Política

Alerta pela liberdade de Abril

 

 

Passam-se 47 anos sobre a data feliz do 25 de Abril. Portugal é outro país, incomparavelmente melhor do que era antes de 1974. Bastariam a liberdade de pensamento e ação políticas, o fim da censura, o fim da criminosa PIDE/DGS, a liberdade de reunião e associação, incluindo a formação de partidos políticos e sindicatos, para justificar o 25 de Abril do nosso contentamento.

Mas o resultado do 25 de Abril foi muito, muito mais do que isso, que já é muito.

Dizia Lenine que o socialismo eram os sovietes mais a eletricidade.

Pois bem, a primeira eletricidade que se acendeu em Portugal foi em 1878, tinha o rei D. Carlos 15 anos. Mas a iluminação a gás perdurou nas ruas de Lisboa até 1965, isto é, 39 anos após a ditadura protofascista de Salazar. E, em 1974, a quase totalidade das aldeias de Portugal ainda não tinha eletricidade, o mesmo sucedendo nas zonas limítrofes das cidades. Isto é: 100 anos depois da grande conquista da modernidade, a eletricidade era ainda um privilégio em Portugal. Isto bastaria para qualificar a longa noite do salazarismo.

A distribuição de água ao domicílio era uma regalia de parte das cidades e vilas, e inexistente nas aldeias.

À entrada das grandes cidades, em particular de Lisboa, o cartão de visitas eram bairros de lata. O bairro de lata da Portela de Sacavém, em Lisboa e junto ao nosso quase único aeroporto, exibia  uma das grandes vergonhas nacionais.

O saneamento público era um privilégio também apenas de algumas cidades, sendo inexistente em vilas e aldeias.

O rendimento per capita dos portugueses a preços constantes passou de cerca de 4.000 euros em 1974, para cerca de 20.000 euros em 2019.

Basta dizer que 1 milhão e 300 mil pessoas empregadas na agricultura em 1974 produziam tanto e recebiam muito menos que as 260.000 hoje em atividade.

As nossas exportações quase se resumiam à cortiça, conservas e concentrados de tomate. Hoje, exportamos tecnologia de ponta para a NASA e as autoestradas de grandes países.

De serviços de saúde fracos e caros, Portugal passou a ter um dos melhores serviços de saúde do mundo, que a Constituição impõe que seja tendencialmente gratuito. A qualidade de médicos e enfermeiros é, reconhecidamente, das melhores do mundo.

A taxa de mortalidade infantil, o melhor índice de desenvolvimento dum país, era, em 1974, de 55 crianças mortas por mil nascimentos, a pior em toda a Europa, atrás mesmo da Albânia, o país mais pobre deste continente. Hoje, é cerca de 2,8 por mil, uma das melhores do mundo.

A esperança de vida à nascença era de 65 anos, hoje é de 81 anos.

Chegámos a 1974 com uma taxa de analfabetismo de 25% da população. Hoje, a mesma taxa é a residual e herdada de cerca de 3%.

Em 1974, frequentavam o ensino superior, universitário e politécnico cerca de 75.000 alunos. Hoje frequentam o ensino superior cerca de 400.000 alunos. 

Em 1974 tínhamos 75 doutorados. Hoje temos 5.000.

No dizer de Salazar, Portugal era e seria sempre um pobre país agrícola. Na seu entender, sem as colónias que ele deixou ao abandono até o início das guerras de independência, e que chegaram a 1974 sem sequer terem televisão, estaríamos condenados à miséria. 

Poder-se-ia dizer agora que ele mentia. Não, talvez ele estivesse mesmo convencido do que dizia porque o seu horizonte foi sempre o da sua pobre aldeia agrícola do Vimieiro. Salazar ignorava o mundo em que vivia. O seu lema era viver como habitualmente: isto é, com um país em que a maioria esmagadora da população vivia miseravelmente em benefício de um reduzidíssimo número de ricos que, a nível europeu, nem isso eram.

Não significa isto que o 25 de Abril se cumpriu. Persiste entre nós uma miséria e insustentáveis desigualdades que os herdeiros do salazarismo persistem em manter. E eles mesmos persistem na mentira e no cinismo para voltarem ao poder na sua vertente mais extrema e violenta.

Todos os que amam a liberdade, a igualdade e a fraternidade, a verdade, a honra, a justiça e o progresso devem estar alerta porque estão aí os novos/velhos senhores das trevas. 

Não devemos titubear na defesa da liberdade e das grandes esperanças que Abril nos deu.

 

 

 

É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e dois de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da radiotransforma.

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