, ao desprender-se rebola uma sobre a outra em catatadupas, este rebolar inclemente fá-la rachar, partir, fragmentar-se. Rebola cada vez mais levando tudo à sua frente, os olhos querem ver, mas só vêem branco, porque já estão cegos, os lábios querem gritar, mas já não gritam, e a neve cai-nos em cima do corpo, e primeiro abafa o ser, e depois esmaga-o. É coisa bem triste, porque muito dificilmente se consegue tirar da neve um corpo nela soterrado, e a pobre da pessoa fica ali para todo o sempre, em campa rasa, perdida numa imensidão de branco e gelo de fazer arrepiar a espinha, fica ali sem ninguém, e pior ainda sem um nome. Porque não se pode pôr um letreiro no meio da neve!, porque o perfurar do gelo-neve poderia provocar outra avalanche e levar mais seres para as suas profundezas, abismo sem fundo e sem alma, um sítio realmente muito ermo e desolado para qualquer ser, creio mesmo que para uma cenoura.

Oh Dear Dear Cenoura ser abafado por uma avalanche é mesmo uma das coisas mais tristes que pode acontecer a qualquer ser, mesmo que vegetal, pois um ser vegetal também é ser. O satanismo e a volúpia de tais actos da natureza deixam qualquer coração destroçado, mesmo o de um vegetal. Não importa a urgência do querer, o acto de coragem que é estar na rua com neve, para ela tudo isso é indiferente. Ela mata cruamente, agora pode imaginar o que é uma criança sem amor, é como um velhinho sem tecto, um passarinho que perdeu a patinha, uma carruagem que se despegou das outras e fica para trás obstruindo a via, e sem meios próprios para ir para a frente ou para trás. Estas coisas das relações de amor são complicadas, porque há o problema da medida, é como na cozinha, não se pode pôr de mais, nem de menos. Também o amor não se pode dar nem em excesso nem em déficit, mas eu tenho mão para ambos. 

As camisolas que lhes comprei são lindas. Mas adiante! Vou-lhe contar as técnicas que usei para desinfectar a cozinha. É preciso muito cuidado com os germes, os micróbios, os vírus, as bactérias, os fungos e toda a lista de bicharada invisível que ataca as cozinhas, e depois ainda há a visível que pode ser verdadeiramente incomodativa; as moscas, as formigas, os mosquitos, as melgas, as baratas, as bicha-cadelas e uma infinidade de outros bichos que apesar de pequenos podem ser muito maléficos para a saúde dos humanos e dos vegetais, como deves saber também! A Teodósia é, igualmente, um problema, porque os atrai, guarda-os, transporta-os e acaba por espalhá-los por toda a casa. Os locais mais perigosos são atrás do fogão misturados na gordura e nos restos quase imperceptíveis de comida que caem e ao juntarem-se naquela gordura formam verdadeiros montículos-despojos que servem de ninho a toda esta bicharada endiabrada de que te falei. Aereamente, pode-se assim dizer, mesmo por cima do fogão, há um exaustor. É uma caixa que sorve o ar quente, a humidade libertada dos tachos, das frigideiras que estão ao lume. O exaustor recolhe esta humidade que passa por um filtro, espécie de folha-tapete que absorve parte da sujidade transportada pela humidade. O resto da humidade sai em forma de vapor de água pela chaminé e mistura-se na atmosfera, e com tudo o que anda nela, coisas a mais das vezes imundas, o fumo das fábricas e dos carros, e pior do que tudo o fumo dos aviões, que como se deslocam na atmosfera mais facilmente a conspurcam. Por causa de tudo isto é que temos um buraco no céu, ou antes na cortina que tapa a terra do sol, o ozono, já deve ter ouvido falar, a vida de um vegetal sob temperaturas elevadas não deve ser nada fácil, pois não? Pois é, temos um buraco na cortina de ozono. Quanto à atmosfera não posso fazer nada, na cozinha o problema é a sujidade que fica no filtro do exaustor, esta vai acoplando-se uma à outra até formar um pântano de gordura que começa a escorrer pelos buracos do exaustor, e pode até imperceptívelmente cair nas panelas e nas frigideiras quando elas se encontram a fervilhar sobre o fogão. Claro que se tal acontecer enquanto as subtâncias nelas colocadas estiverem em ebulescência não há problema, porque a alta temperatura paralisa a gordura, ou seja derrete-a e retira-lhe a sujidade, tornando-a numa coisa de somenos importância, ou seja não ofensiva para a saúde pública. Mas imagine, Dona Senhora Cenoura, que tal sucede, depois de já ter passado o momento da ebulescência, quando os repastos já estão em repouso, não só para que os sabores se combinem entre si, mas porque os alimentos não devem ser ingeridos muito quentes porque provocam feridas nas paredes do estômago e dos intestinos, ou podem ainda dilatá-los, correndo estes orgãos o risco de um dia não caberem dentro do corpo, se uma gota do pântano de gordura escorrer pelas pequenas aberturas do exaustor e cair em cima dos repastos, quando eles repousam, as consequências serão eminentemente desagradáveis. Desinterias, gastrites, perturbações oculares, derrapagens auditivas, cefaleias em catadupa e pior do que tudo vómitos de deitar para fora o corpo de uma só vez. Parece que todo o organismo se vira ao contrário. E para além do desespero e dor que tal sensação provoca, o pior é que depois mesmo de passar, a pessoa ainda não fica livre de perigo. Outras consequências de carácter mais definitivo podem surgir anos depois, quando a pessoa já praticamente esqueceu tal ocorrência, porque, Dona Senhora Cenoura, a memória é muito selectiva, o que no caso de alguns seres humanos é mesmo uma benção. Porque as ocorrências são de tal modo desagradáveis, que se a memória não as eliminasse a vida seria para tais seres um vale de lágrimas. São os tumores da cavidade bucal e cavidade intestinal que podem ocorrer depois, anos, mesmo, depois, da ingestão da gordura proveniente do pântano de gordura que se acumula nos filtros dos exaustores.

