Cultura

A Valkiria de Berlin | Danyel Guerra

 

I wanna  to tear down the walls that hold me inside”

                                                           U2

 

 

Semelhante ao rio que, constrangido pelas margens, anseia pela chegada à foz, um viajante busca, frenético, um táxi, à saída do aeroporto de Tempelhof. O que ele não adivinharia é que tão volumosa corrente de ansiedade iria deparar com um dique inesperado, uma barragem imprevista, um muro difícil de abater..

 

Te levar a Berlin Leste? Nenhum de nós pode fazer agora esse serviço. Sob a égide do espanto, o taxi driver nem sequer tangeu a corda da rispidez. Se limitou a ser categórico. Não, não é uma recusa. Ocorre ser necessário um visto, que só é concedido amanhã. Você vai ter de pernoitar neste lado da cidade.

 

Esse meu colega deve estar ganhando propina de algum hotel.  Se fosse veiculado em grego, o comentário passaria ao lado do pressuroso cliente. Embora expresso num inglês imperfeito, foi de todo descodificado. Eu escutei a escusa dele e estou disponível para te levar até ao checkpoint Charlie. Depois você atravessa o muro a pé e já no outro lado, pega um táxi para o Hotel Stadt Berlin.  Fica próximo da Alexanderplatz.

 

Mikis, nascido no Pireu, junto ao porto de Atenas, fã de Eusébio e dos Magriços da Copa do Mundo de 66, abre-lhe a porta do veículo, desliga o autorrádio onde se escuta os Earth, Wind & Fire cantando ‘September’. Com presteza, seu Janis Joplin Mercedes Benz arranca, dribla o trânsito e sem demora deixa Daniel Bendito junto à fronteira, que começa a atravessar em passo acelerado. No final de um longo e obscuro corredor, o estrangeiro depara com um militar, trajando farda marron, debruada a verde oliva, sentado à secretária. O burrocrata fixa, melhor dizendo, ficha o estranho, assestando um olhar severo, pretensamente intimidatório. O funcionário eterniza a checagem, comparando-o com a foto do passaporte, assinado pelo poeta-embaixador João Cabral de Melo Neto. 

 

Munido de uma lupa invisível, verifica o visto e a restante documentação. Devassa a bagagem, armado da lerdeza de uma lesma. Cinco minutos ainda e só então libera o intruso, proferindo um lacônico folge  em austero alemão.

 

Banhado agora pela luz desmaiada de um sol quase no poente, Bendito sente-se como se estivesse saindo do túnel do (mau) tempo para entrar num túnel ainda mais obscurecido. Do outro lado do muro da insídia, as ruas, as casas, as lojas, os edifícios lhe parecem mais plúmbeos que o céu sobre Berlin, alcatifado de nuvens ameaçando chuva iminente. O que não aparece é o buscado ponto de táxi. Nem um policial seus olhos vislumbram.

 

Meu reino por um táxi, clama Daniel Bendito, ele que até é reipublicano. E imagina. Neste lado oriental de Berlin deve ser mais fácil achar uma sex shop. Nas ruas e avenidas, mais limpas que bumbum de anjo, centenas, centenas de Trabants roncam, atroando e poluindo o ar. É a hora de ponta na capital da RDA. Um táxi, por fim, desponta no horizonte e num instante acelera à sua frente, ignorando olimpicamente o aceno.

 

 

Please, o Hotel Stadt Berlin está perto, dá pra ir a pé? A sexagenária, nada sexy, que passa por ele, grunhe um impercetível Nein.  E se afasta apressada, enfiando o rosto num boá de plumas, em pânico, como se um fauno a estivesse assediando.  

 

Lost, I’m lost…sem ter um GPS. Malgrado as contrariedades, ele continua trilhando essa espécie de Road to Nowhere. Uns metros à frente, cruza-se com uma menina loura, portando um saco de tênis e duas bolas de berlin nas mãos.  Please, você fala inglês? Het, het, só falo russo, atira, sacando um ace à Steffi  Graf, como se estivesse servindo num court  do Grand Slam. 

 

O sol, indiferente à sua deriva, precipita-se no ocaso e Bendito caminha ao acaso, atravessando uma cidade sem sinfonia, where the streets have no name. Metro após metro, a longa avenida, ladeada de edifícios anódinos, de fachadas deprimentes, começa a se tornar uma Highway to Hell. Olhando para o céu, roga, suplicante, que seu anjo guardião lhe envie um táxi, nem que seja sob a forma de maná.  

 

Hello, what time is it? Do outro lado da artéria, uma teen, de uns 18 anos álacres, mochila preta às costas, longos cabelos cor de fogo sobressaindo de um gorro amarelo, aponta com o indicador para o pulso esquerdo . Beleza, alguém fala inglês neste deserto. Ela sacou que tenho cara de estrangeiro. Se estivessemos do outro lado do mauer, seria lícito, legítimo pensar que ela está fazendo trottoir. 

 

Darling, são quase seis horas. Escute, estamos longe ou perto do Hotel Stadt Berlin?, indaga. Nem perto nem longe. Você que não conhece o caminho, carregado com bagagem, tem de chamar um radiotáxi, aconselha.  Mas eu não tenho o nº.  Eu também não.

