Sociedade

A comunicação após a pandemia caminha para outro patamar necessário | Valéria Navarro

A maior parte da população mundial foi pega de surpresa por um dos eventos históricos mais relevantes e impactantes das últimas décadas: a pandemia causada pelo vírus SARS COV2, trazendo a ameaça mortal da Covid-19, doença sistêmica que ceifou milhares de vidas humanas e ainda representa grave alerta sanitário, pois nos aponta a uma nova realidade. Sabemos que o modo de nos relacionarmos com o meio e com os outros que cultivávamos antes desse período agora é passado de fato e, assim, terá de ser superado e substituído por novas relações. 

 

Sabíamos que as relações de trabalho e as ações comunicativas vinham avançando ao encontro das formas virtuais de atuação, mas não tínhamos ideia de que a partir de março de 2020 passaríamos a depender sobremaneira dos canais eletrônicos e da Internet para sobrevivermos. Aulas não presenciais e trabalhos home office transformaram a rotina dos brasileiros e sacudiram até as estruturas familiares. De repente a única forma segura de manter contato com o mundo externo passou a ser via redes sociais, vídeo chamadas e outros recursos online. Psicologicamente não há como negar o impacto da ausência de contatos presenciais tais como antes éramos acostumados a vivenciar. 

 

Nesse espaço laboral e emocional a comunicação vem encontrando novas alternativas e caminhos e não podemos deixar de pensar como ela pode contribuir para vencermos os desafios que se apresentam dia a dia desde o início desse processo radical de mudança. O futuro das relações humanas depende de repensarmos nossas formas de relacionamento e comunicação. Se antes as muitas barreiras semânticas, culturais e sociopolíticas nos afastavam ou uniam e, por vezes criavam intransponíveis barreiras e intermináveis conflitos, agora na pós-pandemia precisaremos mais do que nunca vencer os nós de comunicação e abraçar uma nova forma de relacionamento interpessoal capaz de curar as muitas feridas que carregaremos desta experiência tão traumática. 

 

E como faremos isso? Como podemos contribuir nesse novo cenário que se revela? Com empatia. Essa é a palavra e a atitude central de qualquer proposta que de aqui em diante possamos considerar e assumir se nosso objetivo for não apenas otimizar, mas também humanizar nossos canais de comunicação com o outro e com o mundo. 

 

O psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, falecido em 2015 aos 80 anos, desenvolveu ao longo de sua vida, mais precisamente a partir dos eventos marcantes de sua infância em Detroit, uma consciência linguística e psicológica postural capaz de contribuir com os relacionamentos pessoais e profissionais de qualquer pessoa. A essa proposta de recuperação da natureza compassiva do ser, Marshall chamou Comunicação Não Violenta, CNV. 

 

Conflitos raciais na década de 40 e sua origem judaica mostraram a Marshall não apenas o quanto o ser humano pode ser cruel com diferenças étnicas e sócio culturais, mas, também, com qualquer pessoa que ameace o rol de pré-conceitos de que aquele ser foi treinado a carregar desde a mais tenra idade. O que afinal faz com que pessoas tenham comportamentos de violência e de exploração de outras pessoas? E como alguns conseguem se manter compassivos mesmo diante das piores adversidades? 

 

Para aqueles que têm apenas um contato superficial com a CNV pode restar a impressão de que se trata de uma dessas fórmulas mágicas muito comuns desde que a vertente mística da chamada Nova Era e das soluções estilo cápsulas de autoajuda começaram a ganhar força nas sociedades. A verdade, no entanto, é que só uma mente crítica e norteada por conceitos científicos ancorados na Psicologia é capaz de perceber a riqueza por detrás dessa proposta. A resistência inicial diante da Comunicação Não Violenta vem justamente porque estamos habituados a reagir ao outro e aos seus conteúdos, bem como a negar os nossos próprios.  

 

Palavras têm poder e podem induzir tanto ao crescimento quanto à destruição, tanto para a mágoa e a dor do outro e nossa própria, quanto para destravar nós de comunicação e profundas necessidades humanas não reveladas e que necessitam vir à luz. Aprender a modificar a forma como nos comunicamos é o caminho para que possamos adquirir a empatia que será a chave para o sucesso das novas relações pós pandemia. Até aqui fomos condicionados às formas de comunicação ou para coerção ou para a exploração do outro. Até aqui fomos condicionados a não reconhecer nossas próprias necessidades, a não expor genuinamente nossos pedidos e a sempre culpar o outro por nossos sentimentos. Daqui em diante precisamos pensar formas mais compassivas e empáticas de comunicação e de relacionamentos. Daqui em diante teremos que aprender a reconhecer nossas necessidades e sentimentos, assim como as necessidades e sentimentos do outro e, assim, juntos assumirmos a responsabilidade por um novo mundo pós pandemia capaz de justificar e possibilitar a continuidade da vida humana no planeta.

 

Não é exagero: estamos destruindo o local onde habitamos da mesma forma como destruímos nosso próprio ser e até a existência do outro. E não é exagero também frisar que as palavras têm poder nesse processo. Elas podem induzir, consciente e inconscientemente, a vários estados de sentimento, condicionando tanto de forma construtiva quanto destrutiva. Condicionar nossa atenção em objetivos potencialmente capazes de fornecer aquilo que realmente buscamos é otimizar a própria vida! E ofertar ao outro aquilo que ele busca, não por interesse secundário visando a manipulação ou dependência, mas simplesmente por alegria própria em causar a satisfação de outro ser humano é terapêutico. Assim como receber essa mesma atenção do outro de boa vontade é um ato de amor genuíno. Afinal, temos esse poder de enriquecer a vida do outro! 

 

Fotografia de Valéria Navarro

 

Valéria Navarro, Jornalista profissional diplomada, Mestre em Mídia & Conhecimento e palestrante na área de Comunicação Não Violenta. Autora de “Teorias da Comunicação e Comunicação Não Violenta” e “Mídias e Comunicação nos Direitos Humanos e Movimentos Sociais”, ambos pela Editora Contentus.

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