O exaustor tem que se abrir com alguma regularidade, essa regularidade depende do aparelho em si, dimensão, forma, sistema de incrustação na parede e sistema de extracção do ar da chaminé, ou saída de ares e fumos a que está ligado. A avaliação da regularidade temporal com que se deve abrir o exaustor terá que ter também em conta o género de filtro deste. A abertura consiste em retirar os quatro parafusos que seguram nos cantos a tampa. Deve então retirar-se o filtro, com luvas, e metê-lo num saco de plástico, prontamente fechado após esta acção. O interior da caixa, incluindo a abertura de ligação, deve ser desinfectado com álcool, depois com água oxigenada, e por fim com água e sabão azul, para evitar qualquer perigo de inflamação consecutiva. O calor poderia inflamar os restos de álcool e lançar fogo ao fogão, aparelho que se for a gás, pode mesmo explodir, e fazer explodir a habitação por inteiro.

O sabão azul poderoso germicida como é, eliminará qualquer resquício de álcool. Antes ainda de meter um novo filtro, seca-se com papel, primeiro, e depois com um pano, para que não permaneça nem fímbria de humidade, porque se a caixa-exaustor se tornar bafienta vai provocar um odor desagradável em toda a cozinha, já para não falar nos alimentos. E estar a comer uma batata que deve saber a batata e sabe a bafio é uma coisa absolutamente intolerável! É um erro de palmatória, cara Dona Senhora Cenoura.

A tampa do exaustor, que é a grelha com buraquinhos através da qual passa o vapor de água-humidade, deve deixar-se de molho algumas horas em detergente misturado com lexívia para que toda a gordura seja exumada. O recipiente com tal conteúdo não deve ser aspirado, porque tal aspiração é maléfica. Os parafusos serão limpos em soda cáustica. Após o que tudo voltará ao seu local de origem, num gozo sem par da ordem primeva dos objectos, cada um no seu lugar e nas suas mais perfeitas condições.

O fogão voará, parece que voará Senhora Dona Cenoura. Porque o ar por cima dele, entre ele e o exaustor será um ar triunfal, plenamente limpo, sem pesadas moléculas de gordura. E as refeições assim cozinhadas neste estado completo de limpeza serão mais leves e arquitectonicamente primorosas. Porque não há nada como a correcção exemplar em torno do fogão para guiar uma mão sabedora como a minha para o acerto do tempero, a diabrura da criação – um novo ingrediente que no último minuto surge como uma ideia luminosa e recriará um prato. Não sei mesmo se criará uma nova iguaria, um  trazer à grande, enorme, colossal cozinha/enciclopédia do universo mais uma alínea, uma entrada, um divulgar de ligações até aí não pensadas. 

