Cultura

A noite entre estrelas e nuvens, caos e desespero

(prefácio ao libro de Marcelo Frota, Amores desfocados)

 

 

Ler a poesia de Marcelo Frota não é só admirar a coragem de um autor que, longe do seu lugar de fala, escreve, sente e vivencia no feminino. É, também, constatar que muito desse mergulho de Marcelo Frota é um mergulho profundo na Noite: a noite do amor, a noite da cinza, a noite em que, mais uma vez, a Mulher é abandonada. A difícil condição feminina sempre esbarrando nesse caldo de angústia que é o desamor. Evocando a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, “olhar para uma mulher abandonada é encarar um ser amarrotado. No seu olhar e nas rugas da sua cara pode ler-se a devastação da cinza em que mergulhou”. Nessa cinza, está o desespero, estão as memórias do mundo, está a angústia, mas também está a presença humana da esperança num novo amanhã.

 

A poética de Marcelo Frota mergulha nesse caldo de peito aberto e conta uma história narrada na primeira pessoa, no feminino. Ou serão duas histórias? Ou três? Ou vários abandonos? Não importa: em todos os abandonos estão presentes todos os anteriores e também a própria condição da Mulher. 

 

***

 

Assim: a primeira Parte do livro: “Mais frágeis que as flores, essas horas preciosas, Que nos mantém tão fortemente amarados” começa com uma tempestade que anuncia a noite: “Agora / No silêncio da noite / Sou vento / Tempestade que se avizinha no horizonte”. Essa tempestade feita de calo e trovões (não de água porque o amor não é líquido) é som distante que reclama o silêncio que há-de vir. Em certa medida, anuncia essa noite que muitos chamaram de escura – e, de um ponto de vista psicológico e real, é-o de facto -, mas essa escuridão é feita das veias e das vidas de pessoas reais que se amam e se desamam, que atam e desatam as suas histórias conjuntas. Porque, no fundo, todos estes momentos são um conjunto de cacos que se vão partindo em mil pedaços para, de seguida, se unirem de novo e para se voltarem a quebrar. No poema “Pedaços”, faz-se esta pergunta: “Reconstruir-me ei?” Sim, mas essa reconstrução é temporária: o círculo do desamor é um constante diálogo entre a vida destruída e a vida reconstruída. E, novamente, a queda no abismo numa espécie de roda de samsara urbana e infinitamente humana. Nessa roda viva de raiva e desespero, a Mulher dialoga com a sua memória e com os invernos que esses infernos evocam: o inverno da “imagem dos teus lábios”, o inverno “dos antidepressivos e calmantes” que são os companheiros possíveis, os invernos das traições, dos desenganos, das culpas (“Reflito e vejo que sou eu / Quem falava demais”), dos fracassos e da recusa em aceitar a separação ou o amor dos outros (“Não sei explicar / Essa ânsia pela tua vida / Nego-me a admitir / Que ainda te amo”) (“Senti aquele amor / Na minha pele, na boca / Há tempos não beijada”). Os invernos das revoluções constantes, onde “Rasgo retratos / Teus e meus”, onde “Busco esse amor nas páginas dos livros / Em românticos filmes preto e branco / De décadas passadas”. Sempre o passado e a busca incessante da memória mesmo que, por breves momentos, se escolha a vida como no poema “Deixar”: “Era deixar / Ou morrer / E escolhi a vida”. No entanto, que vida será essa? Vida autêntica? Ou uma vida que, no final de contas, é apenas uma respiração passageira para podermos saltar para o próximo abismo, num “Contínuo constante ciclo / Amor – dor”? E que vida será essa em que a única parte imaculada foi o facto de que “Não tivemos filhos / Graças a Deus”?

 

De uma certa forma, a primeira parte do livro remete-nos para uma “noite do desespero”, uma noite em que a angústia e a raiva alimentam a voz poética. Já a segunda parte remete-nos para algo que se pode aproximar de uma “noite da melancolia” e, também, do desejo que, afinal de contas, pode não ser desejo nenhum, mas um mergulho ainda mais forte na alienação e na ruína. O poema “Adônis”, ainda na primeira parte do livro, é um prenúncio desse desejo: o desejo ainda vive e vibra, a memória do corpo ainda é segunda natureza e ainda idealizamos demasiado aquele que nos fez sofrer. No entanto, transamos de forma fantasmagórica, como dois espectros que se alimentam das suas fragilidades, das suas memórias e dos seus vazios. “E nada mais, nada mais”: tudo o que segue é um imenso baile de sepulcros.

 

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“Há uma rachadura, uma rachadura em todas as coisas, É assim que a luz penetra.”: numa noite estrelada, a voz poética pretende reconstruir-se, refugiar-se no seu ser interior para esquecer a dor e o choro: “Não choro há três dias / Duas noites / Sim, estou contando / O tempo sem choro”. O início de um processo de reconstrução? Talvez, mas o caminho é sempre árduo e nem sempre o desespero equivale à melancolia: a melancolia pode ser imensamente mais insidiosa que o desespero. Até porque as noites estreladas são companheiras mais serenas, mas extremamente compactas no seu peso: são testemunhas da loucura, dos questionamentos constantes, da constatação de que fazendo “de um copo quebrado / Uma tragédia grega” iria levar ao fim do amor. No fundo, não mais o questionamento angustiado, mas a constatação melancólica e áspera da realidade. Ou como é escrito:  “A noite fria e serena / É berço esplêndido da devastação”.

