Cultura

A autópsia do rato

 

Já não havia esperança. Rostos em febre, vozes roucas de tanto berrar, corpos sem expressão; rostos sem forças, panelas vazias. Era desolador o cenário. No desespero, todas as soluções são válidas, o salvador pode ser encontrado até nos locais menos prováveis. O caos tem suas fases, temos de entender cada um dos seus estágios para melhor percebermos o desespero do Cossa, pai de família vítima do infortúnio.

A morte foi violenta. A família reconheceu logo que a vítima era da sua residência. Sem documentos, apenas com palavras, lavradas com dor e raiva, foi dada a ocorrência. Embrulhado com um pano imaculado, o morto será observado pelo doutor Matlhombe. O especialista reparava para o local do crime com astúcia, radiografava cada detalhe, cada pista. Enfim, fazia a perícia.

O cadáver era pesado, foi lavado com água e sabão. Na sala de “autópsia” (na verdade, necrópsia ou exame cadavérico), Matlhombe começou por analisar a parte externa do corpo. Alfredo Matias Mateus Cossa, tomado pelo desespero, fez papel de auxiliar, procurando evidências. Anotava, mentalmente, todos os detalhes.

Matlhombe respira fundo, sem pudores, parte para o exame interno. O processo começa pela abertura das cavidades do cadáver e pelo exame minucioso de suas vísceras. Com um instrumento perfurante, minúsculo, o especialista rasga o morto do pescoço à púbis. Formou-se um “I”. Agora ele tem acesso à caixa torácica e ao abdómen.

Sem falar uma única palavra, Matlhombe trabalha. Analisa o corpo, examina os órgãos, faz uma análise geral e microscópica. Faz anotações que prometem revelar no relatório final. A família está na expectativa, quer conhecer o resultado do trabalho.

Depois dos órgãos do tórax, o especialista corta o couro cabeludo de uma orelha à outra para remover o cérebro. “Mas porquê estás a fazer isso. Não queremos saber o que o animal pensa. Queremos… queremos”, disse Cossa, tomado de raiva.

Matlhombe esboçou um sorriso e continuou a realizar o seu trabalho. Retirou a “tampa” do crânio, com habilidade e minúcia. “Papai, o cérebro só pode ser arrancado se as linhas e os nervos que o conectam ao corpo forem cortados. Viu, cortei todas as linhas. Algumas delas estavam ligadas aos olhos”, dizia, num xichangana erudito.

Os filhos do Cossa olhavam para a operação com nojo. Enquanto isso, Matlhombe limpava o estômago do morto, colocou num recipiente. Cossa tentou pegar. “Deixa isso. Não atrapalha, compadre!, ameaçou o médico reformado.

O suor escorre da face do especialista. Pensa em limpar, mas desiste. “Tenho que voltar a meter os órgãos e depois fechar o corpo”, explicava, num Português alentejano mal falado.

Matlhombe pensa em costurar, aliás suturar. “Dá-me uma agulha, daquelas bem pequenas”, diz.

Matilde corre, vasculha e entrega. “Mamã, minha agulha vai cheirar mal. Quero outra para coser as minhas bonecas de pano”, dizia a criança aos pulos.

A mãe, sem tirar uma palavra, agachou-se, levou o chinelo esquerdo e ameaçou a menor. Sem argumentos, Matilde calou e continuou a acompanhar a “autópsia”, ou melhor, necrópsia.

A agulha trabalhava, o médico optou pela costura contínua, coseu o animal do ponto inicial e seguiu até ao fim dos cortes. Com o pano branco, cobriu o cadáver. “Temos de fazer o enterro depois”, disse Matlhombe.

Cossa, a espumar inconformismo, gritou. “Vamos enterrar a sua mãe, páh! Termina isso, senão não vais receber a sua exportação, pah!”, dizia, emitindo o sotaque alentejano que, por vezes, o médico usa.

No seu todo, o processo durou cerca de duas horas. Ao fim do exame Matlhombe reuniu a família e disse o motivo da morte.

“Ele morreu engasgado. E sem vida, recebeu uma pancada. Tudo indica que foi o pilão de alho”, disse.

– Cossa, penso que tens de mudar a forma de guardar o dinheiro. Em baixo da cama mesmo…

– Compadre, não te metas na minha vida.

– Sabe, não terei tempo, de sempre, estar na sua casa para recuperar o teu dinheiro.

– Eu negociei contigo, dei a exportação de água ardente e tu, massopene (bêbado) que és, aceitaste.

Foi amor à profissão.

– Que amor, foi paixão pela bebida, mazé.

Enquanto falavam em voz baixa, a família de Cossa procurava ler os lábios dos dois para perceberem o que diziam.

– O animal triturou as notas de 500 e de 1000 meticais, elas estão danificadas, mas os números ainda podem ser vistos. Vai ao Banco Central, ainda podes recuperar – disse Matlhombe.

– Diga à minha mulher que só recuperaste 1000, eu sou um mapagabem – completou Cossa, agora mais tranquilo.

Depois de dialogarem aos cochichos, Matlhombe despediu-se da família e levou o rato para uma segunda análise.

 

Hélio Nguane acredita em seus sonhos e transforma-os em verdade. Com amigos fundou o Mbenga e escreve o seu destino. Colaborou com periódicos dos PALOP’s. É docente. Formado em Relações Públicas, Jornalismo e Publicidade e Marketing, também é fascinado pela pesquisa. Desde 2016, que é colunista do Jornal Notícias, o maior órgão de informação de Moçambique. Produz e sonoriza o programa radiofônico Cinema em Foco, que é difundido na RDP África. Este é só o princípio da revolução.

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