Quando meti a sobremesa no frigorífico, sabia, digo-lhe, Dona Senhora Cenoura, digo-lho com orgulho, sabia que criara uma nova sobremesa! Fechei a porta do frigorífico, sentei-me no banco junto à mesa, satisfeita. A satisfação não é no entanto um fermento! 

 

A Senhora Dona Cenoura deixe-me que lhe diga que o meu coração está pesaroso! 

 

No dia 7 de Janeiro de 1999 a penumbra desceu sobre a minha cozinha. 

Hoje a penumbra desceu sobre a minha cozinha, entrou lenta e comedidamente por debaixo da porta e arrastou à sua frente um peso e uma cor negra que me absorveu durante longos momentos o olhar.

Nesta cativa área do meu encanto, um super-canto de negro entrou e fechou as memórias mais belas nas mãos, nas minhas mãos que se crisparam, se crisparam contra aquele acontecimento inédito, invulgar, que jamais acontecera, mesmo mais, que jamais me acontecera, mesmo mais, que jamais eu supusera poder-me acontecer. E desconheço se já aconteceu a alguém!, em alguma parte do mundo, do conhecido e do desconhecido, se em alguma parte dos mundos, alguém, ou alguma coisa, presenciou um acontecimento tal, ver a sua cozinha invadida pela penumbra. Não uma penumbra que desce avassaladora sobre a cabeça dos habitantes, ou dos coo-habitantes nessa altura, talvez, por acaso, presentes nessa cozinha. Não, antes uma penumbra que insidiosa e subreptícia entra por debaixo da porta, e do solo, sobe até ao tecto, impregnando da sua negritude tudo e todos os que estão na cozinha.

A Senhora Dona Cenoura deixe-me que lhe diga que o meu coração está pesaroso! 

Não sei como contrariar tal invasão!, o meu coração divide-se entre a revolta contra a invasão e uma listagem que fazia mentalmente das coisas que tinha que fazer durante o mês seguinte, eram muitas, muitas pequenas coisas que me embaraçavam, que me embaraçam, que me envergonham por ainda não as ter feito. É vital não deixar arrastar o pensamento para esta voragem do que tem que ser feito, mas também é vital cumprirmos as funções que o nosso pensamento nos predestinou. 

O nosso destino é um belo bolo de natas coberto por frescos e carnudos morangos silvestres, comprados nessa mesma manhã no melhor mercado da cidade. E o bolo é ainda mais vistoso, mais saboroso, arrebatador, quando por esses morangos conseguimos um preço muito bom, parece que encontrámos o tesouro do Barba Ruiva, e sem ter perdido muito tempo em conversa fiada com o vendedor. Um destino assim cumprido na verdade da beleza e da honra é um destino a que toda a fatalidade foi retirada. É um destino que nos beija todas as manhãs com olhos meigos e uma voz de música angelical. É um destino de caracois de anjos entrelaçados com belas fitas rosas e pequenos ramos de azevinho carmim, e não essa insipidez e brutalidade de um destino fatal que tantas mulheres e homens se dão, apenas porque não conseguem cumprir as funções que o pensamento lhes pede. E foi no recolhimento da listagem que fazia em pensamento, foi quando pensava uma a uma nas coisas que tenho para fazer no próximo mês que fui tocada por aquela penumbra, que logo após me ter tocado foi colocar-se junto a uma taça de limões que eu tinha pousado em cima do fogão. Enleou-os perniciosa. Os simplicissimus limões assim eivados de sombra entraram em liquefação, liquefação corrosiva que esburacou a taça de limoges onde antes adormecidos ressonavam em coro com a Teodósia que continuava a dormir num canto junto ao frigorífico. 

