Cultura

Algumas reflexões sobre a vida e a morte, sobre tecer e cortar os fios

O mundo vive cotidianamente situações de violência, em que se constata a desvalorização do ser humano, transformando-se a vida em sofrimento muitas vezes insuportável. Mesmo diante de realidades desventuradas. No entanto, nos rebelamos frente à possibilidade de deixar de viver. Tememos na morte não a dor, mas a destruição, pois ela é o oposto da geração. Essa rebelião pela morte vem pela vontade de viver. 

 

Shopenhauer em O mundo como vontade e representação reflete que o sofrimento é o obstáculo a uma satisfação. Ao contrário, contentamento é o sucesso, é o êxito da manifestação de um desejo consciente ou inconsciente, devido a que o homem tem discernimento de sua própria morte. Contudo, ainda que a deixe adormecer, de tempo em tempo se desperta nele essa percepção por alguma circunstância. 

Quando as Moiras chegam cortando os fios da vida de não importa quem (amigos e inimigos, pais, companheiros de vida, parentes, conhecidos e desconhecidos, velhos e jovens) e entregam esses seres ao mal-humorado Caronte para a viagem ao Hedes, o ritual da saudade varia entre os que ficam, de acordo com  a sociedade e a época.

 

Senti na minha juventude a opressão causada pela morte de pessoas jovens, a quem Cloto ainda trançava o fio da vida. A primeira perda foi a de Jacizinha, uma amiguinha de infância.  Brincávamos na rua de roda e de pique e de repente o silêncio e um caixão branco levado, entre soluços

 

Quando soube da morte de Jacizinha eu estava em cima da janela do quarto de minha mãe aguando uma orquídea chuva de ouro. Por isso, sempre que vejo uma chuva de ouro, adornando um espaço com a sua rica coloração amarela, lembro-me daquela carinha mimosa e dos seus cabelos cacheados. Quase da mesma idade éramos, acredito. Talvez tivéssemos cinco ou seis anos, não sei… Mas sua figura bonita é uma sombra em minha memória. Rápido o crupe a levou. E ela estava só gripada, e esteve brincando conosco na rua… Foi estranho para mim o desaparecimento de uma pessoa com a qual eu estivera brincando e conversando.

 

Depois foi a morte do Zezinho.  Morava num sobrado mais ou menos próximo de nossa casa. Mas da minha casa ouviam-se os gritos de dor dele. Eram desesperadores. Que doença tinha ou teve não sei. Diziam-me que os médicos queriam levá-lo para Cachoeiro para amputar-lhe a perna, mas nem ele nem seus pais queriam essa operação. Ele devia ter 14 anos. Era um menino sadio, bonito, inteligente e bom aluno. Seus pais se desesperaram e depois desses gritos de dor angustiantes, veio o silêncio.

 

Marcante também para mim foi a morte de uma criancinha. Ouvi gritos de uma mãe na casa vizinha e fui curiosamente ver. Lá me deparei com uma criancinha que havia entornado o leite que estava fervendo sobre si. A mãe trazia a criança inerte no colo. Eu era pequena e não sei que história havia lido ou ouvido, pois apanhei um espelho e verifiquei que a criança não deixava nele nenhum bafo.  E passei a procurar alguém que pudesse socorrer aquele mar. Foi a primeira vez que constatei uma morte e fiquei chocada.

 

Não havia muitas mortes na cidade, nem mortes de parentes, que seriam as que trariam mais pesar. 

Lembro que quando passava um enterro em nossa rua, no Entre Morros, todas as janelas se fechavam e as portas, inclusive as do comércio. Claro que essa atitude significava respeito pelo morto e pelos familiares, mas havia também a forte intenção de que a morte não entrasse na casa de cada um. Mas a Ceifadora de Vidas, no decorrer do tempo, foi levando conhecidos, amigos, tios, pais e esposo, abolindo sonhos fugazes, e hoje no seu macabro baile adorna-se com o covid19, assola o redondel do mundo e abate a nossa ilha do mel. E interditos surgem para evitá-la e proteger o outro que em sua vontade de viver mostra  que a vida é um presente pelo qual nos cabe cuidar.

 

 

Ester Abreu Vieira de Oliveira (Muqui  – ES-Brasil–1933), escritora, atua nas áreas de teatro, poesia e narrativa das Literaturas Brasileira e Hispânica e é membro do colegiado do PPGL/UFES. Tem publicações de: poesia, ensaio, crônica, memória, infantil, didático, traduções e discurso, É Professora Emérita da Ufes, Presidente da AEL, Vice – Presidente da AFESL, Tesoureira da APEES, membro do IHGES entre outras entidades e é membro de conselhos editoriais.

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