Cultura

A sereia | Carlos Eduardo Matos

Marli era a mulher mais requisitada do bordel. Olhando para ela, ninguém diria. Era bonitinha, com um sorriso simpático e cabelos tingidos de louro. Mas era meio lampioa, com um olho de ver gente e outro de ver bicho, e meio quasímoda, com um ombro levemente mais alto que o outro. Vejam bem, não era vesguinha e nem corcundinha, mas manquitolava nessa direção — pois a coitada tinha uma perna ligeiramente mais curta que a outra. Ou seja, era uma mulher que um cliente, com um atraso de dar gosto, encararia — mas que um homem com um mínimo de paladar sexual dispensaria gentilmente, com um tapinha na corcova.

 

O que fazia de Marli a rainha do puteiro era a voz. Adjetivos como “maviosa” e “angelical” não bastavam para descrevê-la. Era uma voz quente de alcova, voluptuosa, perfeitamente modulada e acariciante, que fazia o vivente tremer só de ouvi-la. Quando ela dizia “Boa noite, amor”, o cliente em potencial era atingido por uma onda de tesão, enquanto seu membro começava a se erguer para homenageá-la. Quando ela acrescentava “vem comigo”, pegava a mão dele e o conduzia manquitolando até o quarto, o cara quase ejaculava no meio do caminho. Era uma voz tão doce e sublime quanto o canto das sereias, mencionado por Homero na Odisseia. E tão perigosa quanto.

 

Uma transa com Marli era muito peculiar. Praticamente não havia preliminares, a voz dela era mais excitante que qualquer outra coisa. Boquete nem pensar, nada devia atrapalhar o fluxo de palavras sedutoras que escorria como mel de seus lábios. Os dois, na esmagadora maioria das vezes, partiam para um papai e mamãe, no qual a penetração na xaninha não era o mais importante, e sim as coisinhas deliciosas que ela sussurrava, enquanto mordia o lóbulo da orelha do otário. Depois de gozar, este ficava estirado na cama, com um sorriso idiota nos lábios, enquanto ela iniciava a parte maléfica do encontro. Pois, ensina a mitologia grega, as sereias eram lindas, mas também monstruosas.

 

Ela sempre falava em voz baixa, ainda mais acariciante e melodiosa que o habitual, para hipnotizá-lo:

 

— Gostou, amor? Pra mostrar que gostou de mim, que adorou transar comigo, você vai me dar todo o dinheiro que tiver, tá bom, querido? E vai voltar a meus braços na primeira oportunidade. Logo que estiver cheio de grana, tá bom querido? E vai esquecer essas palavrinhas e tudo o que aconteceu, só vai lembrar do som adorável de minha voz e de como foi gostoso me foder. 

 

O coitado concordava, sempre com um sorriso bobo nos lábios, e via, sem reagir, a sereia esvaziar sua carteira. Depois ia embora, feliz. Na rua, percebia a perda, mas não conseguia lembrar onde fora assaltado. E por quem. Além do mais, havia sobrado uma merreca para a passagem de ônibus, ela sempre deixava algum. Para Marli, era uma rotina de sexo sem prazer — pouco sexo e nenhum prazer —, que ainda assim satisfazia os imbecis e a tornava cada vez mais cheia da grana. 

 

Certa noite, ela conduziu, manquitolando, um novo cliente até o quarto. Ali iniciou a rotina da sedução vocal, mas viu, surpresa e assustada, ele virá-la de bruços e cravar o cacete no seu rabo. Ora, uma pessoa tão oral quanto Marli não podia ser entusiasta de enrabadas. E, o pior de tudo, sem preliminares, sem um beijinho ou uma linguada antes, sem dois dedinhos introduzidos para lacear; só houve mesmo a velha cusparada na cabeça do cacete. Mesmo assim, profissional rodada, ela aguentou, enquanto a raiva se acumulava em seu peito.

 

Quando ele terminou e, ficou deitado na cama, sorrindo como um bobo, ela explodiu:

 

— Gosta de comer cu, né, seu filho da puta? Vou deixar você sem um tostão, vai voltar a pé pra casa!

 

Controlando com esforço a aspereza que por um momento transparecera em sua voz, ela iniciou a cantilena sedutora e hipnótica. Mas, quando começou a esvaziar a carteira dele, viu o homem levantar em silêncio, avançar e pegá-la de suas mãos. Furiosa, ela tentou unhá-lo, mas levou um forte empurrão e caiu, batendo com a cabeça na beira da cama e desmaiando. 

 

Quando Marli recobrou os sentidos, o quarto estava cheio de policiais, que haviam encontrado os mais de 1500 reais que ela havia furtado dos clientes daquele dia.

 

Enquanto a sereia era levada para a delegacia, o chefe dos investigadores comentou com um repórter:

 

— A gente já sabia que algo estranho acontecia por aqui e vigiava o local. Muitas vítimas de furto contaram que sua última lembrança nítida era estarem aqui e transarem com uma mulher de voz maravilhosa. Nenhum deles a acusou, mas sabe como é… Quando o cliente comunicou o que havia acontecido, corremos para o quarto e encontramos a evidência. – E concluiu: 

 

— O azar dela foi ter esbarrado no mudinho, quer dizer, num cidadão surdo-mudo!

 

Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.

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