Teodósia é a gata, já era tempo, Dona Senhora Cenoura, de teres fixado o nome dela. No branco imaculado do fogão começou a insinuar-se uma cor verde, flocos de neve verde e uma geada seca nos mosaicos do chão deixava de ser rasto para ser um verdadeiro trilho. Os limões tinham desaparecido sem fazer check-in, sem controlo de passaporte, sem mesmo sequer terem passado pela porta de embarque. A penumbra supersónica reclinava-se nos armários, nas cadeiras da mesa. 

No caixote do lixo fez um redemoinho que, por momentos, temi que ele se voltasse e entornasse o conteúdo. Vou chamar um táxi e vou-me embora, pensei. Como o poderia fazer, abandonar o posto que me definia, esquecer a única imagem de mim que podia ser válida, a mais forte, partir de trás para a frente? Não, esta viagem não tinha direcção!

Nos cinemas há saída de emergência, podia ir até ao quarto e voltar depois quando a penumbra, quando a penumbra desnudada se tornasse invisível. Se calhar ela estivera sempre ali na minha cozinha milimetricamente bela, a esperar que eu me sentasse durante longos momentos para a admirar. A satisfação pela minha obra traía-me, e a claridade, como uma cama de criança, já não me servia, eu já não cabia nela, eram os pés que passavam para lá do colchão, e até os ombros roçavam nas abas de protecção! A mesa recebia em duche os cristais de neve verde. Os cristais de neve verde densificavam-se um pouco por toda a cozinha. Onde se via melhor era nos panos brancos e nas toalhas perto das pias, uns pontos erverdeados pousavam ao de leve e ficavam, porque o vento da penumbra em trabalho contínuo não arrancava estes pontos verdes, ao invés, trazia outros, e mais outros, e a parte central destes pontos verdes ou, melhor, amarelos, pegajosos, algo urticantes, pairavam e permaneciam. 

Quero tomar um duche, lavar os olhos para sentir mais claro, desinfectar as mãos, escovar os cabelos, um por um, desinfestar os dedos dos pés deste ranho viscoso, sentir a água quente, muito quente, uma água bem dormida e com o pequeno almoço tomado que me reabilite e afaste a memória desta penumbra. 

Esta cozinha devia ter mais um lavabo, um lavabo robotizado que me seguisse continuamente, onde eu, sem o mínimo esforço, ou, antes sem o mínimo de deslocação pudesse passar as mãos por água, claro que com uma toalha incorporada para não pingar o chão. Ar condicionado, bastava de três estrelas, que refizesse em permanência o oxigénio, o ar que vem da varanda não chega, parece, às vezes, entrar, e quando entra dá mostras de um certo esgotamento nervoso, queixoso, reclamante, instala-se à mesa, sem a ter reservado e obriga-me a fechar a varanda, não gosto de hóspedes não convidados!, a não ser que sejam crianças, Dona Senhora Cenoura, crianças em caravana que irrompam por aqui a pedir boleia, que é como quem diz, algo para beber ou para comer.

Refiro-me àquelas que não gostam de campismo selvagem, que sabem apreciar um prato bem espelhado, um copo cristalino e um bolo esme-rilado pela mais competente das competências culinárias. Nunca se deve deixar entrar na cozinha uma criança que chegou, acabou de chegar. Primeiro deve passar pela casa de banho, depois a cozinha ser-lhe-á franqueada. Os que gostam de dormir ao ar livre que se livrem de entrar aqui!, que fiquem a ruminar pelos campos, a lambuzar-se nas bostas das vacas que enxameiam cada centrímetro quadrado desses sítios, ditos aprazíveis, que se emaranhem nas cordas, tropecem nas estacas, queimem-se nas fogueiras, magoem-se com os canivetes suiços, fiquem com a comida espalhada pelo chão quando a mesa desdobrável ceder à porcaria dos tupperwares imundos, onde os restos de gordura nunca desaparecem completamente, sufoquem nos sacos camas cujos fechos têm tendência para se estragar, tropecem na lanterna de bolso, soçobrem ao peso do fogão de campismo, mijem no saco cama porque está demasiado frio para saírem e irem mijar no campo, ou mesmo nas instalações sanitárias impotáveis, percam o reboque na estrada, e sobretudo que alguém os proíba de nadar em piscinas públicas, boiar em rios que não são púbicos, chapinhar em poças de água límpida, mergulhar no mar que está longe das cidades e das fábricas, bronzear-se em areia que não tenha alcatrão. E os proíbam, sem qualquer possibilidade de perdão de afogar-se na natureza que os despreza!