 

E é nessa noite fria que se escuta a voz doce de Mallu Magalhães: uma voz ternamente viva numa solidão de quase-morte, uma espécie de limbo entre o reino dos vivos e dos mortos. Um limbo que desce “Do abraço para a cocaína”, numa entorpecência dos sentidos e dos afectos, num abraço a mim mesma desligado do autêntico abraço interior. Nesse abraço a mim e aos meus companheiros de solidão, cujas luzes iluminam “apartamentos distantes” e que “Mostram que não sou / A única insone”, o stress, o vazio, a síndrome de pânico, os pulsos cortados, as pílulas para dormir ainda dominam e alimentam o que resta desse corpo. E o que resta apenas adia a morte e garante que uma gaivota ou o corvo de Poe poderão ainda voar em círculos à minha volta por um tempo indeterminado. Mas eu sou forte e sei que, apesar de tudo isso, em algum momento, sobreviverei. Com a ajuda ou não da minha força e da empatia de Woody Allen, que me compreende tão bem!

 

Essa entorpecência dos sentidos, essas horas de spleen, de tédio constante irão depois revelar-se no desejo, no prazer [ou na ausência deles – ou no desejo desligado da vontade de vida e de amor]. Um prazer e um desejo que mais não é do que um diálogo de fantasmas, de companheiros de solidão e de desespero. Um desejo que revela necessidades, que existe e que permanece vivo, mas cuja vida se manifesta como amor desfocado, desejo sem manhã, vida sem ânsia de sol e de luminosidade. Um auto-desejo que grita no meio da nicotina; o gozo melancólico nos lençóis molhados de lágrimas; a fúria e a impiedade do prazer; o sexo casual; o prazer sem culpa, mas com o vazio das noites e das madrugadas. Porém, a manhã poderá passar por essa porta estreita e Bowie terá de se ausentar para fora do horizonte, deixando de “rimar mentalmente / My Death com suicide”.

 

*** 

 

As manhãs são para café e contemplação: contemplação do caminho percorrido, contemplação do caminho ainda por percorrer. Um Outono melancólico que deixa cair as folhas, mas que devolve a quem perdeu todas as esperanças a capacidade e a serenidade de ser gente. Nesse Outono e nessa manhã de nevoeiro, a rememoração é quase uma linha que passa diante dos olhos: “Fiz dos teus olhos castanhos minha morada / Da luz dos teus olhos, lua e noite estrelada”. É a última fase do luto numa lenta despedida do desespero. Nesta fase, o verbo, antes escrito no presente, é agora escrito no passado, quase como testemunho, memorial: “Foi assim”.

 

Todavia, ao contrário das manhãs místicas, gloriosas e luminosas na sua alegria, as manhãs de Marcelo Frota são lentas e pausadas, são como aquela Noite que Álvaro de Campos dizia “antiquíssima e idêntica”, aquela Noite “igual por dentro ao silêncio”1. Nessa demora, nesse amanhecer lento e tortuoso, o sol ainda é elemento estranho, pode cegar ou pode iluminar aspectos do nosso desespero que queremos que sejam secretos e só nossos. Afinal de contas, sofrer é um hábito e entranha-se na vida e no quotidiano: não podemos permitir que as manhãs tragam o sol verdadeiro para a palma das nossas mãos. Precisamos respirar “por hábito” e viver “as manhãs por convenção”.

 

Mas é assim: mesmo fumando unzinho e ouvindo Coltrane, precisamos de nos colar à vida, de recompor o que antes estava quebrado, de saber olhar de frente esse sol tão intenso, mesmo que esse olhar precise de ser reconstruído pedaço a pedaço. Bêbada e chorosa, mesmo quebrada, consegui sobreviver à noite, mas luto para não cair na depressão e não sucumbir à morte, tomando “Antidepressivos no café da manhã” e caminhando pelas ruas desertas, acompanhada por árvores, testemunhas imóveis do desespero; ou mesmo acompanhada por “Anónimos transeuntes de rostos fechados / Carros e motos e ônibus” que quebram o silêncio. Observo, nessa manhã contemplativa e de solitários, todos aqueles que perderam o seu amor e se mantêm, ainda assim, (sobre)vivos.

 

Mas relembrando o exemplo do filme O quarto do filho, de Nanni Moretti: por vezes, é através de alguém que a redenção acontece, alguém que tem o poder de nos relembrar que a vida continua, apesar dos nossos dramas. No filme de Moretti, é a personagem Arianna. No livro de Marcelo Frota, “um jovem casal de mãos dadas / um amor, talvez recém nascido”, trazendo o desejado sol a essa noite tão escura. Ou, pelo menos, aproximando-o para que ele possa iluminar o que ainda resta dos nossos demónios e das nossas noites tristes.

 

Amanheço então e digo a Deus que a Noite deve tardar.

 

***

Nota: Na poética de Marcelo Frota, a presença também muito forte e intensa da literatura, da música e do cinema. Uma presença que ganha consistência de personagem e paisagem: Casablanca, E tudo o vento levou, Lost in translation ; a voz desesperançada e agreste de Gainsbourg; as canções serenas de Chico que, tantas vezes, cantou como mulher; a rosa de Yeats; o som melódico, áspero e melancólico de Coltrane; a voz de Renato Russo cuja tempestade se une à tempestade íntima e intensa desta poesia; a arquitectura da cidade, cujos “Prédios altos e casas baixas” dão consistência a um profundo mergulho nocturno na alma.

 

E, claro, a força enorme deste poeta, poeta-Mulher, poeta-Coração, que escreveu um livro tão potente e tão importante.

 

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Notas de rodapé

 

1 Excertos do poema de Álvaro de Campos, “Vem, Noite antiquíssima e idêntica”

 

Desenho da artista italiana Giulia Frati.

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