Cultura

Crônica: Rua Simpatia

Há uma rua perto de casa. Simpatia. Faz jus ao nome. Passando por ela somos acolhidos por bons sentimentos. É como se tudo que há no caminho se esforçasse para nos receber bem. Árvores floridas, casas de aparência acolhedora, prédios avarandados. Outro dia, parado em um farol, ou semáforo como alguns preferem chamar, vi alguém se embalando em uma rede. Edifício alto. Deu-me vontade medonha de também me esticar lá em cima, deixar-me acalentar naquele vai e vem gostoso e sem compromisso, próprio dos tecidos coloridos de pano pendurados em ganchos. 

 

Os carros não buzinam na rua Simpatia. Motoristas sorridentes abrem os vidros, esticam os braços e fazem gestos com as mãos nos dando passagem. Quase um frenesi de delicadeza. Os transeuntes, se é que podemos chamar assim gente distinta e alegre, e a palavra transeunte é tão feia, circulam pelo passeio como se estivessem realmente passeando. Flanam na realidade.  E flanar é tão bonito, não é mesmo? O gesto, a sonoridade de se dizer assim. Poder perambular ociosamente, seguir sem rumo certo.  E talvez no exercício descontraído de andar pelas calçadas sem maiores pretensões a calma prevaleça acalentando a alma.  E como os motoristas pisam com suavidade seus aceleradores, os veículos ronronam e o ar desconhece o que seja poluição.

 

O tempo é diferente por ali. Ponteiros dos relógios enchem-se de preguiça estudada. Estratégia, estratagema.  Seguem plano samaritano. Ao espicharem ao máximo os minutos, alongando as horas, expurgam daquela via tão aprazível toda urgência, engolindo possíveis pressas. O resultado é visível, sensível, imediato. Ninguém precisa chegar logo a canto algum. Assim, desprovidos de imediatismo, podem usufruir do convívio uns com os outros, perceberem-se. Toda gente que passa pelo logradouro parece gostar de gente.

 

Eu tomo a rua Simpatia saindo de uma avenida movimentada. Assim que sou abraçado por ela diminuo a velocidade, relaxo no banco do carro, começo a visualizar as tintas da natureza. Há uma primavera à esquerda, em frente a uma casinha pequenina de tijolo, térrea de janelas brancas, que parece explodir em vermelho. Tão viva e faceira, embora modesta na vaidade, só pode ser vaidade essa vontade de se exibir tão lindamente, que sempre me comove. Embora prenda ditadora o meu olhar, e me corte o fôlego com sua exuberância, mostra-se simples e não chega a maltratar-me, pelo contrário, é o colírio que prepara o meu olhar para o que vou encontrar dali para frente. 

 

Parado no trânsito, se é que podemos chamar assim a oportunidade de fazermos contato visual com toda a delicadeza disponível ao redor, observo um ipê soberano na calçada. Rosa. Parece proteger uma residência com jardim de flores e portãozinho de madeira. Alguém pendurou uma gaiola com um canário no tronco. Amarelo claro, não o dourado agressivo do ouro. Canário-do-reino. O bichinho ali perto das folhas da árvore talvez sinta-se-se mais em casa. E canta o danado. Estica o pescoço, aponta o biquinho para o céu e trina, gorjeia com tanto lirismo que desligo o rádio para poder ouvir melhor toda aquela paixão. E me emociono com o passarinho. Há no canto um desejo de liberdade implícito, ou seria em mim, na imagem que faço da gaiola? Prisão. Em dado momento ele parece olhar para mim e me sossega. Sempre viveu ali naquela árvore pendurado. Seu voo é mesmo curto, de um poleiro para outro, seu canto é tudo e não requer espaço. E a plateia de maritacas em volta emudece. Quietinhas, nunca imaginei ser possível, curtem aquele pavarotti emplumado. 

 

Mais adiante, felizmente ainda estou parado no tráfego, um cachorro parece desejar fazer coco. Sua dona, uma velhinha de cabelos azuis, afrouxa a guia presa à coleira, permite ao animal espaço. Ele, todo agitado, cheira aqui e acolá, descobre um pouco além um canteiro de marias-sem-vergonha. Parece gostar do tom violáceo, ou do perfume. Fica por ali um pouco ciscando e se decide. Alivia-se. A senhora, toda alegrinha, recolhe as fezes em um saquinho psicodélico, ainda não tinha visto, todo colorido. E me dá uma vontade louca de rir. 

 

Quando o carro anda, percorro o caminho vendo tudo com o canto dos olhos, afinal estou dirigindo. Cássias, Jerivás, Pitangueiras, Manacás, Paineiras, Ipês. Tudo florido. Volto a ligar o rádio e, coincidentemente, um som antigo está tocando: Age of Aquarius. Canção cantada em 1969 pelo Fifth Dimention. Novamente sou menino. A vitrolinha do meu quarto sempre ligada. Lembrança inebriante. Era um mundo hippie, a paz e o amor celebrados o tempo todo. Sexo, drogas e rock and roll. Psicodelismo. E me dou conta do quanto a rua Simpatia, em certo sentido, é também psicodélica. E sigo arrebatado por ela. Love will steer the stars. O amor irá dirigir as estrelas. E eu dirigindo meu carro neste mundo que não é ficção. A rua Simpatia existe.                                                                                                                

Ago/2021

 

 

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