As crianças que não sofrem de insolação mental são muito benvindas à minha cozinha. E terei todo o prazer de lhes lavar o fato de banho em soflan para que não perca as cores, escovar-lhes a touca de banho e pô-la a secar na varanda para que não ganhe fungos, desembaciar-lhes os pequenos e queridos óculos de mergulho, aspirar-lhe os respiradores, acondicionar-lhes convenientemente as barbatanas, pôr-lhes nas mochilas uma bóia sobressalente, dobrar-lhes com todo o carinho e ternura a toalha, Oh Dona Senhora Cenoura, há algo mais belo que a toalha de praia de uma criança, amarela com patinhos risonhos de mãos dadas a olharem ao fundo, o mar azul? Não há!

Saiba, Dona Senhora Cenoura, que era capaz de remover mundos e fundos para evitar que uma destas criaturinhas, portadoras de tais toalhas salvíficas, sentisse o mínimo dos sofrimentos, uma leve picada na unha do dedo mindinho, uma ligeira queimadura solar, uma fífia ferida provocada nas perninhas pela pá, o ancinho, ou o balde com que brincam.

Como são Wunderbar quando constroem castelos de areia!, as mãos brancas ajeitando os grãos de areia, como se deslocam irradiantemente graciosas com os pequenos baldes azuis com esmerados e bochechudos polvos desenhados, os baldes cheios de água parecem que a cada momento os vão fazer soçobrar sob os seus pesos, mas não, enérgicas, chegam ao pé do castelo de areia que estão a construir e prosseguem o seu erigir.

As ervilhas de cheiro acabam de tombar sobre a gata Teodósia, nem sei porque lhe pus este nome, melhor fizera se lhe tivesse chamado Ardósia, é cinzenta e fria como a lousa que eu tinha na escola.

Esta penumbra transforma-me, passei de me sentir uma anémona repugnante a cheirar ao açafrão que usei durante a hora do almoço, para fazer o arroz, agora é a espinal medula de um crisântemo que sinto a esganar-me a garganta, um cheiro a caules viscosos enfraquece-me os dedos e a língua, bolota encalhada numa terra enlameada falha-me, faz-me falhar a voz. Por debaixo dos outrora pés, um musgo cresce ardiloso e purulento. Onde está a frescura do musgo que julguei conhecer? A bolota que me ocupa a boca, afinal é uma pinha, e a minha cabeça é o fragmento do tronco de um carvalho multissecular, os bordos das minhas orelhas são ásperos. Tenho casca, a minha cozinha é penumbra, nem um malmequer branco iridiscente eu conseguiria ver. 

Oh, Dona Senhora Cenoura, não me estais a punir por falar convosco, por, sem autorização, me dirigir ao reino vegetal. Ouça as minhas preces, devolva-me o espaço onde é tão bem tratada! 

Não foi com toda a delicadeza que sempre lhe toquei, não foi com esmerada educação que a transformei nos mais deliciosos pratos, não foi com palavras de enlevo que os meus comensais a homenagearam?

Diminuí de tamanho, perdi a viscosidade da anémona, a rugosidade da casca, sou um bicho dentro de um melão. A penumbra fez da minha cozinha um melão e de mim um ser bichoso que o mina.

Obrigado, Dona Senhora Cenoura, por me alumiares o caminho, tenho que ir comendo o melão, comendo o melão e sair dentro dele, e aí a penumbra desarvora da cozinha, levantar-se-á, ausentar-se-á para nunca mais voltar. Obrigada, Dona Senhora Cenoura, por me permitires ser um ser bichoso dentro de um melão ao invés de uma petúnia ou de uma violeta, que essas fenecem em pouco tempo, e escafedem-se malcheirosas e são iguais a todas as outras que compramos anos após anos para enfeitarem as nossas cozinhas.

Obrigada, Dona Senhora Cenoura, obrigada à tua cor predição, o tempo insolúvel que corre sobre o mundo.

À tua forma dedico os chuviscos airosos de uma boa mijadela. 

Nunca mais entras na minha cozinha: dos outros vegetais será o meu reino.

 

 

Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer

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