Cultura

Devolvidos | Nuno Gonçalves

O Marcelo voltava sempre. Voltava sorridente, altivo, quase orgulhoso. Sabia que desperdiçara a oportunidade que poderia ter sido um de nós, mas não se importava. E nós também não. Adorávamos sentar-nos de roda dele, ouvindo que esquemas mirabolantes arranjara daquela vez para que o devolvessem. 

 

— Mal entrei no carro da velha vi logo que tinha companhia. Um buldogue, com bochechas quase tão grandes como as do Bruninho e a babar-se ainda mais do que o Chico quando perdeu os dentes da frente. “Este é o Pulga”, disse a velha. “É um dos teus novos irmãos mais velhos. Vais ter cinco novos irmãos! Vais conhecê-los todos chegando a casa.” Ora, imaginem, nem pai nem mãe tinha e agora, de repente, cinco irmãos! Todos cães. Todos babados, malcheirosos, a lamberem-me, alguns a rosnar, outros a tentar morder. Então pensei: se me quero integrar com os meus irmãos, tenho de me portar como eles. Era ver-me de quatro patas, a cheirar os chinelos da velha, lutar pelos biscoitos com os meus manos, correr atrás da bola.

 

Nós ríamo-nos, porque ele acompanhava a história com grande dramatismo. Fazia gestos, vozes, poses. Sabia conquistar uma audiência e adorava sentir-se no calor dos holofotes. 

 

Claro que reconhecíamos alguns exageros, mentiras até. Conhecíamos bem o Marcelo. Um excelente contador de histórias, dado a algumas liberdades com a verdade. 

 

— À noite, comecei a uivar. Fui para a janela e uivei o mais alto que consegui. Os meus manos juntaram-se a mim. Depois, todos os cães da vizinhança se juntaram ao coro. Acordámos o bairro inteiro. Até os bombeiros foram chamados! Um banzé que não imaginam.

 

E imitava o som da sirene, enquanto corria à nossa volta. 

 

Tinha dez anos. Não era o mais velho de nós, mas quando estava presente, reconhecíamos nele o nosso líder. Eu, por exemplo, já tinha doze anos. Sempre me faltou voz, pulso ou determinação apesar de me estar a aproximar da adolescência e de já se adivinhar a sombra de um bigode. Limitava-me a seguir o comando do Marcelo como todos os outros. 

 

A sua presença contagiava-nos de energia. Desenvolvia os planos mais rebuscados para arreliar as Irmãs, roubar comida da despensa ou até dar umas escapadas noturnas, sem destino, sentindo apenas a liberdade do céu estrelado, despidos das paredes que nos alojavam.

Èramos, invariavelmente, castigados. Mas nunca hesitámos em acompanhá-lo no plano mirabolante que se seguisse. 

 

Sabíamos que ele havia de ser escolhido outra vez. Era sempre. Era um rapaz atraente, loiro, olhos claros, cabelo despenteado, sorriso fácil e conseguia ser encantador quando queria. Além disso, as Irmãs tentavam sempre despachá-lo. Justificam todas as vezes que ele fora devolvido com um problema qualquer na família que o recebera e impingiam-no sempre que podiam. Julgavam (e tinham razão) que nos controlariam com muito mais tranquilidade se nos tirassem o nosso líder.

 

Ele lá ia. Com outros pais, noutro carro. E voltava.

 

— Então, a mulher tinha uma enorme coleção de flores. Como se tivesse um jardim na varanda. Eram jarros e jarrinhas, vasos e vasarões, de todas as cores e feitios, todos repletos de flores e mais flores. Os jardins suspensos da Babilónia nos subúrbios.

 

— Que flores eram, Marcelo?

 

— Sei lá que flores! Olha, Gerânios e Margaridas. Pode ser? Então, as flores começaram a morrer depois de eu ter chegado a casa. Murchavam, perdiam a cor. E a mulher ia pesquisar porquê na internet, depois chamou um botânico, ou lá o que é, comprou fertilizantes, vitaminas. Vejam lá, vitaminas para as plantas! Algum de vocês já tomou vitaminas? Aí está! Há dias que nem uma côdea e aquelas flores estavam encharcadas em vitaminas. E vocês aí, a definhar. E, dizia eu, as flores murchavam e ela percebeu o que se estava a passar. “Ciúmes!”, disse um dia virada ao marido, “as flores têm ciúmes do Marcelo!”. Então, proibiram-me de lhes tocar, de me aproximar, de as cheirar ou de olhar para elas. Não resultou. Continuavam a morrer. Secas e cinzentas. Até que uma noite descobriram. Era eu que urinava nos vasos sempre que podia. E lá me trouxeram de volta!

 

O que nos rimos. Depois, parámos de nos rir. O Marcelo desperdiçara mais uma família. Uma que poderia ter sido para um de nós. Um qualquer, um que até poderia gostar de cheirar as flores. Os Gerânios e as Margaridas. 

 

Não ficávamos zangados com ele. Ficávamos apenas calados uns minutos, a imaginar como teria sido se tivéssemos sido nós no seu lugar. Outros de nós também já foram devolvidos, mas não contavam aventuras extraordinárias quando voltavam. Chegavam murchos, como as tais flores e demoravam muitos dias até voltarem a mostrar um sorriso. Até eu já fui devolvido. Mas não falo sobre isso.

