Poesia & Conto

A metamorfose de Gonçalves

A metamorfose de Gonçalves: os cubanos 

PORTE fino, à distância, percebem-se os quilómetros que separam aquele indivíduo branco, de fato preto, óculos pretos, sapatos pretos, gravata preta e uma camisa branca só para contrastar. Perfume caro, do carro, com vidros fumados, entreabertos, é possível fumar a fragrância requintada deste jovem empresário.

Charutos entre os dedos, os lábios mordem o cubano, com a mesma raiva de americanos frios e vingativos. Prova lento, deixa a fumaça adensar-lhe o pensamento. Hoje saiu só, não quis motorista, não quer negociadores, conhecer a fonte que empacota o seu prazer é o principal objectivo.

Vai lento, quase que causa engarrafamento. Baixa o vidro, deixa as cinzas do charuto conhecerem o asfalto da cidade de Maputo. Coloca uma música para ambientar, é selectivo, seu ouvido não escuta qualquer artista. Já gostou de música erudita, mas hoje é mais rebelde, balança a cabeça ao som da música de António Variações.

Os bisavós são de Viseu, o pai rebelde proclamou-se moçambicano. O registo confirma. Então, Gonçalves é filho de moçambicanos. Não sabe falar, mas entende todos os insultos em xironga e xichangana. Responde mal a quem tenta lhe ofender.

A viagem já vai longa, saiu de um dos prédios da Polana-Cimento “A” para uma parte desconhecida da cidade. Não pensou em vias alternativas, ficou mais de meia hora a andar em círculos, mas está tranquilo, pois combustível é dos seus problemas o menor. Pára na Avenida Joaquim Chissano, repara para a Praça da OMM enquanto abastece o veículo.

Já gostou de música erudita, mas hoje é mais rebelde, balança a cabeça ao som da música de António Variações.

De fora, repara estudantes universitários metralharem fotografias, selfs, à distância, todos querem ter aquele carro que só vêem em revistas. Não é um veículo qualquer, é o último lançamento, em África, contam-se os empresários que têm na garagem aquela prova de que a engenharia automóvel se supera a cada ano.

Desce lento, desvia pela Avenida Acordo de Lusaka. Olha para o lado esquerdo e vê a pobreza  tranquila, a demonstrar que tem seguidores. Chega no semáforo e repara para o lado direito, tira a caixa de cubanos pronto para fumar mais um.

Um transeunte atravessa rápido, bate o vidro do empresário, que berra por ver aquelas mãos sujas a tocarem o seu carro. Olha para a esquerda e repara que outro miúdo corre, veloz e habilidoso levou a caixa dos charutos cubanos e caminha em direcção à Praça da Paz.

Solta uns insultos, fica vermelho, sua, tira o lencinho e limpa as gotas de água que escorrem no rosto. O carro anda mais alguns metros, faz um ângulo matematicamente correcto e já está na Marian Nguambi. Olha para a direita e vê meia dúzia de prédios que clamam por tinta.

Olha para as instruções do motorista, o negociador, o testa de ferro, que todas as quintas se arrisca, entra no bairro para satisfazer os desejos do patrão. Olha para a rua principal, percebe que são escassos os locais para estacionar e continua a andar. Desvia pela primeira rua depois da principal e estaciona o carro. Sai do veículo, o sapato caro pisa o chão. Anda lento e com ritmo até chegar a rua principal.

Endurece a expressão facial, olha para o cenário. Por instantes se sente na série “Walking Dead”, pensa em regressar, não consegue visionar tantos mortos vivos juntos. Desvia no primeiro beco, vê uma panela enorme de sopa a servir famintos em vida.

Ignora tudo e entra na casa. Pede para falar com o chefe máximo do local e todos apontam uma senhora de meia-idade. Estranha, pois a maioria dos filmes de narcotráfico são executados por vilões e não donas de casa, com capulanas e lenços amarados.

Senta com a senhora, pede o que lhe trouxe ao local. O filho da senhora prontamente traz e lhe serve. Instantes depois, para celebrarem a venda, o filho da “chefona” corre, entra na casa e traz uma caixa. Tira dois  charutos cubanos, corta as pontas e serve o convidado.

Perplexo, fuma os charutos que lhe foram roubados há pouco. Respira a fumaça e curte o momento. A vida é um ciclo.

A metamorfose de Gonçalves: o rolex 

GONÇALVES olha para o relógio com atenção, algo lhe diz que aquele será o último dia a apreciar o rolex. Fecha os olhos, mergulha a cabeça na superfície lisa, segue linhas, inala a rebeldia, leva para o seu corpo o caos vestido de branco. Pausa tranquilo. Normalmente, a quantidade que consumiu já lhe basta, mas hoje está na fonte e quer sentir a vibração com mais intensidade.

