Cultura

Da cultura humanista ao excesso hipermoderno (das transparências de Herder à densidade hipermoderna) | Luís Filipe Sarmento

Pintura de Anton Graff, “Herder” (1785)

 

A grande reflexão de Herder (1744-1803) sustenta-se na ideia de uma História como lugar exclusivo do homem, do seu exercício enquanto ser interventor no espírito do lugar e comunicador participativo na pluralidade experiencial da existência. Ao reinterpretar a ideia de progresso humano, não o entende como algo isolado, mas em harmonia com a alma da natureza da qual é parte integrante. Só através de um povo é que o homem pode participar da humanidade. A História do homem não só é parte plena da História do Cosmos, como ele é o seu verdadeiro protagonista perante o qual tudo é um desenvolvimento constante num desafio permanente. E um desses desafios foi a linguagem que veio acelerar o processo histórico da humanidade. Ao registar a sua vida acrescenta-lhe progresso à história que vem das origens, evoluindo nos dois aspectos: enquanto indivíduo e enquanto membro de uma comunidade, de uma cultura, de um lugar em harmonia com outros. A nação surge como palco central de um povo orgânico marcado indelevelmente pela unidade da língua e da cultura. É a partir desta observação que Herder vai defender que a humanidade não é um corpus homogéneo, mas um conjunto de culturas, com os seus valores e processos lógicos, que devem ser entendidas no seio das suas próprias balizas temporais e não com o olhar posterior de quem observa os acasos históricos e os seus protagonistas à distância: «As forças vivas do homem são as molas da história humana, e como o homem tem a sua origem a partir de, e de dentro de uma raça, a sua formação, educação e modo de pensar são desde logo genéticos. Daí aqueles caracteres nacionais específicos que, profundamente gravados nos povos mais antigos, se manifestam inequivocamente em todas as suas realizações sobre a Terra»1

 

 

 

É, assim, que Herder vai dar, no seio da sua obra, uma importância fundamental ao papel das nações, observando que cada uma delas tem um espírito próprio, o espírito do povo (volksgeist) que se diferencia entre si. A alma criadora e criativa que faz parte de cada povo e que se manifesta nas suas criações, na sua língua, na sua poesia, na sua história, no seu processo organizacional. Para Herder, os povos não são iguais, contrariando, assim, a opinião generalizada do Iluminismo. A nação tem, assim, um espírito próprio que evolui na sua essência. Da mesma maneira que o indivíduo é dotado de uma interioridade, também a nação é dotada de um espírito, o espírito do lugar, de uma imanência.

  

Qual é o fim da História? Herder defende que é o humanismo. O humanismo como cultura, a realização do homem pleno. A concepção que tem da História é optimista, acreditando que todas as nações, sem excepção, têm o centro da sua felicidade em si própria e não fora de si como o faz crer as religiões e, particularmente, a evangelização da cultura ocidental. O homem deve superar-se a si mesmo numa união e consonância plenas com a natureza porque dela faz parte e não utilizando-a como um instrumento, destruindo-a.

 

As constituições e as religiões baseiam-se nas línguas, no elo entre os homens, na concatenação da vida orgânica. 

 

Pensar o tempo é olhar para os outros como contributos valiosos para cada cultura, moldando comportamentos no respeito pelas diferenças. Nenhum homem pode separar-se do seu contexto, nesse sentido a linguagem é fundamental porque não se pode pensar sem ela e só através dela se pode transmitir ideias. Para Herder, a linguagem e a razão são inseparáveis, ou melhor, as linguagens múltiplas como veículo de transmissão de ideias, uma vez que não há uma só, mas sim várias, as dos gritos, as dos gestos, as dos sinais, as da metáfora, e estas são uma componente do espírito de um povo, de uma nação, de uma cultura. Herder defende uma filosofia da história que tem por objectivo observar nas suas potencialidades um sentido comum. A semelhança do homem encontra-se na sua capacidade de produzir diferenças. Assim, cada povo tem uma ideia específica da sua arte, um gosto particular incomparável, um afecto distinto que depende de cada momento histórico e dos seus valores culturais. O homem é o seu tempo em cada região e onde a arte e a literatura são ferramentas indispensáveis para conhecer o momento histórico e descortinar como seriam os povos em cada época da História. Por isso, as culturas dos povos devem ser estudadas a partir de dentro, examinados os seus valores como epicentro desse mesmo pensamento histórico e cultural.

