Cultura

Apito da saudade na madrugada | Hermínio Prates

Noite inquieta, madrugada sem sono, imagens desfilando numa sucessão de lembranças. O que se esperava e não aconteceu, o acontecido sem previsão. Acertos e tropeços de uma vida com muito para recordar. Assim é, com o animal pensante que somos na pequenez dos laços que nos prendem, nos enredos e desencontros. Poeira de reminiscências, teias entrelaçadas no tear do imponderável. 

 

O homem pensa e ri no silêncio da solidão. Revê passagens de uma jornada entremeada de atos e fatos comuns, sem grandezas, mas nada que desmereça décadas de existência. Não dorme, racionaliza sem a bússola da objetividade.

 

E já não é noite, é madrugada. Um apito de trem, antes de ser o som que incomoda e espanta a dormência, puxa o cordão das vivências. O apito, mesmo sendo de um comboio de cargas, dispara flashes de um passado cada vez mais distante. E o homem liberta o adolescente que já foi para rememorar viagens antigas em vagões de passageiros de todos os cantos, cada um farto em sonhos e tristezas. 

 

E se vê de maleta na mão em busca de onde sentar no lado oposto de onde bate o sol. Da poltrona verde olha pela janela e se despede dos parentes com mil recomendações. Afastados, os parceirinhos de mergulhos no rio, peladas e bestagens da idade nem acenam, apenas se despedem com olhares – quem sabe de inveja -, por nunca terem ido além da serra e conhecido os mistérios da capital. Para alguns – poucos até – o limite aventuresco nunca ia além dos claros montes de uma cidade que já se anunciava como “a princesa do Norte mineiro”.     

 

E o adolescente, como se alforriado fosse, enfia um cigarro entre os lábios e o exibe como atestado de independência. Santa ignorância! 

 

Na poltrona da esquerda uma mulher, passada nos anos e derreada pelas trapaças da vida, debulha um terço e reza, com os olhos semicerrados pela fé intensa. Estaria agradecendo um milagre ou pedindo mais um? Quem sabe fosse caso de doença, sem-vergonhice do marido ou incertos passos de uma filha? Não saberia dizer, muito menos o que pretendia a moça desacompanhada que retocava a pintura, lábios entreabertos em moldura de beijo. A mulher remexia os cachos da cabeleira bem cuidada e parecia buscar admiradores entre os passageiros. Seria o que parecia ser ou o rapazote ainda estaria sendo influenciado pela intolerância de costumes tão comuns na época? Mistério, pois não tinha ousadia e nem dinheiro suficiente para descobrir. Isso se ela fosse uma daquelas de quem se diziam coisas.

 

Trilhos à frente, vilas e povoados desfilavam pela janela. Apitos e acenos, gestos que não se descobria endereçados a quem. Um amor que se foi, outros que nunca voltarão? Parece haver um código nos apitos. Ora é alvissareiro, ora enervante, como se o maquinista quisesse apenas irritar os que ouvem. 

 

Nas curvas, as crianças e os tolos espichavam os pescoços para admirar a máquina nas muitas curvas do traçado e quase todos sofriam nos olhos o incômodo de minúsculas partículas do carvão expelidas pela Maria Fumaça.

 

 O trem das tristezas e das esperanças transporta gente do Nordeste que enfileira sonhos no rumo da cidade grande, terra da garoa onde se trabalha e ajunta dinheiro, para depois voltar com mala sortida de roupas, óculos escuros, relógio brilhando no pulso. E um rádio transistor, comum em todo canto, menos no povoado distante, perdido no agreste da caatinga.

 

 Trem dos baianos, diziam os pretensos civilizados. Mas a busca da redenção incluía pernambucanos, alagoanos, sergipanos, paraibanos, cearenses e até vindos da banda mais ao Norte, todos migrantes da falta de jeito para se viver na poeira da seca. 

 

Um homem, com o olhar perdido no nada da noite, sopra uma gaita e dela extrai a prematura saudade de um pedaço de chão, quem sabe da mulher que ficou agarrada à promessa de retorno.

 

O trem avança, os vagões persistem no balanceio de bêbado, as rodas, com o atrito nos trilhos repercutem um chiado incômodo, mas inevitável. A modorra dos passageiros é interrompida pelo chefe do comboio, que picota bilhetes e anuncia a próxima parada, cidade que não é destino de ninguém.

 

De vez em quando alguém se levanta e, apoiado nos bancos para manter o equilíbrio, anda com passos trôpegos, entra no sanitário – quartinho infecto, já sem água na torneira – e se alivia. Volta com as narinas ardentes com tantos fedores, a garganta seca, os olhos avermelhados. 

 

Uma criança chora, a mãe murmura versos de ninar, todos se aquietam. E o som dos trilhos: tac-tac… tac-tac… tac-tac…

 

– Olha o café. Café com leite. Pão com manteiga…

 

Alguns compram, a maioria apenas espia. Falta de dinheiro ou de apetite? Cada um sabe de si, mas o pouco dinheiro que sobrou deve ser regrado até o fim da viagem. 

 

Quase vinte horas depois o trem chega à capital dos mineiros. A maioria desce com malas e mochilas. Os outros, os sofridos baianos de tantas origens, olham talvez invejosos daqueles que chegaram ao destino. O deles está além, muito além dos trilhos, em um monstro de concreto e máquinas, onde vivem os paulistas com a tradição de preadores de negros e índios. 

 

Hoje já não precisam vadear por rios e matas à cata de ouro, pedras preciosas ou mão-de-obra escrava. Basta aguardar que os “baianos” desçam do trem.

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda – Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

 

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