Cultura

A soma das pequenas desgraças e a sua força em “Que enchente me carrega?” de Menalton Braff | Viviane de Santana Paulo

 

Muito me impressionou a leitura de Que enchente me carrega?, de Menalton Braff. O leitor é levado por uma correnteza poética e filosófica que flui até o final do enredo. Menalton Braff é ganhador do Prêmio Jabuti, em 2000, com o livro de contos À Sombra do Cipreste. É um poeta que domina a narração e um escritor dotado de visão singularmente perspicaz da realidade. A linguagem inovadora, as sedutoras associações poéticas, tornaram-se características marcantes em suas obras. O enredo de Que enchente me carrega? nos revela uma faceta comum da vida, que é a velhice e as suas consequências: a perda das coisas que amamos, o sentir-se um peixe fora d’água no meio das relações humanas. E descobrimos que não são apenas os grandes acontecimentos que modelam a vida de um homem, mas como suas pequenas e íntimas desgraças podem ser destruidoras. É a indiferença alheia que faz o homem se sentir irremediavelmente solitário na hora em que ele vê a sua construção de vida ruir por água abaixo. A dor que ele sente aqui é exclusivamente dele, “ele é o dono da sua desgraça”. Esta é a história do sapateiro Firmino, um homem conservador e íntegro que não quer ser visto apenas como um artesão, mas como um artista. Firmino não se entrega à mecanização de seu cotidiano e não se submete a determinadas leis impostas pelo meio social.  Ele trabalha com aquilo que gosta e sabe fazer, e por esta razão é invejado pelo melhor amigo. E quando a velhice deve ser um descanso e o lar uma recompensa pelos anos de trabalho, a decisão da prefeitura de desalojamento é o ápice de uma catástrofe que já vinha fluindo tacitíflua na vida dele. E ele luta para dar outro curso ao seu destino. Que enchente me carrega? desvela a latente impotência do homem diante da velhice, das relações familiares interrompidas ou desgastadas pelos anos, a incerteza e o vago de certos acontecimentos essenciais que escapam ao nosso domínio. Assim como no romance do sueco Lars Gustafsson, A tarde de um ladrilhador, que possui estilo semelhante. Trata-se de uma destas obras que, através da aparente simplicidade e despretensiosidade do enredo, mesmo após muitos anos, a sua leitura segue nos envolvendo.

 

 

Fotografia de Viviane de Santana Paulo

Viviane de Santana Paulo (São Paulo – Berlim) é poetisa, tradutora, ensaísta e romancista. Seus poemas  foram publicados em várias revistas e jornais da América Latina Lamerica e Europa. Autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002).

 

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