Olha para os mortos vivos, o vício transforma seres em escravos, que farejam no chão húmido do bairro de lata algumas sobras do veneno. Enquanto limpa as narinas com o antebraço, do seu lado esquerdo, alguém injecta o soro que Gonçalves consome em pó. No lado direito existe uma sala escura, onde se revela o segredo da pedra, que transforma príncipes em seres que armam golpes maquiavélicos que atentam a sua própria sanidade.

O empresário sente-se eufórico. Omnisciente, controla cada actividade do seu corpo, dos batimentos cardíacos, pressão sanguínea a temperatura corporal. O homem tem a certeza de que controla o universo. Respira ofegante, levanta, faz poses para uma revista imaginária, responde a questões. Pega no charuto cubano que estava perdido entre os bens que traz no bolso do casaco e fuma. Pede mais uma dose.

Aproxima e faz uma proposta: “Vamos à salinha, chefão. Tenho umas pedrinhas para ti, vais gostar”. Gonçalves já não é dono de si, deixa-se arrastar.

Linha a linha, o sol se põe e a lua reina. Ainda tem apetite, quer sentir a sensação de prazer. Levanta, caminha. Do nada coloca-se de joelhos e começa a gatinhar. O tecido fino do fato abraça o chão que recebeu de tudo. A “Chefona” oferece saliva à terra, o filho, que estava ao lado, com o pé mistura o líquido viscoso da progenitora com os grãos de areia.

Gonçalves levanta, fica sério e pede desculpas. “Pai, vou deixar de ser traquinas!”. Roga por mais uma dose. A senhora estranha, mas leva o dinheiro que Gonçalves mal contou. Mete nos seios e sinaliza Dom Mapengo, o segurança de plantão. O homenzinho percebe a ordem e monitora os passos do empresário bem-sucedido. Aproxima e faz uma proposta: “Vamos à salinha, chefão. Tenho umas pedrinhas para ti, vais gostar”. Gonçalves já não é dono de si, deixa-se arrastar.

No interior do compartimento vê duas mulatas e uma branquela já enfraquecida, que de joelhos pede mais um sólido. “Não. Sem mola não há rock, nem jazz”, disse Dom Mapengo. Gonçalves nem ouviu, tirou dos bolsos um dossier de notas e pediu pedras. Foi oferecido duas. Estranhou. “Ofereci muito dinheiro e só recebo isso”, lançou. Dom explicou-se que o veneno é intenso e caro, pois os seus efeitos são incalculáveis.

Depois de ser instruído, Gonçalves soube como consumir a pedra. Começou a filosofar, teve um encontro com António Variações, que lhe fez um corte de cabelo à maneira e assinou-lhe um autógrafo. Pediu mais pedra. Mas estava sem dinheiro e Dom Mapengo disse que queria apenas o fato. O empresário não hesitou.

Cinco minutos depois, pediu mais, ofereceu o relógio, mas a “Chefona” manifestou-se. “Não. Dom Mapengo leva o relógio, mas ele não pode consumir aqui. Desde as 10 horas que está aqui. Vai nos morrer esse aqui, aqui”, disse num changana.

Gonçalves, sem argumentos, leva a encomenda, cambaleia e na porta invoca tudo o que comeu ao longo do dia e atira ao chão. Enquanto anda em direcção ao carro, percebe que o sol já está em pé e os galos cantam a primeira serenata. Olha para o pulso, fica com os cabelos em pé e uma voz consciente lhe diz: “Não volta mais aqui”, mas o empresário ignora, continua a olhar com dor o pulso que perdeu o rolex.

A metamorfose de Gonçalves: Herschung  

ANDOU sem sentir as pernas. O vento soprava longe, a consciência estava à milha. Sem noção de tempo e espaço, com a cabeça a flutuar num planeta desconhecido, vagueava como uma pena à mercê do vento.

Gonçalves já não sente, possuído por uma insensibilidade que lhe torna metálico, imune à dor, tristeza, solidão, no silêncio escuta vozes, na multidão caminha como um apaixonado.

Olha para frente e percebe que os seus passos são lentos e pachorrentos como a passada de um jumento.

Agacha-se por cinco minutos e levanta lentamente para atravessar a rua principal do bairro. Passa para outra margem da rua, encontra outros tipos no mesmo estágio que o seu e pede ajuda, diz que tem as pedras, mas não sabe como consumi-las. Na desgraça sempre existe companhia, então ele recebe ajuda. Levam-lhe para outro quarto escuro.