 

Com efeito, há um fim da natureza que rege os fenómenos da História, para a qual deverá haver uma lei fundamental que a sintetiza e que nos leve a compreender o seu sentido, o sentido da História, a filosofia da História, o que nos permite ordenar os acontecimentos, tornando-os acessíveis à nossa compreensão; cada época tem uma capacidade racional de compreender a história. A este projecto, Herder, como Kant, chama-lhe Providência. No grande palco da História tudo pode acontecer. No estudo da História temos de compreender as circunstâncias de acordo com as necessidades do lugar, com a sua geografia. É nesta consciência da História, em que as diversidades sustentam a ideia de nação, que o homem constata que há diferenças de culturas e valores entre povos e raças. 

 

Herder vai reinterpretar a ideia de progresso. Não o entende como algo isolado, mas como participante da própria natureza. Se para os asiáticos há uma forte ideia de tradição cuja acção, paradoxalmente, não se afasta em nenhum momento dos valores tradicionais, para os europeus a ideia de progresso é a ideia de liberdade. E esta concepção de progresso, para o homem ocidental, tem a sua raiz no cristianismo ao romper com as ideias antigas do eterno retorno.

 

Herder questionava-se se a humanidade dependia ou não, como defendiam os filósofos do Iluminismo, da sabedoria e da omnipotência divina, chegando à conclusão que cada nação, cada povo representava uma manifestação do plano divino e que o seu desenvolvimento só podia ser entendido em tudo o que o diferencia dos outros povos e nações. Defende o primado do espírito dos povos em contraponto contra todas as visões dogmáticas da história e a afirmação do pluralismo cultural, da liberdade, da justiça, da compreensão e da tolerância para que a partilha do conhecimento universal seja acessível a todos com as suas diferenças e idiossincrasias. Afirma que a educação de cada povo é genética, que os climas influem na constituição ou formação do homem, asseverando que o ambiente natural influencia com determinação na força criativa e que há uma história subterrânea que vai preparando os grandes acontecimentos, ou seja, o primeiro momento da classificação conceptual: «Tal como a água de uma nascente recebe do solo donde brota a sua composição, as suas qualidades actuantes e o seu sabor, assim o antigo carácter dos povos proveio de traços raciais, do clima, do tipo de vida e da educação, das ocupações primitivas e das acções peculiares a cada um desses povos. Os costumes dos antepassados enraizaram-se profundamente e tornaram-se o protótipo íntimo da raça»2. É de notar a actualidade das suas teses quando defende o direito igual de todos os povos à sua existência, identidade e particularidade cultural. Inaugura um pensamento plural e populista centrado no espírito do povo e no espírito do lugar, destacando o papel do espaço geográfico, do meio ambiente, na relação com as tradições históricas e espirituais, sublinhando a necessidade de reconhecer as diferenças das culturas populares perante o avanço da modernização como se previsse, lucidamente, os questionamentos hoje levantados com a globalização do homem-excesso. O seu pluralismo assenta nessa crença dos valores próprios das diferentes culturas e sociedades, assim como na urgência do respeito mútuo para que o fio da história se entenda e interiorize na sua plenitude. Neste sentido, Herder surge, numa primeira leitura (e sem levar, aqui, em conta as teses dos seus críticos) como precursor de um espírito de tolerância que reconhece e valida a diversidade de todas as manifestações do homem nas suas mais distintas aplicações. Herder advoga o direito de todos os homens à liberdade e o pleno desenvolvimento de todas as suas potencialidades como ser criador em harmonia com os restantes. O reconhecimento do que é particular é para o filósofo alemão a necessidade de reconhecer a existência de outros diferentes de nós. 

 

A filosofia de Herder caracteriza-se, assim, pela unidade entre o homem e a natureza e pela percepção da pluralidade das culturas, ou seja, pela unidade entre sentimento e razão, filosofia e poesia. A poesia dá-lhe, através de analogias, comparações e metáforas, uma imagem da totalidade, porque é na poesia que se detectam as mais profundas questões filosóficas sobre o sentido da vida, sobre o destino, a fé, a esperança e o mistério. A sua visão acerca das particularidades, do indivíduo como ser criador, da matéria viva da história e das línguas dos povos sublinhavam a importância para o desenvolvimento do nacionalismo na Europa como conhecimento civilizador no seio de uma profunda convicção de justiça e liberdade. E a humanidade representa esse quadro grandioso da diversidade. As forças divinas expressam-se na relação do homem com a natureza, no espaço e no tempo e é neste sentido que Herder fala do progresso da história. E o sentido da História é encontrar a solução dos grandes problemas do humanismo.