 

Agora que o Marcelo já não está entre nós, andamos todos apáticos para deleite das Irmãs. Estamos mesmo convencidos que ele não está entre nós. Que morreu. Faleceu. Ou antes, foi morto, assassinado e enterrado num bosque. Ou atirado ao mar. Ou guardado num frigorífico numa cave escura.

 

A sua nova família veio buscá-lo há dois meses e ainda não tivemos notícias do Marcelo. Nunca antes estivera fora mais do que duas semanas. Já lá vão dois meses, o que dá oito semanas!

 

E não é só isso. 

 

Os novos pais eram estranhos. Ele era muito alto, muito gordo, careca, com uma barba enorme que lhe devia chegar ao umbigo. Tinha uns brincos enormes, nas orelhas e no nariz. No nariz! Ela não destoava. Magra, cabelo rapado só de um lado, vestida toda de preto, mostrando os braços todos tatuados. Usava uma pulseira a imitar uma cobra no tornozelo. Uma pulseira, no tornozelo! A imitar uma cobra!

 

E entregaram o Marcelo a estes dois. Levaram-no numa carripana a cair de podre, com música altíssima. Não era bem música. Uns grunhidos horríveis com que ainda temos pesadelos por estas noites.

 

Entregaram o Marcelo a um casal de bruxos ou satânicos ou lá o que eram. Temos a certeza de que ele tentou armar uma confusão das dele e os pais mataram-no à facada e enterraram-no algures. Ou deram-no a comer a uma jiboia de estimação que guardam no sótão. 

 

Tentámos falar com a Madre e ela nem nos quis ouvir. Estão todas tão contentes por ele já cá não estar que nem querem saber se ele está morto. Alguém devia procurá-lo, nem que fosse para lhe dar um enterro Católico. Talvez o corpo dele esteja a sangrar lentamente, no meio da mata, rodeado por velas, para homenagear Belzebu. E Deus não o vai aceitar lá em cima nesses preparos.

 

Decidimos rezar. Sentámo-nos em roda e rezámos, pedindo a Deus que tenha misericórdia do Marcelo e que não o envie para o Inferno porque, no fundo, ele era bom rapaz. Tomava sempre conta dos mais novos. Nunca atacava os fracos e era capaz de assumir uma asneira para ser castigado em vez de um de nós. 

 

Enquanto rezámos, parece-nos ouvir outra vez a mesma música horrível. Os grunhidos horripilantes que o levaram, voltavam para nos assombrar. 

 

— É a carrinha! São eles! Os bruxos! E trazem o Marcelo! — O Filipe gritava da janela.

 

— Trazem-no vivo? Ou enrolado num tapete?

 

— Está vivo! Olhem!

 

Quando o vimos, ficámos chocados. O que fizeram ao nosso Marcelo? Estava quase irreconhecível. Até o andar era diferente. Só lhe podem ter feito uma lavagem cerebral ou então algum tipo de possessão demoníaca.

 

Tem o cabelo muito bem cortado, com uma risca e tudo. Em vez da t-shirt suja e dos calções coçados, traz uma camisa bem passada e umas calças de tecido. E óculos! O Marcelo tem óculos!

 

Ouvimos o pai dizer-lhe:

 

— Vai lá ter com os teus amigos. Ficamos cá uma meia hora.

 

Ele veio a correr, como vinha antes. Ou melhor, não era bem como antes. Menos atabalhoado, com passadas certinhas como o metrónomo da Irmã Ascensão. Colocámo-nos em posição, uma meia-lua, para o podermos ouvir, como sempre fizéramos. E ele explicou-nos.

 

Ele sentou-se e explicou-nos. Aquilo que todos já sabíamos.

 

— Amigos, irmãos… Vocês não imaginam… Não. Acho que imaginam, mas não sabem… Como é bom ser abraçado antes de ir dormir. Ter o lençol bem aconchegado ao pescoço. Ter uma mãe a cozinhar para mim. Descubro novas comidas favoritas todas as semanas! O meu pai ensina-me a tocar guitarra. Sei fazer este acorde. Assim, com os dedos, e depois passo para este acorde e já dá para acompanhar imensas canções! E brincam comigo. Levam-me ao parque. Sentam-se no chão para montar puzzles. Lêem-me um bocadinho de uma história todas as noites. E, quando faço asneiras, também se zangam comigo. Mas perdoam-me e abraçam-me e dizem que me amam. E eu tento fazer menos asneiras. Tento ajudar. Arrumar, limpar. Até estou a aprender a cozinhar. Vocês não imaginam… Imaginam, mas não sabem. Tenho uma família. 

 

Abraçou-nos um a um, a chorar. Disse que todos haveríamos de arranjar uma família também. E que, se não arranjássemos, seria ele a nossa família e voltaria para nos levar com ele mais a sua guitarra. 

 

Partiu e não mais o vimos.

 

 

Nuno Gonçalves devora livros desde há 30 anos. O prazer da leitura fez crescer a vontade de um dia ver as suas próprias palavras no papel, encadernadas, à espera de um leitor. O caminho escolhido foi outro e a Medicina atraiu-o mais do que as letras. Manteve a ligação à literatura, retomando os hábitos de leitura e dinamizando um blogue de crítica literária durante alguns anos. Inicia agora, com pequenos passos, uma nova caminhada na escrita de ficção.

 

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