Cultura

Bruno M. Silva. A cabeça em Tróia. Lisboa: Enfermaria 6, 2021

É preciso cuidado com as coisas do mundo

é preciso um coração como o teu, atento

de mãos ágeis sobre a nossa solidão

              Bruno M. Silva, A cabeça em Tróia.

A Cabeça em Tróia, primeiro livro de poesia de Bruno M. Silva surpreende pelo deslumbramento e velocidade das imagens que lhe traz um vívido fulgor cinematográfico e por um olhar atento, dignificante e revitalizador do humano. É, definitivamente, um livro para se ler devagar. Muito devagar, e voltar várias vezes, isso mesmo exige a sua profundidade: que o mergulho seja repetido, que o fundo não há, que o mergulho seja no escuro, e que nos traga irremediavelmente um pouco mais dentro. A profundidade é em si um tema percorrido ao longo de alguns dos poemas deste livro: “Com que cara / faremos de novo tudo / afundados já / começando agora a ser outra coisa” (p. 35), “atravessava-o muito à noite / quando a fundura dos campos / lhe aflorava sobre a pele” (p. 20), “então / volta ao princípio / o que importa / é o que disseres / submerso” (p. 16). Muitas das imagens remetem precisamente para uma profundidade líquida: “as crianças a engolir o nome” (13), através das quais a água, e as imagens marinhas se aliam a a uma ideia de intensidade, de memória e de experiência interna. Há transversalmente a “A cabeça em Tróia” um movimento de verticalidade, de cima para baixo, de penetração e de adensamento, movimento em direção ao mais profundo que é também um movimento de interiorização – de fora para dentro – o próprio ato de entrada na cidade de Tróia que a subdivisão da unidade poética sugere a partir das suas três secções “I da praia”, “II da muralha”, “III da cidade”. 

 

As referências à Antiguidade Clássica, presentes em poemas como “o fantasma de Pátroclo”, “O porto de Naxos”, “A cabeça em Tróia” ou o “O vaso” aliam-se às referências do quotidiano contemporâneo, biográfico, como nos poemas “Três ovos”, “O último comboio para Valongo” ou “Porto Revisited” onde impera um sentido de viagem, interior, num exercício de desmistificação daquilo que se encontra excessivamente ou artificialmente afastado em detrimento daquilo que está perto ou ao alcance do eu: “Como diremos que em certas noites / nem sempre aflorou o sonho / que o ponto mais luminoso de certos dias / foi o pão sobre a mesa, a rota” (p. 35). Há nesse sentido, como no poema que dá o nome ao livro, uma “volta ao princípio” (p. 16) que parte de uma proposta de desaprender, para reaprender, através do espanto, a realidade, entranhando-a enquanto paisagem interior. A verticalidade de A cabeça em Tróia sugere também um movimento de ressurgimento, o de vir à superfície, de aflorar, de emergir tornar visível, expresso em imagens de uma força invulgar: “Tróia, meu deus, toda a noite, o fogo / de manhã, a luz nos meus olhos doentes / e um rosto que das águas emerge puro” (p. 13). A ideia de renascimento é de grande vitalidade neste livro, indissociável de um ressurgimento poético, pela escrita.  Mãe / Campo / Milho / Pão manifestam-se como uma constelação de imagens que povoam este livro de um grande apelo telúrico, através do qual, a presença da figura da mãe é central para a vitalidade das imagens, imagens nas quais a presença do erotismo se entrelaça indissociavelmente à presença da morte: “Mas faltava ainda que o amor / incendiasse a paisagem // que a nossa mãe se despisse / para a eternidade // faltava que a morte / impusesse todo o seu peso // na carne lacerada do amor” (p. 29) “Fizemos tudo / trouxemos a palavra, o incêndio / para que vissem um rosto saturado de beleza // ainda assim um deus feriu-nos / ainda assim a morte” (p.13).  Constitui-se assim uma rede semântica do lado da beleza, da pureza e do fogo que se intensifica e agudiza com a imagem da morte, num sentido revitalizado destas imagens, e num contacto frontal com a sua autenticidade e origem. A beleza e a pureza de A cabeça em Tróia partem de um apuramento concreto das imagens e da linguagem, de uma forte intensidade visual, de uma complexidade que se torna nítida, de um grande poder de transparência, de uma reivindicação de dignidade humana; revitalização das imagens, da linguagem, do poético e nisso mesmo revitalização do eu através da escrita enquanto ato de exigência, de um cuidado e de um atenção  perante as coisas do mundo, feito de um olhar frontal, nítido e digno – transparente e vitalíssimo – atenta ao humano, à vida  e ao fogo de que somos indissocialvelmente feitos.

 

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981.  É autor dos livros de poesia: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015) e O Desenhador de Sóis (2017).

É leitor do Instituto Camões na Universidade da Califórnia em Santa Barbara onde vive desde 2015 e onde obteve o Doutoramento em Literaturas Brasileiras e Portuguesas, foi professor de Literatura Portuguesa na Universidade Nacional Autónoma do México onde viveu entre 2012 e 2014. 

Foi editor da revista literária Cràse e publicou em diversas antologias de poesia em Portugal, Espanha, México e Grécia, entre as quais a Antologia da Jovem Poesia Portuguesa (Atenas, Valkixon, 2021), a Antologia Lluvia Oblicua: Poesía Portuguesa Actual. (México: Círculo de Poesía, 2018), O Binómino de Newton e a Vénus de Milo: Poesia e Ciência na Literatura Portuguesa, organização de Vasco Graça Moura e Maria Maria Bochicchio (Lisboa: Aletheia, 2011) e Antologia Jovens Escritores 2008 (Lisboa, Clube Português de Artes e Ideia). Foi distinguido por duas vezes com o Prémio da Associação de estudantes da Faculdade de Letras do Porto na categoria de Poesia e Conto e foi selecionado para a Mostra Jovens Criadores (Literatura) 2008 em Lisboa.   É coordenador editorial juntamente com Maria Bochicchio da colecção Novíssima da editora Exclamação. 

Ode Menina é o seu quarto livro publicado pela editora Exclamação e reúne textos escritos entre 2018 e 2021, assim como alguns textos publicados anteriormente em livro.

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