Cultura

A chave | Carlos Eduardo Matos

 

Fernando e Isabel eram colegas de faculdade e transavam regularmente. Era gostoso, muito bom mesmo, mas ela queria mais. Quando se encontraram num barzinho perto da facu, ela abriu o jogo:

 

 — Tá na hora de apimentar a coisa, Fê. Sou submissa, gosto de ser dominada, que me xinguem, que me batam na cara, que me prendam com algemas. Você gosta de dominar, de bater, de usar algemas, né, tesão?

 

 — Cl-claro, Isa – mentiu ele. A verdade era que Fernando gostava de trepar da maneira mais convencional possível. Variava posições, claro, mas sempre voltava ao bom e velho papai-mamãe. Dava palmadas na bunda da parceira, quem não dava, mas um tapa no rosto, nem pensar. E sua experiência com algemas resumia-se ao que via em filmes policiais. Ele sentiu, porém, que se revelasse suas preferências e sua falta de traquejo como dominador, iria perder Isabel.

 

 — Maravilha! Olha, a gente combinou fazer um amorzinho na sexta à noite, no meu apartamento. Não se esqueça de levar algemas e duas cordas, pra amarrar meus pés.

 

Fernando arranjou as cordas sem dificuldade e na sexta, antes de encontrar Isabel, passou numa sex-shop e adquiriu um par de algemas revestidas de pelúcia tingida de azul. Ela riu muito quando as viu:

 

 — Algemas pra mocinhas, tão delicadas… Preferia que você tivesse descolado algemas da polícia…, mas tudo bem. Vamos em frente.

 

A transa começou da maneira habitual, mas a atmosfera do quarto parecia diferente, mais pecaminosa, mais excitante. Eles beijaram-se longamente (ambos adoravam beijar), despiram-se e tocaram um ao outro, em baixo. Quando ele se inclinou para chupar-lhe os seios, ela o deteve.

 

 — Não, Fê, me amarra, se não a gente transa como sempre faz…

 

Ele assentiu, prendeu as mãos dela com as algemas, atrás das costas, e amarrou-lhe os pés com as pernas bem abertas. E a coisa começou.

 

Ele logo aprendeu o bê-á-bá da dominação. O lance era negar prazer à parceira, levando-a a um paroxismo de desejo e frustração. Assim, chupou o biquinho de um seio enquanto acariciava o outro, mas quando ela começou a gemer, ofegante, ele parou. 

 

Em seguida, ajoelhou-se sobre o corpo da moça e deixou o cacete a centímetros da sua boca. Depois aproximou-o lentamente, deixando que o tocasse com a língua, sequiosa. Mas quando ela tentou colocá-lo na boca, recuou e deu-lhe um leve tapa no rosto — o primeiro que dava numa mulher. Ela gostou, arquejou de prazer e mortificação. Ele conteve-se com dificuldade, adorava um boquete, mas estava descobrindo que dominar a parceira tinha suas compensações. 

 

A loucura mesmo foi quando começou a lamber e chupar o clitóris de Isabel. Ele o rodeava com a língua, sem tocá-lo; depois dava-lhe batidinhas — e de repente parava, fazendo-a uivar de raiva e prazer. Dava mordidinhas e quando ela, mesmo imobilizada, aproximava o ventre para tê-lo todo, ficava imóvel, como se tivesse esquecido o que estava fazendo. Ela estava encharcada, e ele, quase enlouquecido. 

 

Finalmente, teve pena dela e de si mesmo, e penetrou-a com força. Ela soltou um grito de prazer e de tensões subitamente dissipadas, e logo teve sucessivos orgasmos. Ele também gozou, enquanto era bombeado pelas contrações vaginais de Isabel. A transa fora uma delícia, e durara duas vezes mais que o habitual.

 

 — Uau, que loucura!  — Disse a moça, com um sorriso.  —  Agora me solte, tesão, quero me enroscar em você e ficar quietinha.

 

 — Claro, querida — Fernando afastou-se e foi pegar a chave das algemas, que deixara no bolso da calça. Enfiou a mão e não encontrou chave alguma; o que achou foi um buraco no bolso. Pálido, meteu a mão no outro bolso, como se a maldita tivesse mudado de posição por conta própria, e evidentemente não achou nada. 

 

 — O que houve, amor? 

 

 — A chave das algemas… perdi!

 

 — Encontra já!  —  rosnou a moça.

 

Aparentemente, a submissa saíra para tomar um sorvete ou algo semelhante. Em seu lugar estava uma mulher raivosa, que exigia, com razão, ser libertada de imediato. 

 

 — Não grita comigo, amor. Quando gritam comigo fico nervoso, e aí é que não encontro nada mesmo — disse Fernando num fio de voz.

 

 — Acha essa porra!!!

Fernando bem que procurou, vasculhou o quarto inteiro, olhou nos lugares mais improváveis, mas não encontrou a chave. Angustiado, falou que ia sair para buscar um serralheiro que a libertasse. Antes soltou as cordas que imobilizavam os pés de Isabel, era o mínimo que podia fazer. Ela o mirou com os olhos fuzilando de ódio e desprezo. Cobriu-a com um lençol, para que estivesse minimamente decente quando o homem chegasse, e deixou o apartamento.

 

Por sorte, sabia o endereço de um profissional que trabalhava 24 horas. Era um homem de uns 35 anos, moreno e alto, corpo musculoso sem um pingo de gordura — o tipo de cara que fazia jovens universitárias descobrirem os encantos do proletariado. Gaguejando, Fernando explicou-lhe o que havia acontecido. O homem olhou-o com um desprezo mal dissimulado e falou.

 

 — Tudo bem. Vamos lá, playboy.

 

Meia hora depois, entraram no apartamento. Isabel estava com um seio e uma coxa expostos; ela havia se retorcido toda para fazer isso. Encarou-o em silêncio, com uma expressão de desafio. Ele engoliu em seco, enquanto o homem a devorava com os olhos. 

 

“Ela fez isso pra se vingar de mim…”, pensou Fernando, acabrunhado.

 

O homem abriu as algemas com uma chave mestra e a libertou. Enquanto ela sorria, sem a mínima preocupação em se cobrir, o cara falou.

 

 — O playboy procurou tudo, né, mas aposto que não olhou ali — apontou para um taco meio solto, foi até ele, levantou-o e bingo! pegou a chave. 

 

O atleta deve ter empurrado ela pra baixo do taco, sem notar. Também, com uma mulher tão bonita e gostosa quanto você esperando na cama… 

 

Ela sorriu deliciada. “Essa vaca tá se oferendo toda”, pensou Fernando, enraivecido. “Daqui a pouco vão trepar aqui mesmo!” Para quebrar o clima, chamou o serralheiro para voltar à oficina – mas isso não impediu que ele desse um cartão a Isabel. 

 

 — Se a gatinha precisar de alguma coisa…qualquer coisa – disse num tom cheio de malícia e desejo.

 

 — Pode deixar que eu ligo — respondeu ela, com uma expressão faminta e passando a língua no lábio inferior.  

 

Antes de saírem, Isabel chamou Fernando num canto, mirou-o com desdém e falou uma única palavra:

 

 — Incompetente!

 

 

Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.

 

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