 

Para se conhecer o sentido da História há que saber primeiro o lugar do homem no mundo, a sua relação com o cosmos. Mas nesse entendimento com o universo, o homem não deve ceder a crenças ocultas nem atribuir à astrologia a razão dos acontecimentos porque o movimento dos astros nada tem a ver, segundo Herder, com a morte ou com o destino. O que o homem deve fazer é desocultar e não o contrário, porque povos desocultados têm alicerces diferentes para resolver questões de uma forma racional do que povos crentes no ocultismo. E o progresso da humanidade passa pelo esforço individual de desocultação. «Sendo assim, o espírito observador deve exercitar toda a sua acuidade em cada um dos fenómenos históricos, como se se tratasse de um fenómeno da natureza. Ao narrar a história, ele deve procurar sempre e estritamente a verdade, bem como a maior coerência ao formar as suas concepções e juízos, e nunca deve tentar explicar uma coisa que é ou que acontece por meio de uma coisa que não é. Seguindo este princípio rigoroso, desaparecerão todas as fantasias e todos os fantasmas de uma criação mágica: procure-se ver em tudo simplesmente o que lá está e logo se revela na maior parte das vezes o motivo porque não poderia ser de outra maneira. Quando o espírito tiver adquirido este hábito na apreciação da história, terá encontrado o caminho da filosofia mais salutar, que fora do âmbito da história natural e da matemática dificilmente poderia encontrar»3

Ao opor a ideia de destino, Herder nota que o acaso ganha importância na definição do acontecimento, sugerindo uma História como sucedâneos de acasos porque os acontecimentos históricos não necessitam de lei, mas que acontecem segundo leis da mesma maneira que os factos naturais. Nesse sentido, dever-se-á procurar a chave de toda a situação histórica nas suas circunstâncias, porque ao perceber estas mesmas circunstâncias, o homem constata que só daquela maneira poderiam ter ocorrido. Assim, o aparecimento de uma civilização é, para Herder, tão natural como o surgimento de uma flor sem que se tenha necessidade de recorrer a teorias mágicas. Para o filósofo, a finalidade do processo histórico não é exterior ao próprio homem, mas deve estar entre as suas potencialidades. E a finalidade da história é esse humanismo que anuncia que o homem deverá ser mais verdadeiramente homem e que o seu contributo para esse fim deverá ser deliberado e consciente na sua efectivação. Herder revela-se, assim, como um filósofo da observação minuciosa das coisas, dos factos, cuja explicação reside no seu epicentro. 

 

O homem é o seu espaço e a sua língua, o humanismo a sua partilha incondicional, sem fronteiras, promovida pelo respeito mútuo e pela solidariedade dos homens. Para Herder, só assim a humanidade será mais justa e mais livre.   

 

 

 

E em que plano da História se encontra o homem actual? Numa encruzilhada civilizacional? Conquistado e ocupado pela máquina-mundo virtual, o homem tornou-se excessivo e insaciável, cuja linguagem o transporta para a corrente social da Second Life. Ecrãs, ipods, telemóveis de múltiplas funções são ferramentas de inscrições de acasos históricos impunes, de leituras dúbias e várias. Internet, blogues, hipertextos, links, entre um sem número de infindáveis suportes registam a mesma história sob pontos de vista diferentes, antagónicos, divergentes, adversos, criando propositadamente leituras incompatíveis que, aliadas ao excesso, à violência e à rapidez, deixarão, paradoxalmente, de ser espaço credível para a história. O acontecimento é um não-acontecimento de contradições, falsidades, invenções, cuja origem dificilmente se conhece, dando lugar a um palco de variedades no espectáculo da informação que a especulação proporciona. Não uma especulação que pense, que lance pistas, mas uma especulação que ostensivamente desinforme, engane, minta, lançando suspeitas, criando um outro palco de variedades que as chamadas teorias da conspiração oferecem. Há uma sociedade da desinformação que nasce na da informação, uma sociedade espectáculo, uma sociedade-ficção onde os factos históricos em si são pouco relevantes no seio de uma nova história que regista, acompanhando a velocidade excessiva dos não-acontecimentos, não o que o homem cria mas o que se diz que cria, não o seu protagonismo na história, mas o seu antagonismo histórico. 

 

O olhar de Herder está atrás de nós, a sua reflexão é o da história moderna. E como será a filosofia da História dos tempos que correm? Será necessário observar que a História, da mesma maneira que a sociedade global, entra a partir de agora num novo ciclo de modernidade, o ciclo da hipermodernidade e que se exprime tanto nos signos de cultura como na organização material do hipermundo. 