Olha para as faces e percebe que um ciclone deformou estes seres. O egoísmo toma conta, mas a vontade de consumir aumenta a vontade de partilhar as pedras com mais dois. Repara para o ritual usado, copia enquanto segura um utensílio que já serviu para transformar a pedra em matéria-prima para a desgraça.

Gonçalves mete a mão no bolso, procura por dinheiro e só encontra as chaves do carro e meia dúzia de cartões, mas sabe que naquele local este tipo de pagamento não serve.

Gonçalves mete a mão no bolso, procura por dinheiro e só encontra as chaves do carro e meia dúzia de cartões, mas sabe que naquele local este tipo de pagamento não serve.

Os primeiros dois já se serviram, agora é a sua vez. Consome com raiva, sente um prazer indescritível, mas não é semelhante ao primeiro. Então pede mais uma. Primeiro lhe aconselham calma, depois prepara e distribuem na mesma ordem da primeira vez. Depois de consumir as sobras do que comprou, fica revoltado pela falta de efeito e pede por mais.

“Boss, tens de comprar”, alertou Estêvão, o filho de Dona Chefona II, sem dúvidas as quarentonas e cinquentonas estão no comando.

Gonçalves mete a mão no bolso, procura por dinheiro e só encontra as chaves do carro e meia dúzia de cartões, mas sabe que naquele local este tipo de pagamento não serve. Então relaxa, fica calmo, procura por uma solução. Enquanto o empresário raciocina, Estevão mira para os sapatos do seu cliente.

– Bossse, gostei dos calçados – disse o filho da dona.

– São franceses, da marca Herschung. Foram feitos à medida do meu pé. Com o valor que investi neles podes comprar uma motocicleta ou carro – diz com o sotaque da cidade Invicta.

– Bosse, tenho mais pedras para ti.

– Os sapatos são meus e não partilho.

– Leve as pedras, és um freind.

Gonçalves pegou na latinha adaptada, escondeu-se num dos vértices do quartinho e preparou sozinho. Sentiu, mas não era o suficiente. Pensou em consumir mais, mas o seu corpo vibrava. Confuso, não sabia se era a fome ou os efeitos do que consumiu. Ficou pausado, activou o modo estátua, mas treme. Tenta segurar-se, mas corpo vibra. Levanta e sem se aperceber da sua boca sai o que consumiu na última manhã.

– Tirem esse branquinho daqui. Está a sujar a nossa sala.

Sem forças para evitar mais vômitos, fica de joelhos. Estevão aparece e mostra-se companheiro. Ajuda o empresário a tirar tudo que devia ser tirado. O jovem promissor segura a areia húmida, sente que vai desabar, já não tem comando sobre o seu próprio corpo.

As mãos continuam a apalpar a areia, que vai se tornando cada vez mais fofa, confortável. Gonçalves deita-se, comprime-se e sossega. Planeia ficar naquela posição por dois minutos, pelos seus cálculos eram seis horas da manhã.

Acorda, tudo já está escuro, são 21 horas. Levanta, o chão duro fere os seus pés descalços. Transtornado, mete a mão no bolso e por sorte encontra as chaves do carro. Fica na mesma posição por 40 minutos, sem gesticular. Faz uma radiografia de si mesmo e percebe o ser que se tornou.

Mete a mão no bolso, mais uma vez, e sente que ainda tem as pedras, então desconfia de alguém, mas já está tarde para resolver problemas. Procura pelo carro. Depois de uma volta e 160 passos encontra-o. Analisa o veiculo, para ver se alguma peça foi subtraída. Percebe que não, então activa as chaves. As pessoas ao seu redor desconfiam: Ninguém acredita que aquele zumbi é proprietário daquela máquina.

Faz manobras e sai do bairro com calma. Pausa no primeiro semáforo da Avenida Acordos de Lusaka. Do vidro frontal repara alguém com os seus sapatos Herschung, feitos à encomenda. Quando o semáforo abre escuta alguém a gritar.

– Boss, tens de voltar. O carro também é nosso.

Hélio Nguane

Hélio Nguane acredita em seus sonhos e transforma-os em verdade. Com amigos fundou o Mbenga e escreve o seu destino. Colaborou com periódicos dos PALOP’s. É docente. Formado em Relações Públicas, Jornalismo e Publicidade e Marketing, também é fascinado pela pesquisa. Desde 2016, que é colunista do Jornal Notícias, o maior órgão de informação de Moçambique. Produz e sonoriza o programa radiofônico Cinema em Foco, que é difundido na RDP África. Este é só o princípio da revolução.

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