Política

Ainda somos os mesmos | Flávio Sant’Anna Xavier

Há luta no andar de cima. O general Braga Neto ameaçou o próximo pleito eleitoral se a Câmara não aprovar o voto impresso. A denúncia, não contestada frontalmente, foi dirigida ao presidente da Câmara de Deputados, Arthur Lira (PP-AL). 

 

O general assumiu a pasta da Defesa para que as Forças Armadas fossem chamadas de “minhas” pelo Presidente, subvertendo o comando constitucional de defesa da pátria e do território nacional. Diante da queda nas intenções de voto do seu “dono”, Braga Neto mandou lustrar a botina e anunciar, em tom intimidador segundo seu interlocutor, um golpe ao processo eleitoral. A não realização das eleições e a chicana jurídica que advirá com a adoção da contagem impressa, numa manobra que ecoa a estratégia de Trump nas eleições americanas, que só não avançou pela desastrada tentativa de invasão do Capitólio e pela neutralidade da cúpula militar americana.

 

Lira foi contemplado com a suntuosa quantia de R$ 11 bilhões do inacreditável “orçamento secreto”, onde criou sistema de castas para dividir o butim. Apenas para se conhecer sua dimensão, significa quatro vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente (o menor desde 2010). Ele controla o parlamentar a receber a verba, mediante a cooptação desbragada dos deputados que votam com o governo. Consta que os líderes têm direito a cerca de R$ 100 milhões enquanto um escalão intermediário R$ 80 milhões e uma casta inferior cerca de R$ 20 milhões. Tudo sob o véu da opacidade.

 

Não contente, Lira costurou apoio (com pouca resistência na Câmara, registre-se) para aumentar o Fundo Público Eleitoral de R$ 2 para R$ 6 bilhões numa conjuntura econômica de recessão e inflação até certo ponto baixa. Se a ideia do financiamento público eleitoral seria importante conquista ao privado, principalmente empresarial, não se previu limites para o enriquecimento ilícito, numa cultura política onde a tunga é a regra.

 

Os militares, por sua vez, estão gostando do poder. Leia-se, em bom tom, servir-se do poder como Lira e o centrão, apropriando-se do dinheiro público descaradamente, como ocorreu no Ministério da Saúde, agora revelado pela CPI no Senado. Descobre-se que dois grupos se digladiavam na obtenção de propina: o centrão e os militares. Enquanto o Brasil se transformava em pária mundial, um dos epicentros da pandemia mundial de covid-19. E com meio milhão de vítimas oficiais.

 

Os militares e o centrão lutam por espaço de poder no núcleo da corrupção brasileira. O centrão cresce com a vulnerabilidade de Bolsonaro, acuado pelas denúncias no Ministério da Saúde, mas também do seu núcleo familiar-miliciano. Os militares, por sua vez, controlam a máquina pública e não querem ceder poder, mesmo porque sabem que o preço cobrado pelo centrão aumenta a cada desgaste presidencial e eles têm a lealdade cadavérica para oferecer ao genocida. Aqueles querem dinheiro apenas. Nós também, mas somos capazes de morrer e principalmente matar, como afiançou esses dias um oficial do Exército.

 

Neste desgraçado país qualquer análise deve considerar estes aspectos mundanos e econômicos, o vil metal, como o fio condutor dos últimos tempos. A privatização do espaço público a qualquer custo, em nome da democracia, da ditadura, da esquerda, da direita, dos militares, dos civis, dos religiosos, dos ateus, quase todos.

 

A elite militar contemporânea, em sua grande maioria descende (pais, avós) da cultura anticomunista, dos reflexos da irresponsável intentona comunista de 1935, contra ela conspiraram com a CIA para a quartelada de 64. E a elite política, por sua vez, também cultua a herança familiar, os coronéis e sobrenomes se sucedendo, como um sistema de castas.

 

Até mesmo a CIA, quem diria, continua a mesma. Este mês aportou seu Chefe, William J. Burns, num giro silencioso na América do Sul, removendo o mofo do passado e nos revelando que a dor do passado ainda vive. A dor de perceber que “apesar de termos feito tudo, tudo/ Tudo o que fizemos/ Nós ainda somos os mesmos/E vivemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos como os nossos pais.”

 

Fotografia de Flávio Sant’Anna Xavier

Flávio Sant’Anna Xavier é Procurador Federal desde 1997. Autor de obras e artigos jurídicos na área do Direito Agrário e Administrativo. Autor do livro de contos “Guris” (2016).

 

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