 

Alguns pensadores diagnosticam o fim de uma modernidade que se caracteriza pelo esgotamento do fim das utopias futuristas, dos olhares revolucionários e das vanguardas como motores indissociáveis da história. Poderemos saber se a hipermodernidade conseguirá apreender a época histórica contemporânea como ela socialmente se evidencia a partir da não-verdade, do falso, do virtual. O que será registado? O acaso do facto histórico ou a sua ficção, a sua virtualidade, o seu não-facto, ou seja, a apreensão multiplex de um determinado dado. O excesso de informação antagónica e anacrónica sobre o facto histórico, associado à distância que os corredores virtuais impõem, cria um outro dado clonizado, puramente virtual que, partilhado com inúmeros dados virtuais sobre o mesmo facto, gera um não-facto que a história registará. «A sociedade hipermoderna é aquela em que as forças de oposição à modernidade democrática, individualista e comercial já não são estruturantes e que, por isso, se vê entregue a uma espiral hiperbólica, a uma escalada paroxística4 nas esferas mais diversas da tecnologia, da vida económica, social e mesmo individual». Tecnologias genéticas, digitalização, ciberespaço, fluxos financeiros, megalópoles, mas também pornografia, conduções de risco, desportos radicais, performances, happenings, obesidade, vícios: tudo se amplifica, tudo se radicaliza e se torna vertiginoso, «sem limite». É assim, como uma imensa fuga para a frente, uma engrenagem sem fim, uma modernidade excessiva, que se dá a segunda modernidade: a hipermodernidade. 

 

 

 

E em que sentido esta dinâmica ultra mobiliza a filosofia da história? Serão as imagens e narrativas produto da realidade do facto histórico ou hologramas de não-factos? Estaremos numa época em que se pensa e escreve a não-História em detrimento da História como o idealizava Herder? Esta modernização exponencial não estará a colocar em risco o indivíduo da pluralidade e da democracia?

 

A avalanche tecnológica, que tem vindo a transformar radicalmente a relação do homem com o seu tempo, está a impor uma hiperhistória multirelacionada cujo facto verdadeiro se dilui nos crashs provocados por um novo terrorismo. A técnica deu lugar à hipertecnologia electrónica e informática que pode ser dominada por quem quer que seja e cujas hiperferramentas penetram nos cofres dos Estados, corrompendo-os, lançando-os no caos. A reestruturação do objecto danificado implica uma nova informação que anula conceptualmente a que foi destruída, dando lugar a falsos paradigmas. 

 

A hipermodernidade pode gerar uma História do Falso, do Não-Acontecido, do Virtual. Poderá surgir uma hiperhistória que marcará o fim da história, onde a verdade do facto histórico será substituída por uma amálgama de não-acontecimentos que gerarão um novo acontecimento. Pensá-lo como verdadeiro será corromper definitivamente o processo histórico. Teremos uma História das Ficções. Não terá sido sempre assim a História?

 

Notas

1 Johann Gottfried von Herder, «Ideias para a Filosofia da História da Humanidade», selecção que compreende o cap. VI, Livro XII, extractos do cap. VII, Livro XIII, e a Introdução e partes dos caps., I e V, Livro XV, da obra de Herder «Ideen zur Philosophie der Gesghichte der Menschheir», em Patrick Gardiner, Teorias da História, 6ª ed., tradução e prefácio de Vítor Matos e Sá, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2008, p. 43.

2 Op. cit. p. 44. 

3 Op. cit. p. 48.

4 Gilles Lipovetsky, Les Temps hypermodernes.

 

Luís Filipe Sarmento nasceu em Lisboa, a 12 de Outubro de 1956. Jornalista, Escritor, Tradutor e Realizador de Televisão.

Alguns dos seus livros e textos encontram-se traduzidos em inglês, espanhol, francês, italiano, grego, árabe, mandarim, japonês, romeno, macedónio, croata, turco e russo.

Produziu e realizou a primeira experiência de Videolivro feita em Portugal no programa Acontece para a RTP (Radiotelevisão Portuguesa).Coordenador Internacional da Organization Mondial de Poétes (1994-1995).Membro do International Comite of World Congress of Poets. Presidente da Associação Ibero-Americana de Escritores (1999-2000). Coordenador para Portugal da World Poetry Movement. Participou em mais de 100 festivais, congressos e feiras internacionais.

 

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