Cultura

A persistência do vazio imenso | André Giusti

 

Nunca conseguiu explicar por que sentia no peito aquele imenso vazio que vinha desde a adolescência. Até para si disfarçava, mas por dentro procurava algo que não conseguia saber o que era. Fez faculdade, comprou carro, casou-se, e o tal do vazio teimando em tirar a graça completa de tudo, reduzindo à metade o prazer pela vida, impondo sempre a impressão de que estava faltando um pedaço para que as coisas fossem do jeito que ele queria.

 

Só que as coisas nunca eram, e ele não sabia explicar o porquê. 

 

Aos trinta anos tinha um casamento estável, duas filhas pequenas, a mais velha já sendo alfabetizada numa escola relativamente considerada, que levava dois salários mínimos de mensalidade. Moravam sem luxo nem miséria numa casa boa sem ser esplêndida, sala dois quartos longe dos bairros nobres, mas também da periferia.  Não levavam supérfluos do supermercado, mas o básico, o que alimenta de verdade, esse não faltava, as crianças tomavam até iogurte, e eles chegavam a comer filé a cada cinco ou seis domingos. Tinham uma ou outra roupa de marca para as melhores ocasiões, e o carro dele, que fora top de linha algum dia, estava lá com seus doze anos, mas não deixava na mão, aguentava até viagens para perto. 

 

Mas aquela inquietude a corroê-lo por dentro! Era como se em alguma vez na vida, o houvessem feito engolir um ácido, não com o objetivo de matá-lo de imediato, mas ao longo dos anos, e não sem antes deixá-lo louco. Acordava beijava mulher, filhas tomava café via o dia saía pro trabalho comia voltava via a noite beijava mulher filhas ouvia palavras de carinho dormia de novo: sem estar satisfeito, sem que a vida o completasse com o que ela poderia lhe dar.

 

Estava estagnado. À noite, no minúsculo terraço ocupado quase inteiro pela máquina de lavar, ele olhava a rua quieta, e feito quem brinca com uma moeda entre os dedos, girava ainda na cabeça a frase que o amigo dissera na hora do almoço, quando chegou a tocar preliminarmente no assunto do vazio, da agonia, da satisfação pela metade, da certeza de que lhe faltava um bom pedaço de tudo, mesmo que ele não soubesse dizer o que era esse tudo, sua dimensão, sua cara, seu nome, seu limite. É, você está estagnado, e o outro diagnosticou sem a paciência necessária para ouvir o resto daquele jorro de desespero de quem procura sentido na vida.  Estagnado, nesse escritório de contabilidade, ficando louco com balanços e faturas, ganhando isso que a gente ganha só pra comer, pagar colégio de filho, botar meio tanque de gasolina e vestir mais ou menos. A gente precisa de segurança, salário alto no fim do mês, poder programar a vida pros próximos anos, ter dinheiro para investir, comprar casa grande, carro zero – a gente anda de fubeca, né? – chácara fora pra fim de semana, viajar sem prestação, pôr os filhos num colégio decente para eles passarem pra universidade do governo e pararem de dar despesa.

 

Olhando a noite que caminhava para o fim, suspirou como se assim pudesse agradecer ao amigo que o fizera enxergar o que durante anos boiara na escuridão da sua própria cabeça. Sentia-se o doente que afinal ouvira o diagnóstico preciso da dor misteriosa que há tempos o vinha minando e roubando sua alegria. Era então aquela casa, tão apenas decente, sem nada mais do que decência. Eram aqueles ternos da promoção do crediário em dez vezes; aquele colégio da filha que ninguém conhecia, que não anunciava na televisão; aquele carro que perdia potência na subida, que ninguém olhava no sinal. 

 

Descobertas as causas, na manhã do dia seguinte, seguro do que dizia, comunicou à mulher que iriam mudar de vida. Ela, pega de surpresa, sorria à meia-boca tentando compreender: mudar? De casa, de emprego? Sim, de tudo, por etapas programadas, o que temos não é o suficiente para a nossa felicidade nem para o futuro das meninas – ele, confuso, apressado, jogava o paletó nas costas e interrompia a frase para engolir café –, e quando elas casarem? Nem um quarto e sala poderemos dar? Saiu pela porta feito mariposa enxotada, deixando que a mulher decifrasse aquelas palavras atropeladas. De repente fala em mudar daqui, sair do emprego, e já emenda com o casamento das meninas? Sem entender nada, acabou perguntando ao cesto de pão se eles não eram então felizes como ela supunha e se sentia.  

 

Passou na banca e comprou um jornal de concursos. Concurso público, havia dito o amigo, é a salvação. Ficar trabalhando pros outros? Patrão só te tira o couro, chupa o sangue e te põe no lixo quando você está só no bagaço. E essa coisa de ser dono do próprio negócio, de ser empresário, seu próprio patrão, também não ‘tá com nada. Pra mim, pra você, duros desse jeito, vamos abrir o quê? Pegar empréstimo e comprar forno caseiro de fazer pizza em casa? Morre tu e tua mulher de tanto trabalhar e ainda vão à falência. Serviço público, não, vida  mansa, tem estabilidade, ninguém te tira de lá, você só sai se quiser ou fizer uma besteira muito grande, e mesmo assim…mas não é qualquer concurso. Pra trabalhar nessas repartiçõezinhas de bosta, com todo mundo fedendo a mofo e ganhando miséria, também não presta. Tem que ser prum cargo com salário alto, fora vantagens, licenças, gratificações. Não vê o Valadares? É alto-funcionário! Já viu o casarão? Tem também o sítio, comprou um carro alemão, a filha tá fazendo doutorado na Suíça, abriu consultório pro filho. O negócio é se encostar no estado.