 

Solícita, a garota roda os olhos vivazes uns 180 graus e sugere, indicador em riste. Ali, quase em frente aquela bus stop, tem um café, o Rote Stern, Entre e peça o nº. Mas ali só tem lojas em obras! Confie em mim, reclama, esvoaçando arisca, dotada do souplesse de uma borboleta. Valeu, babe! Qual é o seu nome? Brünnhild. I’m like a bird. Good luck!  

 

Daniel abençoa a dica da colegial. E uma óbvia ficha cai na sua cabeça. Eu sou muito bobo. Bastava entrar numa loja e pedir o nº. Ainda meio descrente, se aproxima do imóvel e constata que a loja em restauro se transmudara, num passo de mágica, em um buliçoso bar, repleto de fregueses  palradores, que ingerem espumosos copos de pilsener. No balcão, um barman, esbanjando solicitude, escreve no verso de um flyer do Berliner Ensemble, o bendito nº e o nome da avenida. Peça para o pegarem no Rote Stern. Nem 15’ passados, um trabantáxi, cor de café com leite de côco, para à sua frente, roooooncando.

 

Herr Bendito, seu hotel não é este. Vai ficar hospedado no Unter den Linden, decreta a recepcionista. Segundos depois, uma voz maquinal, inquinada de severidade soa em seus ouvidos como um soco em estômago vazio. Vamos, o traslado está pronto a arrancar. O jornalista ainda esboça uma contida contestação. Então, o Stadt Berlin é só para a nomenclatura, só para o apparatchik, não é?!  Vamos, estamos atrasados, brada o quase irritado motorista.

 

Lá fora, exposto a, cada vez mais, fria noite berlinense, está à sua espera um Trabant mais branco que a cal. Calado não fica e arranca rosnando, cruzando ruas, avenidas, praças desertas, soturnas, mais limpas do que chão de igreja em dia de visita do bispo. 

 

Chegado ao destino, Daniel, pejado de revolta, cansaço e desconforto, atravessa o saguão, driblando no trajeto uma caterva de agentes da Stasi, enfarpelados de cinzenta desconfiança. Cumpridas as formalidades do registro, recebe as chaves do quarto 989. No nono andar, à saída do elevador, por pouco que não tromba em mais dois agentes engravatados de seda de fancaria. Agora só me falta encontrar mais alguns desses escrotos dentro do quarto, dentro do armário, dentro da banheira, dentro da pia, dentro da…(dentro do bidê não, porque não tem bidê), dentro do televisor, debaixo da cama, no meio dos lençóis e dos cobertores. Se fosse uma policial parecida com a Nikita do Elton John…

 

Exausto, completamente exaurido de forças e de ânimo, toldado de sono, nem solicita ao serviço de quartos o apetecido beefburger  de Hamburgo e o suco de tangerine dream. Daniel atira-se para a cama, desliga as luzes, despenca no son(h)o. Wake me up when September  ends 

 

Horas depois, o Bendito hóspede despertará sobressaltado por gritos exaltados, aclamações empolgadas, barulho de máquinas em manobras.  O que está acontecendo lá fora? Levanta-se num pulo, corre para a janela, com muitos dedos corre as cortinas cheias de ferrugem. Abertas as portadas, depara com cenas de um espetáculo inacreditável. Junto à Porta de Brandemburgo, uma multidão de jovens e adolescentes delira, ovacionando  uma escavadora, que à imagem de um touro enraivecido, esventra o muro da falta de vergonha.

 

Ao volante da máquina, divisa o perfil de uma jovem ruiva de gorro preto e pulôver amarelo e vermelho. Brünnhild, aquela menina angelical…mas é ela mesmo. Tornou-se uma linda e intrépida mulher. Varado pela alucinante visão, Daniel se apronta num minuto. Toma uma ducha supersônica, engole o continental café da manhã. No saguão nem peugada dos esbirros da Stasi. 

 

Lá fora, ao longo da Unter den Linden espanta-se com as centenas de Trabants zanzando roufenhos, buzinando sem tréguas, lotados de berlinenses sôfregos para atravessarem  a fronteira do medo, finalmente em plena liberdade. Berlin já não é uma bola secionada em duas partes disformes.

 

Passos cada vez mais estugados, Dani corre direto para a Alexanderplatz. Na praça, egressas de ‘Berlin Alexanderplatz’, de Fassbinder, Mietze e Eva encarnam fascinantes réplicas das deusas Victoria e Irene. Eufóricas, ambas saúdam o repórter. Hello Danny boy, o Berliner  Mauer  foi derrubado. O III Reich capitulou em definitivo. Empolga-se Mitze. The day that never comes nasceu finalmente. Sua pauta foi alterada, Bendito. Faça uma boa reportagem. Incentiva Eva.

 

O jornalista já estava sacando o prateado gravador da aljava quando se sentiu alvejado por um estrepitoso projétil.  Deu um pulo que quase bateu o record mundial do salto em altura e acordou estremunhado no desalinho dos lençóis. Ainda ensonado, escutou o disparo de uma voz parecida com a da Lili Marleen Dietrich. Guten tag, serviço despertar. São oito horas da manhã do dia 23 de Setembro de 1986.     

                             Die show muss weitergehen!

 

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