 

Sim, o Valadares, o Valadares! E folheava o jornal. O amigo lembrou bem, o Valadares vivia sorrindo, bem disposto, corado, tinha umas camisas lindas o Valadares, falava de bons lugares, belos países. 

 

Tribunal de Justiça, Secretaria de Fazenda, Receita Federal. Escolheu aquele do melhor salário, cinco vezes o seu, o jornal dizia também das gratificações, das vantagens após algum tempo, e era só ter curso universitário, qualquer um, que podia fazer.

 

Seis meses, um ano levou devorando apostilas, comprou livros, fez dois cursinhos, teve aulas particulares de matérias específicas, deparou com assuntos que jamais ouvira falar na vida, não eram interessantes, mas o levariam ao objetivo. As filhas cresceram nesse ínterim e ele sem notar muito, às voltas que estava com os estudos e sem poder largar aquele escritório de onde, se Deus quisesse, se libertaria em poucos meses.

 

Em um total de 20 candidatos aprovados, foi o 18º colocado. Tomou posse em duas semanas, começou imediatamente. Entregou na concessionária o antigo carro como quem se despe de uma roupa imunda de lama e esterco. Saiu de lá com um modelo zero, nacional, enquanto ainda não eram possíveis os japoneses ou alemães. Tirou a filha do colégio, colocou-a em um que anunciava na televisão, onde estudavam os filhos dos novos colegas de trabalho. No final do ano, mudaram. Entregaram a velha casa como entrada e com mais trinta e poucas prestações foram para uma de três quartos, suíte, uma varanda média, jardim na frente, pequeno quintal atrás. 

 

Mas à época em que a casa foi quitada, para a sua própria surpresa, tomaram conta dele outra vez o vazio e a insatisfação, como antiga doença que volta a apresentar sintomas quando se julgava que estivesse curada.

 

Algum tempo ficou pensativo, falando quase nada, a mulher estranhando aquele jeito de pessoa que tinha compromisso marcado, mas que estava presa em casa por causa de um temporal. Em cada canto que parava, um suspiro impaciente antes de dar meia volta.

 

Então, agora, era aquele tribunal, ele acabou descobrindo, e aquele serviço de secretariar juízes. E era também aquela casa média, sem espaço no quintal para construir piscina, sem lugar no jardim para uma fonte d’água que chamasse a atenção da rua;  e era o segundo carro zero, que ainda só podia ser de modelo nacional.

 

Então comprou jornal de concursos e estudou mais um ano, e debruçou todas as noites sobre livros e apostilas. E foi aprovado para o cargo de destaque no tribunal superior; e finalmente comprou outro modelo nacional que não aquele, mas agora um com toda tecnologia; e mudaram-se da casa menos de dois anos depois; e construiu piscina; e colocou chafariz com luzes que todos passavam apenas para admirar; e comprou chácara, que vendeu para inteirar no sítio, do qual se desfez por um apartamento grande no litoral; e ô vida muquirana a sua naquele tribunal; e fez prova para trabalhar no órgão mais conceituado do governo; e tendo passado para ocupar função de extrema responsabilidade, precisava de uma casa em que pudesse construir quadra de tênis; mas carecia também de carro alemão, que comprou, ficou três meses, mas achou melhor o Jipe inglês, que logo pegou e deu de entrada num esportivo italiano; e fez reforma para ampliar a casa – poucas salas, ele dizia – e investiu em fazendas e comprou uma; e separou-se da mulher, que não acompanhava a cabeça dele porque contentava-se com pouco; e usou de seus conhecimentos para sair do órgão mais conceituado do governo porque aquilo não era lugar de ser feliz; e foi para o palácio do governo ganhando bem mais; e comprou duplex na praia; e deu a casa para a mulher no divórcio; e foi morar numa cobertura maior que a casa; e mandou as filhas para a França, para a Bélgica; e deu amplos apartamentos para cada uma quando voltaram; e montou confecção para uma, escritório de advocacia bem localizado para outra; e casou-se outra vez, com uma pouco mais velha que as filhas; e pediu licença no trabalho e ficaram seis meses rodando o mundo, e de volta  construíram casa que foi capa de revista; e achou que era homem do mar e comprou barcos de tantos e não sei quantos pés; e pediu outra licença, navegou a costa toda por oito meses; mas descobriu que não era do mar, vendeu o barco e trocou o esportivo italiano por outro que aquele já estava velho; e deu fartos rega-bofes quando as filhas casaram e apartamentos mobiliados como elas quiseram; e separou-se da segunda mulher, deu a casa para a vigarista, comprou outra enorme para viver sozinho, morrer sozinho com aquele imenso vazio por dentro que ele nunca conseguiu descobrir o que era afinal.

 

André Giusti, do livro A Liberdade é Amarela e Conversível (Editora 7Letras, 2021, 2ª edição)

 

André Giusti nasceu no Rio de Janeiro, em maio de 1968. Tem nove livros publicados, entre conto e poesia. Mantém site e blog em andregiusti.com.br .

Contatos @andregiustim68 e andregiustim68@gmail.com

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